Ele riu. O sarcasmo, como um traço principal da personalidade de Johnny, pareceu, de alguma forma, se firmar nas faculdades mentais do coreano ao longo dos meses que estavam juntos. Após aquela indicação, sobretudo, Antony notara estar cada vez mais próximo de ser algo parecido a Johnny, e odiava aquilo; era seu próprio personagem, então por que copiar alguém? Talvez se tivesse cessado suas observações sobre Johnny, que traziam consigo a premissa de uma obsessão, não estivesse a evoluir dessa forma. Ah sim, admirá-lo secretamente era seu hobbie favorito, e tão sigiloso que nem mesmo Antony notara que o fazia sempre que possível, cada detalhe daquela figura protagonizando uma foto em sua memória. Antony sabia de pequenos detalhes e pequenas manias do loiro; o modo que ele abraçava o travesseiro enquanto dormia — e muitas vezes Antony engoliu em seco ao se imaginar no lugar do objeto —, ou como raramente mostrava os dentes quando sorria e quando o fazia nem parecia ser a mesma pessoa tão direta, e muitas vezes cruel, e até notava o modo cuidadoso que escondia sua pele na presença dele. Talvez para ocultar marcas de um pecado recente, e isso fazia seu sangue ferver.
Johnny sabia do interesse de Antony? E Antony ao menos sabia compreender essa emoção, sem desenvolver uma ardilosa possessividade?
Seu estômago revirou e Antony torceu o rosto sem pudor, em uma conflituosa emoção que estava banhada em ódio e curiosidade. Largou seu prato na pia e apoiou-se na bancada fitando seu reflexo disforme sobre o alumínio. O vento chorava mais agressivamente, os flocos delicados tornando-se rajadas gélidas na rua. Antony adiantou-se ao quarto de Johnny, observando a escuridão por de baixo da porta.
A luz dos postes de iluminação adentravam pela janela, assumindo o papel da iluminação lunar numa fajuta peça no teatro que era a cidade grande, onde todos fingiam ser alguma coisa; seu melhor amigo fingia sentir atração por mulheres, as ratas de lojas de roupas fingiam que seus cabelos eram de tons naturais e Antony fingia não sentir desejo por Johnny sempre que estavam no mesmo ambiente.
Quando sentou-se na beirada da cama, aquele desejo ardeu mais forte. Johnny estava sereno a descansar e Antony lhe tocou as bochechas com as digitais, sentindo a maciez de sua pele. Os dedos deslizaram na bochecha aos lábios macios, e a respiração de Antony parecia falhar, mas ainda assim desceu até seu pescoço coberto por uma gola alta, onde puxou o tecido encontrando as marcas que assombravam sua mente. Antony apertou os dedos contra o local e a neve caía mais forte.
Uma vez no quarto, estava pronto para abraçar seu travesseiro e se entregar aos pensamentos que costumavam perturbá-lo antes de cair no sono, quando notou a movimentação. Nada que o incomodasse, claro, por mais que preferisse dormir sozinho e preferisse aproveitar todo o espaço de sua cama. Por isso não fez mais do que chegar para o lado mesmo que Antony estivesse sentado ainda, mantendo um travesseiro entre os braços, pensando apenas que o outro se acomodaria à sua esquerda e tudo ficaria bem após mais algumas poucas palavras trocadas entre eles.
Entretanto, como nada poderia ser tão fácil assim, logo sentiu o contato alheio. Algo que normalmente recusaria e do qual se esquivaria, mas não quando estava com sono; e não quando já estava acostumado a ter seu corpo ardendo em febre por conta de Jung. Por mais que isso não tivesse se tornado mais tão agradável quando sentiu os dígitos do maior contra a pele maculada e, certamente, perpetrada com tons purpúreos de cima a baixo, causados pelo novo aspirante a namorado -- ou passatempo? -- de JonYi, na faculdade. Novamente, nada que tivesse comentado com Antony, apenas por considerar desnecessário demais. Até o momento em que abriu os olhos e topou com os dele, em feições pouco agradáveis, conforme, certamente, examinava aqueles hematomas.
“O que foi?” Perguntou apenas por perguntar, enquanto, automaticamente, seu corpo se encolhia. Inconscientemente, uma de suas mãos foi até o pulso dele, pronta para contê-lo por ali se fosse necessário. Uma de suas pernas também se dobrou, pronta para oferecer alguma resistência caso Antony decidisse se manifestar mais negativamente a respeito daquele assunto. Mesmo que Johnny soubesse que perderia, facilmente, qualquer combate corpo a corpo com Jung.