o que escorre em meu olho esquerdo é meu passado. toda condenação eterna, eu vivo diariamente. em tempos como esse, canso-me mais do que o comum ansiando o findar das coisas que nunca vêm.
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@unrealdante
o que escorre em meu olho esquerdo é meu passado. toda condenação eterna, eu vivo diariamente. em tempos como esse, canso-me mais do que o comum ansiando o findar das coisas que nunca vêm.
eu fui pequeno em quase tudo que tentei meu corpo tremia em cada passo dado; fui mera conveniência quis ser muito fui tão pouco, fui puro acaso.
com frequência me sinto distante de mim. me parece que dessa vez fui longe demais e o antigo refúgio agora se assemelha a todos os outros. talvez meu pecado já não tenha perdão, cruzei uma linha perigosa — como se tivesse mesmo conspirado contra o próprio Deus
eternamente exausto
os delitos que cometi são pagos com sangue, jorram de mim sem pausas. pecados cometidos por uma natureza pecadora; demorei até perceber a ironia disso. o que persigo me rejeita, a luz que atrai também cega — sou incapaz de mergulhar. tudo isso pulsa em mim, meu cadáver anda por ai sem saber onde deitar.
deitado na grama o teto estrelado me recorda coisas que nunca vivi. um passado recente onde olhos parecidos viram o mesmo céu. nisso reside todo universo as constelações não nos alcançam — fizemos galáxias em corações distantes isso é magia.
me escondo entre milhares querida, não sei ficar de pé.
meus olhos recordam anjos antigos em meio as ruinas eles têm meu semblante são todos espelhos? os dias já não diferenciam são todos cópias são todos finais.
por essas facas fincadas com afeto nunca deixei de sangrar. foi teu carinho, não tua covardia que me tirou a vida. no topo dessa montanha abismo parece refúgio. e no encontro de outra alma, insisto no antigo; chamando fantasmas pesados demais à mesa. preencho minha alma com ternas gravuras cicatrizes modernas que em silêncio, me amaldiçoam.
num universo vasto
indiferente, frio, vazio
você é meu motivo.
você é matéria
a mesma das estrelas.
talvez quando pedi
pelo seu amor
antes de te conhecer
tenha passado
estrela cadente
da qual
nós dois
um dia
já fizemos parte.
quando há dúvida,
o amor enfraquece.
eu desejei te amar sem te encher
porque oceano dispensa gotas
mas quando tu fluiu
eu sobrei.
existe algo de belo em ficar para trás
talvez seja sobre aceitar
o protagonismo alheio.
eu me perdi no caminho. a estrada é cheia de pedras desafia a valentia, sequer me lembro onde parei. cruzando o horizonte, vi estrelas que mais pareciam incêndios — quando tocaram meu corpo, ardi e chorei. os sinais do fim sempre me rodearam. acuso essa ira e revolta, não sei por que me permiti morrer tão cedo. traí a mim por tão pouco. minha alma ainda canta em voz baixa, essa teimosia que sustenta todo meu mundo é minha prova de sustento; desde o inicio, eu sobrevivo em meio ao fim.
eles falam de guerras com suas métricas e fórmulas aprenderam a destruir tudo que já teve vida. as máquinas não precisam vencer o que se derrota sozinho sempre houve morte em nossa história apenas cunharam esse omnicídio em mármore bruto. os retratos são manchados porque até os bons atos viram sangue nessa poeira. até quando esse monstro devorará nossos corações?
quando me perco do que amo, o abismo lentamente se abre. as luzes descem e os muros crescem — essa escuridão que experimento parece mesmo o fim do mundo.
há memórias que ressoam feito eco de um chicote. não há final feliz. a mão que bate, a boca que escarra e a língua que maldizia, se vão sem pedir perdão, em vão, você espera por isso. teu peito salva quando tu percebe — não basta perdoar, é preciso aceitar: certas cicatrizes não curam nem se desculpam.
outrora desejei ser qualquer coisa menos o que sou. vasculhava em meu peito mas não havia outra coisa, e isso doía.
há rumos estelares, mas não são eles que busco. quero apenas respirar, existir em meu pacifico cotidiano, que ainda sem grandes aventuras é gigante em todos seus detalhes. sem vestir terno, quero minha pele no sol. quero agir de acordo com minha natureza, só assim encontrei paz. mais uma das contradições da vida, a anestesia que causava prazer era quem me cegava o remédio não vinha em frasco estava onde eu me recusava olhar. a cura estava na sombra, dela surgiu minha catarse.
passaram-se dias, parecem horas. é um espetáculo vazio: o amor não rouba sua fé mas sua pluma o esconde da maldade maldade que habitara em teu peito e que agora, se encontra exposta. feito fratura você grita rasga a pele e perfura a alma mas não te escutam, querida. pois o amor também é surdo só compreende o que existe e exige mais coragem do que nós, covardes, estamos dispostos a dar. se por acaso ousar agir então permita o pleno gozo o rasgar-se inteiramente aquilo que morre, viverá, mas aquilo que tenta viver, morrerá.