Ligou uma, duas, três vezes. Nada. As mensagens eram recebidas, mas não eram lidas.
Depois da experiência perturbadora de passar uma noite no hospital com Iris, Gabriel ficara tão preocupado que passava a maior parte de seu tempo ao lado da menina - e quando não podia ficar ao seu lado, comunicava-se por mensagem para saber se estava sempre tudo bem. Na noite anterior resolveu passar na casa de Iris para vê-la e passar o tempo com sua menina, mas precisou ir embora após algumas horas pois trabalharia no dia seguinte e, bem, não havia levado nada para passar a noite... Embora burrice da sua parte, precisou se despedir.
E esqueceu sua carteira.
Não era como se o acessório fosse incrivelmente importante, mas haviam algumas coisas que liberariam sua entrada no hospital, então não podia perder sua identificação. A princípio ligou apenas para pedir que Iris separasse sua carteira pois passaria ali para pegar, só que a insistência das ligações não atendidas o preocupou em uma medida imensurável. Não atendia no celular e nem em seu telefone fixo - e mesmo se fosse o caso de estar dormindo, seu sono não era tão difícil de interromper a ponto de não ouvir o telefone tocar.
A levar em consideração o dia em que a menina misturou diversas bebidas a ponto de machucar seu estômago, o que mais Gabriel podia pensar? Durante todo o trajeto até o apartamento da menina, tentava espantar qualquer ideia errada ou absurda. Iris não era daquele jeito.
Desde que tinha todo o acesso ao apartamento da menina, sua entrada fora simples; não quis fazer barulho por que talvez ela estivesse realmente dormindo, então iria iniciar sua busca à carteira fugitiva na parte da sala até ouvir ruídos vindos do banheiro. O barulho característico de vidro estilhaçando no chão o fez apertar os passos e correr até o cômodo, chegando a tempo o suficiente de ver a menina jogar algo pela pia e virar-se em direção a entrada do local ao exclamar um xingamento.
O cenho franziu no momento em que alguns frascos de remédios encontravam-se abertos, incrédulo da cena; o que ela ia fazer?
Em silêncio, os passos rápidos foram até a garota, segurando um de seus braços sem cuidado e puxando-a para um pouco longe da pia, abrindo espaço para Gabriel ver alguns poucos comprimidos que não foram completamente por ralo abaixo. A sensação mais horrível que sentira em sua vida fez o coração falhar uma batida, o peito se apertando conforme virava-se de frente para a outra brasileira e a encarava de modo incrédulo.
- O que você ia fazer? - perguntou já sem muita paciência, agora prendendo os dígitos contra seus braços, próximos aos ombros, chacoalhando-a como se aquilo fosse fazê-la confessar qualquer coisa. - QUE PORRA VOCÊ IA FAZER, IRIS? - o tom alterado ecoou pelo recinto, irritado, decepcionado, sem chão. Gabriel sentia-se tão impotente e preocupado, com medo pela resposta da menina que não conseguia conter a raiva e o desespero no qual a segurava, como se aquilo fosse impedi-la de tentar fazer alguma outra coisa.