eu achei que nunca conseguiria te deixar ir. por um momento, longo, estiquei sua presença pelos meus dias, pra atravessar as noites sozinho e os dias em quem não tinha ninguém pra me segurar. eu te mantive por perto, na ilusão de que se te deixasse aqui, então tudo doeria menos.
o problema é que a gente sempre acha que não vai superar. que o lugar da superação é estático, fatídico, sufocante. e por medo de entrar nesse território, acabamos por agarrar a dor, a memória, o fim, como quem diz: quero continuar pensando e existindo como se tudo não tivesse passado de um sonho.
mas términos acontecem, todos os dias, enquanto comemos pão pela manhã, enquanto a polícia do país segue destruindo nossos sonhos, enquanto a vida lá fora continua exercendo seu direito de ser visceral.
eu sei que, às vezes, você também se apega à memória do que foi bom pra continuar suportando viver. porque te disseram, uma vez, que o amor do outro poderia te salvar ou te livrar do susto, da queda, de si. te disseram que o amor tinha essa capacidade, quase que divina, de te tirar do eixo. e você acreditou nisso, abraçou como se fosse a mais profunda das verdades.
você está atada à ideia de que, em algum momento, ele voltará e a dor será suprimida. que, de repente, a superação, de que tanto se fala, não precisará chegar até você, afinal, vocês estarão juntos novamente.
será?
será que é mais fácil acreditar na volta do que compreender que o caminho da superação é necessário? que você, eventualmente, passará por ele e perceberá que precisava abandonar o passado pra seguir em frente?
eu não achei que pudesse te superar até entender que superar não tem a ver com esquecer, mas sim, como diz uma amiga, “se preparar bem pra não cometer os mesmos erros”.
e eu estou aqui, pronto, de novo, pra amar, pro amar e principalmente: pra fazer certo dessa vez.