Quando a garota apontou o dedo para ele, o garoto continuou com sua pose de despreocupado, com as mãos na bolso, e curvou seu corpo um pouco para frente, depositando um beijo no dedo da amiga. Voltou a sua posição normal e soltou uma risada baixa, numa forma de dizer que ela parecia muito mais fofa do que ameaçadora. “Tudo bem, eu entendo que você não teria dificuldade nenhuma de ficar longe de mim, mas… e quanto aos brownies?” falou em tom divertido, referindo-se aos doces que costumava fazer para seus amigos, e que era bastante elogiado pelo sabor. “E o brigadeiro? Ah, e se pedir uma medida restritiva pra me afastar de você agora, não vai ter a oportunidade de experimentar os meus churros.” faziam alguns meses que o garoto estava empenhado em fazer sobremesas de origem latina, e o último citado ainda não havia sido provado por ninguém mais além dele próprio. Acabou rindo pela brincadeira depois. “Vou pedir aos meus pais pra te adotarem, aí eu vou ter mais uma irmã caçula pra perturbar.” disse num tom divertido, tentando não fazer o clima ficar estranho por ele ter mencionado proximidade com família. Sabia dos problemas da garota com a dela, e não queria trazer nada disso à tona naquele momento tão divertido e descontraído entre eles. Semicerrou os olhos, fingindo estar chateado com a brincadeira dela, mas acabou rindo logo depois. Era ótimo em rir de si mesmo em alguns momentos. Sua expressão tornou-se mais séria, pensando no que ela havia dito. Talvez aquele fosse um assunto muito pessoal, não para falar com ela, mas para pensar em tatuar. Embora ficasse feliz com sua mudança de caráter, não tirava muitas lembranças felizes daquela época. “Bem, o que me fez mudar foi eu ter sido feito de otário por outra garota, o que me fez perceber que eu era um merda. Não acho muito legal tatuar isso.” soltou uma risada sem humor, completamente forçado. “Talvez eu pudesse tatuar algo de Harry Potter? É minha saga favorita, e tem vários elementos possíveis… varinha, nome de feitiço, meu patrono, uma frase, ou até algum personagem.” falou sobre algumas opções, animando-se um pouco com a ideia de marcar sua pele com algo que gostava tanto, embora não fosse tão significativo e profundo quanto à tatuagem que a garota escolhera.
E ela teve de soltar um som indignado com o beijo em seu dedo, pela ameaça não levada a sério, acabando por desistir e balançar a cabeça em rendição. Estreitou os olhos quando o amigo colocou-se a citar as sobremesas deliciosas que costumava fazer, só de o ouvir citar tais receitas já estava a dando fome, permitiu um suspiro pesado escapar. “ — Eu te obrigaria a enviar uma sobremesa por dia na minha casa, é claro, daí você mandaria alguém trazer porque me ama muito e saberia que eu não conseguiria viver sem seus doces.” explicou teatralmente, fingindo enxugar uma lágrima no canto de seu rosto antes de acrescentar. “ — Ou eu posso esquecer da medida restritiva, sabe, apenas pelo bem dos seus dotes culinários em perder alguém os experimentando... Aliás, preciso experimentar esses churros.” alargou o sorriso imaginando que Lucas provavelmente iria a engordar muito se ela cedesse a tudo que ele preparasse. Soltou uma pequena risada assim que ele mencionou que seus pais a adotariam. “ — E eu iria te dar muita dor de cabeça de volta.” atirou a língua para este, divertidamente. Era até esquisito pensar em ter uma família unida e feliz novamente, como costumava ser antigamente quando sua mãe ainda estava viva. Porém, não perdurou os pensamentos na distância que havia entre ela e seu pai nos dias atuais, já que estava ao lado do outro para divertir-se. Talvez também para irritar o pai, e talvez aquilo fosse também um meio de chamar a atenção do homem para si. Exibiu uma expressão de compreensão ao escutar a explicação alheia, pendendo a cabeça para o lado. “ — Ouch, bem, não precisamos tatuar isso então, é melhor focar no novo homem que se tornou.” sua voz beirava a uma brincadeira, como se estivesse fazendo para o livrar de ficar mal com as lembranças, e colidiu de leve seu ombro no dele. “ — Harry Potter? E qual o seu patrono?” perguntou interessada, e continuou tagarelando sobre o assunto em questão. “ — Acho fofo aquelas tatuagens que tem um óculos com a cicatriz. Ou pode tatuar always. Ou! Tem lumus, para você lembrar de acender a luz nos momentos escuros, profundo, não é? Talvez alguma frase também... Não que eu seja fã nem nada.” soltou um risinho, porque talvez já estivesse deixando claro um pouco de sua fissuração pelo mundo que tivera na infância.