Era uma manhã de sexta-feira, e eu começava um novo trabalho, no Centro da Cidade, mais precisamente na Rua da Quitanda. Mal podia esperar o que estava por vir, mal podia adivinhar que algo estaria por vir… Acordei ás 5:00am, estava ansiosa para começar a trabalhar, na verdade mal tinha dormido a noite passada. Tomei o café mais forte que tinha feito até então, com pouco açúcar, fumando um free e ouvindo a minha nova banda favorita, Radiohead. Não posso dizer que acordei nos meus melhores dias, estava nervosa sem motivo aparente, tratei de pôr uma calça jeans desbotada e minha blusa favorita, minha blusa do Legião Urbana, mais precisamente com a capa do álbum As Quatro Estações. Tropecei relutante em chegar no ponto de ônibus, ainda estava escuro, aquele lugar me parecia tão sombriamente meu… Passei próximo ao Engenhão ouvindo Karma Police, onde a esta altura, o céu atingira o tom de róseo alaranjado, que eu tanto amava… Passei a admirá-lo como parte do meu ser, o vesti como parte de minha mente presa ao passado, presa aos poucos triunfos, o vesti na tentativa de colorir um lado da minha mente que até eu mesma desconhecia ou simplesmente fazia questão de não saber que existia. Como flashs no escuro, como ecos no meio da noite, como sussurros agonizantes em meus ouvidos passei a lembrar o que tinha feito da minha vida até então… Em como pude cair tantas vezes, em como pude me perder em labirintos que eu mesma criei, em como pude perder boa parte da minha sensibilidade por conta de um mundo tão metálico, tão frio, tão cinza, tão sufocante… Como gás pesado, me embebedando, deixando-me a margem da miséria humana, deixando-me inebriadamente incerta dos meus acertos. Mas eu não podia negar aquilo agora, aquele céu, tão vívido, tão colorido, como nos meus sonhos juvenis, tão brilhante que, não posso negar que pela primeira vez em semanas uma lágrima rolava do meu rosto ao observar aquela imensidão acima de mim, eu apenas observava pela janela do ônibus, sentada, mas não podia negar que aquilo tomava conta de minha pessoa. Olhei para meus braços, ainda vermelhos, ainda suplicantes e desesperados por punições, eu poderia parar, só por hoje. Eu já havia aprendido a lição, eu não poderia me ferir mais por ninguém, eu deveria me tornar indiferente á qualquer sentimento… Eu deveria aprender a não sentir pena de mim mesma, assim como não deveria sentir piedade de ninguém…
Cheguei! Passos apressados, meio perdidos, meio descompassados estes passos… Olhei a minha volta, Largo da Carioca era onde eu estava, não fazia ideia de como chegar até o tal lugar, estava a espera de uma pessoa da qual se responsabilizou em me esperar lá e me levar até a empresa. Deu 7:30am, arrastou e venho 7:50am, mais um pouco como quem não quer nada, chegou antecipadamente 08:10am… A pessoa não apareceu, no desespero de não chegar a tempo, recorri á cabine policial, disse-lhes aonde eu queria chegar, depois de trinta minutos de procuras pela internet, eles me explicaram mais ou menos como chegar ao lugar. Parei em outra filial da empresa, até acertar o prédio certo, custou-me mais 40 minutos… Mas cheguei, e aquele lugar era irritantemente formal demais, descolorido demais, prateado demais. Eu não tinha postura para chegar na recepção, com minha franja escarlate e desajeitada, eu não tinha postura para me sentar naquelas poltronas de couro preto, com minhas calças desbotadas… - Onde fui me meter meu Deus! Alguns minutos de espera, a impaciência já tomava conta de mim, distraidamente eu cutucava minhas unhas azuis brilhantes, sussurrava músicas do OK Computer, num tom arrastado, pensando no céu, pensando nas semanas de loucura que passei… Alguém que havia acabado de sair do elevador, grita naquele ambiente, tão sóbrio e sério, mas aquele alguém trazia com si uma travessura nata, que nem mesmo aquele terno escondia sua jovialidade que quebrava qualquer formalidade daquele ambiente desconfortável.
“Camisa foooooda!” Foi o que ele exclamou, diante daquela situação eu não sabia como agir, se eu ficava encarando-o, se eu levantava naturalmente e perguntava quem ele era, ou se eu apenas ria tímida e constrangida, e foi o que fiz, apenas ri, ajeitando a franja e dizendo um obrigada cerrando os dentes de nervosismo. Derrepente me vi dopada de uma estranha alegria, ele me guiou naquele lugar, me mostrando cada canto, como se quisesse de alguma forma mostrar parte dele. E ele tinha olhos lindos e brilhantes… Seu nome era Sandro, tinha vinte e dois anos, era alto, forte com uma pele deliciosamente achocolatada. Ele tinha um jeito diferente de falar, andar, e uma graça própria. Trocamos Facebook, sorrisos, compartilhamos gostos, e almoçamos juntos. Eu ainda continuava nervosa, “deveria ter colocado uma roupa melhor e caprichado na maquiagem”, eu apenas queria impressioná-lo, mas não sabia como, ele estava na minha frente, lindo, elegante e era apenas um homem que eu tinha acabado de conhecer. Deveria estar me testando ou algo do tipo… Não era possível. Disse-me que precisavas ir, fiquei triste mas entendi, ele tinha uma reunião em Niterói pelo o que parecia, “deve ser ocupado demais”. O deixei ir, suplicando pra que ele ficasse, depois de algumas horas esperando para começar meu treinamento… comecei, com a cabeça nas nuvens, pensando sobre aquele homem diferente, lembrando daqueles olhos brilhantes e daquele sorriso maravilhoso.