É como se eu tivesse cuidado de um jardim. Reguei cada planta, escolhi as flores mais bonitas, ofereci meu tempo, minha atenção e até deixei que o sol me queimasse só pra garantir que elas crescessem fortes. Por um tempo, parecia perfeito: as cores estavam vivas, o perfume era doce, e eu acreditava que dali nasceria algo duradouro.
Mas, sem que eu percebesse, alguém trouxe sementes de ervas daninhas e jogou ali. Não foi de repente; foi discreto, escondido, como quem teme ser descoberto. Quando notei, as raízes já estavam misturadas com as minhas. E então o jardim, que era meu espaço seguro, se transformou em terreno de incerteza.
Não foi só o fato de encontrar as ervas daninhas que doeu. O que mais machucou foi perceber que, enquanto eu me dedicava de corpo inteiro, a outra pessoa não estava cuidando do mesmo jeito. Eu ia até lá todos os dias, atravessava distâncias, carregava água, e quando percebi, essa mesma pessoa atravessou quilômetros para cuidar de um jardim que nem era o nosso.
A verdade é que o que me fere não é a ausência do jardim agora, mas o contraste entre o quanto eu investi e o quanto recebi. Não é saudade do que acabou, é a ferida daquilo que poderia ter sido, se tivesse havido prioridade, reciprocidade e coragem.
E hoje, quando olho pra trás, não encontro mais raiva. Só vejo o cansaço de quem cuidou demais e recebeu de menos. Fica um vazio estranho, porque eu sei que amei os momentos, mas sei também que não quero mais regar sozinha.
Então eu sigo. Carrego na pele o cheiro das flores que plantei, a memória das cores que vi, mas também a lembrança das raízes que se partiram. Aprendi que o próximo jardim que eu criar precisa ser compartilhado de verdade, com alguém que saiba cuidar junto, que não tema ser transparente e que não me faça sentir que estou sozinha num espaço que deveria ser de dois.
Porque no fim das contas, não é sobre perder o jardim. É sobre me reencontrar como jardineira.













