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Por que escrever?
Não sei dizer exatamente quando comecei a escrever crônicas, mas posso dizer que a escrita regular está presente em minha vida há pelo menos duas décadas. Aos quinze anos, ganhei uma agenda, a qual guardo até hoje, e foi a partir daí que comecei a escrever com certa regularidade, passando a cultivar o hábito da escrita e a paixão pelos diários.
Foi também aos quinze anos que iniciei o ensino médio na antiga Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN), hoje IFRN, o que significou a imersão em um universo de novas leituras e reflexões sobre as coisas do mundo. Fui aprovada para o curso técnico de Turismo e Hotelaria e cursava, ao mesmo tempo, o nível técnico e o ensino médio, o que me proporcionou, entre outras vivências, o contato com línguas estrangeiras e algumas experiências imprescindíveis à minha formação. É dessa época, por exemplo, minha paixão pela língua espanhola. Esse período também foi fundamental para definir meus gostos literários. Em contato, pela primeira vez, com obras importantes da literatura brasileira, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, por exemplo, foi aí que nasceu minha paixão pela leitura literária. É dessa época meu amor por poetas como Bandeira, Drummond, Quintana, Vinicius…
Como não tinha condições de comprar livros novos, sempre que podia, os tomava emprestados na biblioteca da escola ou com amigos do curso. Isso até descobrir que existiam os sebos… Lembro a primeira vez que estive em um sebo (onde adquiri livros a R$ 2). Saí de lá toda feliz com um exemplar de um livro de contos de Inácio de Loyola Brandão e uma coletânea de contos universais. Devorei esses dois livros rapidinho. Lembro do meu fascínio pelo conto “Bilhete Premiado”, de Tchékhov.
Além da leitura, também cultivava a paixão pela escrita e, vez por outra, escrevia sobre o que estava acontecendo ou endereçava cartas a amigos e familiares. Dessa época, tenho alguns textos sobre notícias de jornal, eventos culturais e outros temas que me pareciam interessantes. Lembro de ter escrito um texto sobre uma exposição de réplicas de Portinari, a qual fui visitar e me deixou muito encantada. Meu intuito era motivar as pessoas a visitar a exposição. O texto foi afixado no mural da escola, o que me deixou superfeliz. Outro texto de que me recordo é uma crônica onde relato um problema de ordem social que me causou profunda comoção. Na época do ensino médio também participei de um concurso de redação no qual concorri a uma viagem para a Colômbia.
Durante todo o ensino médio/técnico, mantive o hábito de escrever diários, e creio que isso foi fundamental para alimentar em mim a paixão pela escrita e, o mais importante, para reforçar a necessidade da escrita e a importância que teria em minha vida dali por diante. Tenho esses e outros diários guardados até hoje, assim como algumas cartas recebidas nesse período e outras não enviadas para os amigos de escola, familiares, professores, namorados, além de outros textos avulsos escritos à época. Uma carta que guardo com imenso carinho é de uma amiga que fez intercâmbio na Alemanha. Durante o período em que esteve fora, sempre me enviava cartas e postais. As cartas que nunca foram entregues aos seus destinatários, inclusive, já pensei em reunir em livro, para o qual já tenho em mente um título: Cartas para ninguém. Antes disso, no entanto, devo publicar meu primeiro livro de crônicas.
Quando ingressei na faculdade, também para o curso de Turismo, a paixão pela escrita continuou ainda mais viva porque lá encontrei um excelente interlocutor, um amigo apaixonado por arte, filosofia, literatura. Com ele trocava muitos bilhetes, cartas, e-mails. Além disso, os professores sempre estimulavam o exercício da escrita e elogiavam minhas produções, o que me fazia seguir confiante.
Ainda cursando Turismo, na universidade estadual, fui aprovada para o curso de Letras na federal. Antes, havia tentando Jornalismo, mas estava gostando da ideia de cursar Letras, afinal, escrever sempre foi uma grande paixão. Então, o contato com a literatura me faria muito bem. Fiz o vestibular por “insistência” de um ex-namorado, ao qual serei eternamente grata. Ele, que, aliás, é um filósofo por natureza e um grande poeta, foi uma das pessoas que me incentivaram a seguir escrevendo.
Diante dessas reflexões sobre o meu percurso literário, volto a fazer a pergunta que intitula esta crônica: Por que escrever? Escrever sempre foi algo muito natural para mim, que desde sempre tive uma necessidade inexplicável de registrar tudo (ou quase tudo) que sinto. Talvez uma tentativa de eternizar as coisas, como disse Rubem Alves certa vez. Costumo dizer que sou uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Escrever é, acima de tudo, minha forma de ser/estar no mundo. É algo que me faz sentir viva. Para dizer com Zila Mamede, uma exímia cultivadora do verbo escrever, o “exercício da palavra” é o que dá sentido à minha existência.
Há outra pergunta que também ronda minha mente, e talvez também a sua, meu caro leitor: por que criar um blog, já que a internet está cheia deles e oferece inúmeras possibilidades de leitura? Respondo a essa indagação com o “ultimato” de um grande amigo (e parceiro de trabalho). Certo dia ele me falou: “Andreia, você precisa assumir sua condição de escritora”. Fiquei pensando nisso e planejei criar um blog para publicar minhas crônicas tão logo concluísse a faculdade de Letras. Há dois anos terminei o curso, mas a rotina de trabalho não me permitiu tomar essa decisão antes, apesar do incentivo de alguns amigos. E por falar em incentivo de amigo, em outra ocasião, quando fui selecionada em um concurso literário, o mesmo amigo que me intimou a assumir minha condição de escritora, escreveu (via e-mail): “volto a lhe dizer que a considero uma escritora, porque você precisa da escrita, e essa condição diferencia o escritor do escrevinhador eventual. vá em frente”.
E por precisar da escrita é que decidi, não obstante minhas limitações e inseguranças, criar um blog para compartilhar minhas impressões do mundo. Neste espaço, pretendo escrever sobre todas as coisas de que gosto: literatura, música, cinema, teatro, pintura, revisão de textos, crianças, viagens… Não se trata de um blog especializado ou de alguém que domina tais áreas, mas de um espaço onde pretendo deixar registrado o meu olhar sobre o cotidiano, com cenas vivenciadas em ônibus, no trabalho, nos encontros com os amigos, em reuniões familiares. Enfim, este blog será um espaço onde pretendo expor minhas reflexões sobre certas questões do nosso tempo, mas também sobre alguns dramas e sucessos pessoais. Um espaço onde pretendo falar dos valores nos quais acredito e que procuro cultivar diariamente, apesar das indiferenças e asperezas desse mundo nem sempre fácil de viver. Desejo que este blog seja um espaço onde a delicadeza, o afeto e o respeito prevaleçam.
E para encerrar esta crônica inaugural, os deixo com uma reflexão do escritor português António Alçada Baptista. “Escrever não é minha razão de viver. Viver é que é minha razão de escrever”.
Andreia Braz.