Essa é a história de uma apática vida. Essa é a história de como se perde tudo em alguns meses e em como o mundo desaba nas costas de quem não aguenta. Essa é a minha história:
Meu nome é B., em breve terei 22 anos e estudo psicologia. Ou pelo menos eu acho que estudo. A minha impressão é que cada dia mais eu sou mais inútil em minha profissão e quanto mais eu aprendo, mais eu me sinto incapacitada de atuar. Isso QUANDO eu aprendo.
Entrei na faculdade aos 18 anos e estava também começando um relacionamento muito novo, após sair de dois relacionamentos extremamente conturbados. A minha meta de vida era mudar totalmente e ser melhor do que eu jamais havia sido. Infelizmente, a vida nos põe à prova de que essas mudanças tão esperadas, vez ou outra são impossíveis.
À medida que fui seguindo em frente eu percebi que eu estava apenas e unicamente seguindo em frente: sem perspectiva alguma. Eu fui empurrando com a barriga todos os altos e baixos que me aconteciam, eu não produzia nada, mas quando produzia, eu não me orgulhava. Quando eu tentava sair deste enorme poço de lamentação, eu me deparava com pessoas que me forçavam a ficar ali, cada vez mais na minha, cada vez mais reclusa.
No carnaval do ano passado, eu estava na mesma posição que eu me encontro agora - desamparada, triste e sem rumo, mas ainda havia um porém: eu ao menos queria sair desse enorme poço que citei acima.
Meu namorado nunca gostou muito de carnaval e, se gostou, provavelmente foi há um longo tempo antes de me conhecer; ele também nunca gostou muito de festas, o que até então não era um problema, já que eu saía constantemente com as minhas amigas e nos divertíamos inocentemente.
Em meados do ano passado, eu fiz um viagem que me deixou transtornada.
Em primeiro lugar: eu visitei o país que eu mais amava no mundo desde quando eu era mais nova e nada conseguiu ser mais frustrante do que fazer uma viagem deste porte sem a companhia de pessoas que você realmente queria estar (talvez que preferisse até viajar sozinha, nesta situação).
Em segundo lugar, a política brasileira, as pessoas rudes que eu conheci aqui no meu país natal, tudo de ruim que eu vivi a minha vida inteira veio à tona, é como se, por mais que eu não conseguisse aproveitar LÁ, eu não queria voltar CÁ. E portanto eu me apeguei a elementos dos quais eu não podia, que se tornaram meras válvulas de escape.
O pior veio por vir quando Agosto chegou. Depois de 40 dias experienciando férias sem limites econômicos, voltar à realidade foi ainda mais frustrante. Eu tive medo, eu tive fome do novo, de andar desprotegida e honestamente, eu nem sei o que mais eu senti, só sei que eu senti. E eu senti sem conseguir me expor, vomitar, pôr pra fora, eu dei crises, me mutilei, fiquei angustiada, senti insônia, mas acordava num despertar pela manhã. Eu sentia coisas que me incomodavam ao máximo e eu sequer sabia descrever. Eu sentia, sobretudo, raiva. Por eu ser quem sou, pelo destino injusto, pelas pessoas que queiram coisas diferentes de mim, por opiniões divergentes das minhas.
Cheguei a frequentar a terapia durante um tempo, e apesar da melhora pequena e gradual, eu não tinha como continuar pagando, já que eu não trabalhava remuneradamente e os meus estágios supervisionados da faculdade me demandavam muito mais tempo do que o normal.
Em dezembro de 2016, no início das minhas férias, foi quando a coisa toda desandou de vez, eu me senti tão sozinha e tão machucada, eu sentia desconfiança e abandono e todo o turbilhão de sentimento negativo de uma vez, eu não tinha ninguém para me ajudar. Eu fui buscando e cavando amizades antigas, porque as atuais não estavam suficientemente interessadas ou aparentemente tinham problemas maiores do que a minha aflição suicida.
O mundo me parecia injusto, durante todos esses anos que eu sofri, eu sempre estive lá por todos eles. Eu sempre deixei minha vida em segundo plano e coloquei meus amigos como prioridade. Durante todos esses anos em que eu me silenciei, na intenção de ouvir alguém, tudo o que eu queria era alguém que me retribuísse e me ouvisse.
Eu não tinha dinheiro o suficiente então procurei ajuda numa terapeuta num posto de saúde, não posso medir em intensidade o quanto ela acabou comigo em uma sessão: Mal me ouviu, me deu conselhos pra que eu terminasse com o meu namorado (por mais difícil que seja, eu não consigo me desprender), me chamou de burra, me ameaçou caso eu não largasse ele dizendo que ia me assistir “no fundo do poço, comendo pipoca” entre outras coisas tão assombrosas que nesta época a única coisa que me salvou foi um mísero seriado de “menininha” (como chamou meu namorado quando eu, empolgadíssima, contei a ele do que se tratava), seriado este que me deu ÓTIMAS justificativas para as perguntas:
1- por que você não sai do seu quarto?
2- por que você está virada pela a madrugada e se recusa a dormir?
3- por que você não sai da cama pra comer?
4- por que seu quarto está parecendo uma cidade cujo foi atingida por uma bomba nuclear de tanta bagunça?
Sim. Sim. Eu passei uma semana presa dentro do meu quarto depois do incidente com a psicóloga que mais parecia o Jack Torrance, em O Iluminado. E depois de quatro temporadas com vinte e três episódios cada, uma semana depois, e comecei uma outra série e outra e outra e outra, porque qualquer coisa, por mais fictício, doentio, juvenil ou sado que seja era melhor do que a dor de encarar o real.
O restante das férias de Janeiro não posso dizer que não reclamei, apesar de todas as coisas boas que aconteceram, eu já estava tão ferida da guerra que eu enfrentei neste conflito inteiro, que eu não conseguia exibir o mínimo de empatia ou adorabilidade, que dirá alegria.
Fevereiro começou e o mal da pressão piorou, eram competições de quem teve as férias mais empolgante, ou quem teve mais crises de pânico, quem sofre mais pela ex, quem está mais fodida por não ter trabalho e novamente eu me calei. Assim como me calei em maio 2013, fevereiro 2014, novembro 2015, dezembro 2016... Eu me calei porque o problema das outras pessoas sempre foi deveras mais interessante do que os meus próprios. O choro dos meus amigos é mais sofrido e genuíno do que os meus, a vontade de todos sempre prevaleceu e prevalecerá aqui onde vivo.
E por fim, chegou o carnaval! Ah!! O carnaval!!! Lembram-se quando eu comentei que meu namorado não gostava, mas eu saía mesmo assim, me divertia inocentemente e voltava tarde, cansada para o conforto do nosso lar? Este ano, como se não bastasse ser pior já no começo, (comigo tendo de forçar felicidade onde não havia um vestígio sequer de ânimo) uma ou duas semanas, não me recordo, antes do carnaval, tivemos uma conversa sobre ele não querer que eu saísse. A conversa foi guiada pelo assunto que mais ou menos temos um prazo de validade e que em breve ele terminaria comigo, como se tudo aquilo fosse um aviso prévio da minha demissão do cargo de namorada.
Acostumada a sempre me colocar em segundo plano, achei injusto já que eu desisti de tantas coisas por ele, fiz tanto por ele, sofri e aguentei tanto vindo dele. Ele não podia simplesmente me demitir dessa maneira, aquilo não era um jogo. Prometi que faria tudo de melhor por ele desde então, faria tudo que ele quisesse e então quando chegou o tão esperado carnaval, eu parecia um cachorro que viu a coleira e estava LOUCO para passear, mas não podia porque o seu dono só estava guardando a coleira em outro lugar, ele não ia passear comigo. Eu não podia sair sozinha sem que ele não terminasse. E por mais que ele não dissesse isso diretamente, eu sentia isso em meus ossos e era justamente por isso, mesmo com a sua “permissão” eu não me permitia me divertir este ano. Ele não gosta de carnaval. EU TAMBÉM NÃO POSSO GOSTAR. ARGH EU ODEIO AS PESSOAS. EU ODEIO TUMULTO.
Fiquei em casa, invejei a todos, invejei as minhas amigas cujo namorados não terminavam com elas por se divertirem, invejei as amigas que tinha namorados que saíam com elas.
Invejei até as amigas que não saíram no carnaval, mas cujo seus namorados não ficaram enfiados na frente da tela de um computador ignorando tudo o que elas tinham para dizer.
Esta sou eu 1º de março. Tão perdida e desesperada que minha única solução foi chorar sozinha o dia inteiro na minha cama. Fumando compulsivamente, me perguntando onde foi que eu errei. Onde foi que todas as pessoas pararam de se importar comigo? Onde foi que eu me tornei algo tão obsessivo e chato que até minha própria família defende o meu namorado e me culpa por querer uma voz ativa num relacionamento? Onde foi que eu errei?
Seja porque a Lua está posicionada em algum signo, ou seja lá meu ascendente em alguma outra posição que está encaixada em marte do signo de Touro, ou Leão, ou Câncer. Seja eu muito dramática, ou forte demais pra ter aguentado tanto, por tanto tempo eu não vejo sequer uma saída.
Quando eu penso na minha carreira, no meu futuro, vejo apenas dívidas. Minha vida amorosa provavelmente vai arrancar meu coração fora puxando pela minha boca e provavelmente me asfixiando de uma maneira não legal.
Viajar para um outro país não é mais atraente, ir ao parque é entediante e até o meu quarto parece ser parte de um martírio muito maior do que eu. Eu só queria não sentir nada, ou apagar tudo, ou morrer