two facets? no — point of view
ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟSydney, Austrália: 2023.ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟᅟ ᅟᅟᅟ
Muitos pensadores, em suas teorias filosĂłficas, questionaram o modo como o mercado econĂ´mico trabalhava. Dinheiro e poder sempre foram os protagonistas para as mais tenebrosas guerras. Vesper, particularmente, estava lendo sobre dois pensadores de diferentes Ă©pocas: David Ricardo e Karl Marx. Enquanto para David Ricardo, sua teoria defendia que o aumento de produção seria beneficente pois os preços iriam baixar e, com isso, todos teriam a chance de aproveitar do que produziam, para Marx, uma classe ganhava mais que a outra, e a classe que, teoricamente, nĂŁo produzia, detinha os lucros, enquanto os trabalhadores eram oprimidos. Ricardo se prendia aos valores e Marx Ă luta de classes e como os valores foram produzidos (por quem foi feito, como foi feito).Â
Ela vira as páginas com total interesse, comparando aqueles pensamentos.
No final, tudo prendia-se Ă pura polĂtica. E era essa temática que causava guerras na modernidade. Aumentar a produção, aumentar os lucros burgueses, vender trabalho com mais desespero, causar pobreza. David Ricardo estava completamente errado em sua teoria na prática. Marx, já fazia uma bela pesquisa de campo, porĂ©m, ao colocar seu cenário perfeito em prática, poderia quebrar o mercado econĂ´mico facilmente.
A quebra traria desespero, pobreza. Levaria os mortais a fazerem coisas estĂşpidas e injustas que poderiam causar dor.
A mulher fecha o livro e encara o lado de fora de seu escritĂłrio com pensamentos flutuando em sua mente. Um sorriso brota em seus lábios pintados de vermelho, enquanto observava as cabeças passando na rua em frente ao prĂ©dio comercial. Cada um possuĂa suas guerras pessoais e a injustiça ainda reinava nos humanos – no entanto, acalmava-se em seu leito, sem punir-se de forma injusta. Mesmo que levasse inocentes no caminho, sua conduta ainda era justa. Ela os curava com seu fogo, trazia paz Ă s suas macas. Dava e tirava.
Era muito mais divertido observar e punir os mortais. A forma como eles faziam mal a si mesmos e a Terra merecia vingança. Apenas os Deuses detinham o poder de machucar o mundo. Apenas Deuses julgavam Deuses e, sua mente, enquanto encarava o cĂ©u da Austrália, retornou a Deusa Ma’at e a Sala de Julgamento de OsĂris. Apesar do mesmo ter um senso de decoração enigmático para o portal que lhes representava, causando certa risada grandiosa da Deusa Leoa, ela sentia certo cuidado com seus companheiros, sempre pronta para destruir os inimigos de seus aliados.
Semicerrou os olhos escuros ao ver, de longe, um pequeno menino arrancar ramos de grama do jardim de entrada. Seu punho se fechou, mas respirou tĂŁo fundo que nĂŁo ouviu a porta abrir. Sua sala era levemente grande, possuĂa uma decoração simplista e qualificada para sua empregabilidade. Confortável o suficiente para receber seus clientes, com um bar, boa vista e livros nas prateleiras que a mesma orgulhava-se de ter lido.
— Srta. Okeanos — a secretária parecia atrapalhada, segurando pastas enquanto os cabelos cacheados esvoaçavam de forma belĂssima. Vesper girou sua cadeira, cruzando as pernas e encarando-a de cima a baixo com um olhar quase devorador. Era pecaminoso, sabia, mas as curvas lhe eram desejáveis — Sobre aquele escândalo…
— Aquele escândalo… — repete devagar, vendo as bochechas de sua empregada tomarem uma tonalidade avermelhada — A combinação entre corrupção e ineficiĂŞncia aumenta a rejeição e a desconfiança da sociedade sobre a classe polĂtica e instituições democráticas. Ele fez, entĂŁo ele paga. De uma forma ou outra, a polĂcia estará com provas do roubo — Vesper diz, sabendo bem a que escândalo a secretária falava. Ajustou um grampeador em sua mesa, alinhando-o de maneira que lhe agradasse — Mande o Governador nĂŁo se pronunciar atĂ© que eu me pronuncie com ele a sĂłs. Caso contrário, causará fortemente uma guerra polĂtica em Sydney sem motivo algum. Apesar de quê…
Ela estala a lĂngua e gesticula para a mulher sair. A secretária concorda, nĂŁo entendendo o que se passava na mente de sua chefe, mas se apressando em se retirar por pura vergonha ao ver as orbes daquela figura encarar sua silhueta como uma devorada. Vesper retornou a girar a cadeira com um sorrisinho, mas esse se desfez – a criança continuava a arrancar o gramado com um rosto beirando ao maldoso. Ela mexe sua lĂngua mais uma vez, sentindo o fogo em sua garganta. O ar se pesa e uma brisa quente viaja da janela ao rosto do garotinho. Ele berra, se batendo. A mulher sorri meio divertida, mas se compadece quando a criança chora. Vesper tombou sua cabeça para o lado e negou, sentindo compaixĂŁo pela dor de um ser inocente que ela machucou sem avaliar os ocorridos.
Às vezes, a mulher sentia-se como duas: uma humana gentil e uma Deusa invocada com cheiro de morte e sangue. Sentia-se assim desde que tomou seu lugar entre os humanos de forma mais apaziguada e passava muito mais tempo em seu disfarce. Apesar de sentir falta das enormes batalhas, do sangue e do caos, apenas se sentar na sala de estar e ler um livro lhe parecia tão inovador e interessante quanto. Era como se estivesse se tornando um deles pouco a pouco; perdendo sua essência feroz, não sentindo o rugido de sua garganta explodir exércitos por onde passava.
Fechou seus punhos mais uma vez, balançando a cabeça. Os cabelos negros dançam e a mesma decide se levantar, buscando uma dose de uĂsque e nĂŁo olhando mais o menino se debater na entrada do prĂ©dio com o rosto quente pelo fogo cĂłsmico de seu Sol.