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5: ADVENTÍCIO
E enfim, todos os cadáveres dos semideuses mortos em batalha haviam se transformado em cinzas, ostentando moedas debaixo de suas línguas.
Deixamos o que restou do Pandora para então seguirmos para Rómulo, uma colônia romana parecida com Pandora, que era grega. A viagem seria novamente de barco, mas desta vez, todos viajaríamos juntos.
Lâmia tirou um tempo para conversar comigo durante a viagem, também deu uma olhada em meus ferimentos, já que eu não levava jeito para isso. Eu era extremamente grato por tê-la como amiga, e ainda mais por não ter desistido de mim ao tratá-la com grosseria nos primeiros meses quando a mesma tentava puxar assunto.
Seus fios ruivos já não eram iguais aos de quando a conheci, agora suas pontas estavam um pouco abaixo de seu ombro e também aparentavam mais escuros do que nunca, mas não era apenas o cabelo que havia mudado, seu rosto também não era mais sereno como antes, agora ele denunciava o tamanho cansaço que sentia, mesmo fazendo de tudo para esconder.
Depois de alguns minutos conversando comigo, Lâmia disse que tinha que ajudar as caçadoras com algumas coisas e pediu para que eu não ficasse sozinho. Talvez ela tivesse razão, eu precisava me enturmar mais, ou piraria de vez.
Avistei o filho de Dionísio dormindo em um banco e fui até lá para me sentar um pouco e ter uma melhor vista para o mar. Na ilusão de que ele estava realmente dormindo, levei um susto ao ouvi-lo lançar um “oi, mon chéri, ainda não morri, fique tranquila” e logo após uma risadinha. Que? Pensei em dar meia volta mas tratei de afastar esses pensamentos antissociais e cheguei mais perto.
— Esperando outra pessoa? — perguntei, o que fez o loiro finalmente abrir os olhos e olhar para mim ao se sentar.
— Ah… não, eu só achei que… esquece.
Ele parecia estar com muita dor, eu gostaria de poder ajudá-lo. Lâmia talvez pudesse.
— O que houve com você? — me aproximei mais e sentei ao seu lado.
— Tentativas falhas de ajudar o acampamento — riu.
— Imaginei, costela?
— Sim, como sabe? — ele parecia impressionado.
— Sua mão está em cima dela, imaginei que estivesse segurando o ferimento — sorri após soltar uma risadinha nasal.
— Hm, faz sentido — assentiu, rindo fraco.
— Foi uma noite longa, não é? Conseguiu descansar?
— Eu desmaiei na cama, estava morrendo de dor — deu de ombros, sem quebrar o contado visual — e você? Descansou?
— Nem um pouco. Passei a noite juntando os corpos — também dei de ombros, o que o fez rir.
— Ei, Matt… lembra da nossa última conversa? Há cinco meses atrás? Eu nem imaginava que era filho de um deus, e muito menos que eu te encontraria. Passei a viagem preocupado, não teria como te avisar que havia acontecido muitas coisas naquele dia. E aí você apareceu com as caçadoras. Foi estranho — disse após uns instantes em silêncio, logo riu fraco.
Desviei o olhar e tentei não parecer tão confuso quanto estava. Do que aquele garoto estava falando? Mas eu nem ao menos havia tido uma conversa com ele em toda minha vida; nem ao menos sabia de sua existência antes de tudo aquilo acontecer. Isso sim é estranho. Será que ele tinha sonhos esquisitos assim como os que eu tenho com a filha de Hefesto, só que comigo? Pode ser que ele tenha confundido realidade com ilusão, pensei.
"Eu e o meu dom de estragar tudo…“, pude ouvi-lo murmurando, e então ele parecia estar sem graça. Matthew, faz alguma coisa. E a única coisa que pensei foi: sair correndo; mas eu não faria aquilo, seria péssimo.
Parei de pensar no que fazer ou falar e só levantei e saí dali sem mais delongas, antes que tudo ficasse mais constrangedor ainda. Procurei outro banco e tentei descansar, já que não poderia descansar no dia seguinte.
Já em Rómulo, tivemos outra surpresa. Corpos e mais corpos jogados no chão. Nos perguntávamos quem ou o que havia feito tudo aquilo, mas não podíamos perder tempo. O mesmo trabalho feito em Pandora, fora feito ali.
Ficamos com os cômodos dos falecidos, divididos em cinco cortes. Eu estava na primeira com o filho de Ares e a filha de Apolo.
Mais tarde, após ser convocado a fazer a ronda pelo acampamento, tratei de pegar uma arma do depósito e seguir para meu posto. Sabia que sempre eram duas pessoas a fazer o trabalho, mas eles nunca falavam quem nos faria companhia. Podia ser uma estratégia para que não fugíssemos caso tivéssemos que ficar com alguém que não gostássemos.
Avistei minha companheira assim que coloquei os pés para fora do depósito. A filha de Hefesto, Osk. Arrepios percorreram minha espinha sem que eu soubesse o porquê, o que me deixava um tanto desconfortável e nervoso. Pensei em dizer um “oi” mas acabei hesitando. Acho que eu não era o único a sentir algo estranho ali, na verdade, eu tinha certeza.
A garota olhara em minha direção por três segundos mas o desviara rapidamente, parecia querer chorar. Tudo acabou por parecer mais confuso ainda. Ficamos sem falar por longos minutos, até que por fim quebrei o silêncio:
— Então… você também sente algo estranho quando me vê?
Esperei por sua resposta enquanto andávamos em meio às árvores. Cheguei a arriscar olha-la. Nada.
— Tudo bem, deve ser um sim. Sabe, eu ando sonhando com você… não consigo compreender o significado desses sonhos — fitei o chão o tempo todo, às vezes chutando alguns galhos quebrados.
Eu já estava começando a ficar constrangido, por que ela não falava pelo menos um “hm”? Era como se eu tivesse acabado de desabafar, e ela não falava nada.
— Gosto da sua voz, ela é muito bonita, tipo as das sereias, sabe? — ri fraco — na verdade, eu nunca ouvi o canto de uma sereia, mas você entendeu. Então… por que não quer falar comigo? Eu adoraria poder ouvi-la novamente — sorri amigavelmente.
Por algum motivo ela parara de andar, não sei se eu deveria ficar feliz ou com receio. De repente pegou um caderninho que estava pendurado em seu pescoço por um barbante – que estava ali esse tempo todo e eu nem havia percebido – e escreveu algo nele, depois mostrou-me.
“Eu não sou sereia. Você me dá medo.”
— Desculpa princesa, eu só fiz um elogio. Não gosta de elogios? — disse após voltar a andar, sem saber se ela me acompanhava, logo me virei para trás.
”Não"
— Tudo bem, eu prometo não te elogiar mais, mas você tem que falar comigo pra isso.
Enquanto andava devagar com o caderno em mãos, escreveu algo depressa e virou o objeto para mim.
“Também sonhei com você”
Aquilo me pegou de surpresa. Talvez explicasse todo o clima péssimo que pairava entre nós ali. Sobre o que ela sonhava? Será que seus sonhos eram como os meus? O que ela sentia? Parei, li e reli o que Osk havia escrito, devia estar estampado na minha cara o quão confuso eu estava.
— Foi uma vez só? — fitei seus olhos.
“Várias. Não sei o que significa”
— Eu também — suspirei e olhei para o chão, chutando outro galho — O que você sente durante esses sonhos?
Voltei a olha-la após alguns instantes, ela parecia procurar a palavra certa para responder, logo folheou algumas páginas do caderno e apontou para algo já escrito: melancolia. Depois escreveu em outra página: e medo.
— Eu também… mas havia algo a mais, acho que culpa. — Desviei o olhar e enfim seguimos em frente.
Dessa vez, o silêncio já não era desagradável, mas fora interrompido por uma caçadora, que dizia que Ophélia estava a nos chamar para dar um comunicado, então a seguimos.
Uma hora depois, estávamos a preparar os bunkers para todos os campistas se abrigarem quando o furacão passasse pela a região durante a noite. Quando terminei, fui até minha corte e tomei um banho, depois apertei a faixa de minha mão e em seguida dei uma arrumada no cômodo.
E então, era só esperar que algo acontecesse.
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