Tudo que eu queria dizer uma última vez e depois não se fala mais nisso
Eu quero e estou plenamente preparada para por uma pedra em cima desse assunto, mas antes disso, e como sempre, quero também me explicar para ti.
Todo mundo acha muito feio e absurdo o que eu fiz. E te digo isso: eu sei que foi mesmo. Se tivesse um pouco de autocontrole e responsabilidade emocional não estaríamos aqui. Isso que fizeste marcou-me para sempre.
Mas entenda também que o que passou, precisava ter passado. Foi a primeira vez que te apaixonaste por duas pessoas ao mesmo tempo, e vc sabia q era possível, só nunca tinha lhe acontecido.
Culpaste teus amigos por abandono num momento de solidão, incerteza. Mas hoje sabes que não se cobra amizade. Da-se o que tem, e se não tem mais talvez seja mesmo a hora de partir.
Encontraste nele o que sempre procurou num homem e tudo se caminhava para dar certo, finalmente, um pouco de paz e segurança. Um amor de contos de fadas onde o príncipe dirigia um celta, tinha um bom trabalho, levava-te para as cachoeiras no verão, e restaurantes no inverno. Comprava-te sorvete quando estavas triste. Fazia piadas irônicas que tu demoravas muito a entender.
E quando ela chegou, deste tudo, tudo tudo que ela precisava e tu não tinhas pra dar. Era mais forte que tua própria força. Ela precisava ser pega no colo. Precisava de casa. Precisava de documentação. Sentia responsável e era uma força que puxava pelo umbigo como se fosse gravidade. Como se ela fosse a terra e tu a lua. Foste omissa com ele, teu Sol, e extremamente sincera com ela, tua Terra.
E quando a verdade veio a tona viraste corda de cabo de guerra onde os dois lados usariam força bruta, dispostos a qualquer coisa para vencer. E a brutalidade da situação somados a omissão e falta de responsabilidade emocional cegaram a ti e a mim.
Queria te dizer aqui que hoje vc ja sabe o significado que ele teve na tua vida. O quanto ele foi presente, carinhoso, cuidadoso, faz o almoço. Que o que tinha de problema talvez fosse contornável, e que talvez teríamos uma vida pacata e talvez uma criança. Teu corpo, mente e alma nunca mais vão estar tão preparados para gerar uma vida, como foi naquela época. Eu lembro que seu corpo gritava por ele.
Por ele. Que desde sempre, desde que a escolha foi feita, nunca mais se pode dizer o nome. Nunca mais se pode lembrar o olhar, o sorriso, o toque. O sotaque. O jeito de querer aprender meu corpo. O jeito de querer ensinar a mim seu mundo. Eu queria poder voltar a falar dele, mas outras pessoas julgam o mal que fiz naquela época e me punem, ainda, com o silencio do nome dele, preso em minha garganta. Não pude chorar não tê-lo, pois era meu silencio que protegia as inseguranças dela, meu outro amor.
Foste egoísta. Mas dentro desse egoísmo a motivação era genuína. Hoje você sabe melhor. Mas lembre-se de parar de se culpar pelas escolhas que tomou, pela cabeça que tinha. Já foi, já está. Deixa arder. Ela te ensinou muito. Ficar com ela foi importante pra aprender a não machucar mais ninguém. E o que ficou foi essa saudade reprimida escondida, mas que vem a tona toda vez que meu corpo arde. E que sempre vez ou outra sempre lembra e imagina como se ainda fosse hoje: o olhar, o sorriso, o toque. O sotaque. O jeito de querer aprender meu corpo. O jeito de querer ensinar a mim seu mundo.
Ainda muitas vezes tu vais lembrar dele com culpa. Hoje entendes que não existe quem amava mais, amava os dois e ponto. Que pra ele foi ego ferido mas também o sufoco de não respirar quando teu amor te dá as costas. Que pra ela foi suplício ao ponto de insegurança engatilhada mas que ela também não conseguia largar, e que ela pediu sinceridade, mas a sinceridade doía muito nela e doía em ti também. E mesmo assim foste sempre honesta. Vais lembrar dela com culpa também, mas ao menos ela não te odeia. Como poderia, ela sempre foi amor, transbordava amor em tudo que fazia, ao cozinhar, ao colher florezinhas do chão, ao comprar meias de inverno para as tuas cólicas. Esse assunto vai morrer em breve, com tudo mais que quero deixar pra trás.
Então escuta:
Por quanto tempo segue cega uma mulher que morre de culpa? Morre de culpa por não cuidar, por amar e não saber o que fazer com esse amor, por não ter procurado ajuda profissional, por ter agido de forma egoísta, por se humilhar e não receber perdão, por ser omissa. Mas também por amar demais, amar errado, se entregar sem critério. Eu já segui tempo demais.
Vai ser essa tua cruz por muito tempo, e quando chegares aqui onde estou, me perdoarás, como eu te perdoo. Sim, eu te perdoo. Mas nunca mais serás a mesma.
Ainda tens o coração partido ao meio como Atlântico que corta do colo ao ventre. Metade Rio, metade Covilhã. E disso não se recuperarás. Serás para sempre Pangeia dividida, cada terremoto um pouco mais distante. E isso, tu sabes bem, não é algo necessariamente ruim.
Diga lá, Leminski: Vãs, todas as coisas que vão.
Para: Rua do Sineiro 3, Covilhã, Portugal. 14/04/2021
De: São Paulo, Brasil. 19/03/2026
-Sophia Velasques














