& I hate that tomorrow's too soon but this collision, came mid bloom
Subindo degrau por degrau, prestando bastante atenção para não cair por causa do escuro, Sera Londom segurava o corrimão com muita força, pensando em seu pequeno irmão que havia morrido; ela segurava o corrimão como se fossem as mãos de seu pequeno irmãozinho. Pequeno era modo de falar, Kris morrera com 21 anos e um metro e noventa de altura, acidente de carro, bala perdida, suicídio... O que importa? A única coisa que importava agora para Sera era que ele estava morto. Pisou em falso no último degrau e se sentiu perdida, sem saber se gritava ou se se deixava entregar - lera isso em um livro uma vez, sobre essa sensação de achar que tem mais um degrau quando não tem sendo comparada com a morte. Era verdade.
Fechando a porta de seu quarto e a deixando para trás, Sera caiu no chão como se seu corpo tivesse sido desabitado, deitou com o corpo e a alma no chão e ficou a observar o ricochetear das luzes que vinham da rua e saiam sorrateiramente pelos feixes da janela para o teto, dançando, brincando, fazendo amor; ela só observou. "Eu pensei que você me pediria para não ir embora," pensou. "Mas não vejo muito o que fazer, agora que você me expulsou de sua casa. Sabe, eu tinha tantas perguntas no começo, eu era tão curioso, eu amava o mundo e todo ser humano que o habitava; eu era um andarilho, só que dentro de mim. Não consegui me ajeitar como deveria, depois que nossos pais me deserdaram por eu não querer fazer Medicina e por ser gay - o último porquê com mais força que o primeiro - eu até comecei um trabalho legal em uma livraria bacana, mas logo em seguida vieram as vozes, ah! as vozes... O que eu daria para fazê-las parar." Sera percebeu que tinha uma goteira bem aonde tinha se jogado, com gotas que caiam em seu nariz em intervalos de um a um minuto.
- Mas eu nunca entendi as vozes que ele ouvia... - disse, imóvel.
"Eu achei muito difícil achar o caminho, eu sabia onde a casa tinha sido construída, mas nunca me deram chave alguma; eu nunca soube crescer. Plantei várias sementes, vi várias de minhas plantas vingarem e vários serem distinguidas por ervas malignas, outras apodreceram... Mas as que vingaram, como eram bonitas! como tinha um ar que me renovava, de todas, você e Jean foram as que mais cheiravam, as que mais brilhavam, nunca soube todas as cores de todas as pétalas de vocês, porque elas mudavam a cada estação, mas certamente vocês espantavam o azul que predominava em meu miolo. E eu comecei a plantá-las, vocês e as outras flores, no jardim daquela casa fechada, porque a cerca era baixa e eu sempre podia ver o terreno todo e aquele jardim era tão grande que era até pecado deixá-lo somente com a terra e aquela grama não cuidada - então cuidei de vocês, amor, água e sol foi o que consegui. Não era uma estufa, mas era algo. E vocês foram crescendo e virando pássaros e muitos voaram para longe, muitos voltaram, muitos ficaram e infelizmente aqueles que eu mais gostava eu coloquei em uma gaiola, eu colocai vocês dois na mais bonita gaiola que encontrei, mas no fundo quem queria ser colocado em uma gaiola, ser alimentado e ganhar um apelido era eu, sempre fui eu." nesse momento, com o rosto todo encharcado de água da goteira, Sera começou a chorar.
- Eu, nem ninguém, nunca reclamou do seu amor... - disse chorando - pelo contrário, nós sempre encontrávamos felicidade em sua lágrima, nós sempre enxergamos a beleza do seu coração e nós o amávamos por isso.
"Eu sei que você vai tentar justificar tudo o que estou fazendo dizendo o quão bom eu era" Sera continuava a ler a carta de suicídio de seu irmão em sua mente, ela a decorara depois de a ler tantas vezes e estragar o papel com sua raiva e de borrar todas as letras com suas lágrimas "mas não há covardia que seja justificada por amor e o que eu estou prestes a fazer é sem sombra de dúvidas algo de muita coragem e covardia ao mesmo tempo, mas gostaria que entendesse que optei pela morte porque não conseguia mais viver sem ser alguém, sem conseguir colocar meu coração em algo, sem sentir o gosto da comida que provo, sem ficar feliz quando o sol me toca... Eu acho que me casei com a Tristeza, apesar de sua azulidão não ter sido o principal motivo de minha derrota. Eu acho que a maldade do mundo foi o que me fisgou como um peixe dourado, eu achei que nadava em um mar por toda minha vida, quando na verdade eu estava em um aquário. É claro que com a morte, a verdade continua um mistério, mas pelo menos eu vou poder descansar. Nunca acreditei no mesmo Deus que você e mamãe acreditavam, mas ainda sim acredito que exista uma força que rege todo o Universo e se tirar minha vida significa castigo ou o tão mainstream "Inferno", que então seja, no fundo eu simplesmente acredito na reencarnação através da decomposição do ser e a espiritual pra mim é como uma nuvem, isso, é isso que eu quero ser: uma nuvem. Quero poder sentir o Sol bem de perto e poder molhar a todos quando estiver triste, porque no fundo foi isso que sempre quis na vida: que todos vocês me entendessem e bebessem minhas lágrimas, sentissem minha brisa e vissem o Sol com meus olhos. Eu sei que é egoísmo tudo o que estou fazendo e tudo o que fiz, mas eu nunca escondi que eu me considerava essa pessoa egoísta."
Sera já não sabia mais se seu rosto estava molhado pela goteira ou por suas lágrimas, tudo que sabia é que estava gelada. Paralisada, tentando não lembrar da última parte da carta, como se isso impedisse que o espaço contínuo do tempo corresse e que seu irmão não tomasse tantos comprimidos na noite passada. Ela pensou que, se pudesse trocar a vida de seu irmão, dando ao Tempo seu movimento ou sua cor, que o faria. "Assim ele nunca morreria" mas então parou e percebeu que não era o que Kris iria querer, ele gostava muito de quem amava, não se matara para chamar a atenção ou para deixar alguma mensagem... Ou deixara? Era tudo tão recente... Ela engoliu um pouco da água agridoce que escorria por suas bochechas e engoliu. Aqui vamos nós para o desfecho da história, com o último parágrafo da carta de Kris.
"Eu quero que você se lembre de mim nos meus dias de jardinagem e que toda vez que olhar para o céu, sinta carinho por eu ser uma Nuvem. Não tenha dúvida de que te amei, ou de que amei Jean, ou nossos pais, ou o mundo, porque eu os amei com todo o meu coração e alma. Mas agora preciso descansar, porque continuar lutando já não me faz mais sentido, eu perdi aqueles óculos retrô com quem costumávamos caçar vaga-lumes à noite e agora só consigo enxergar a escuridão. Não espero que você me entenda, mas do fundo do meu coração, espero que não me julgue ou que nunca sinta raiva de mim. Eu fiz o que achei que era correto. Mande um beijo para todos e vista azul em meu funeral... Iria pedir para ser cremado, mas toda minha teoria de reencarnação pelo verde iria por água a baixo, então quero tudo o que der para reaproveitar do meu corpo enviado para hospitais e que a cerimônia contenha muita música Indie e comidas vegetarianas, para todas aquelas almas que me cercavam e me ensinaram muito. Eu sempre vou te amar. Me desculpe mais uma vez, agora tenho que ir porque a solidificação deve ser complicada. Com muito amor, Kris."
Sera ficou a olhar a goteira, que agora estava cada vez mais rápida e por um segundo, sentiu frio. Olhou para as luzes que brincavam no teto e percebeu que já amanhecera. Levantou e abriu a janela do barco e viu que o céu estava cheio de nuvens. Se perguntou qual delas era o seu irmão, se eram todas, ou nenhuma. Ela foi até a borda de seu aquário, colocou a mão no peito, contou até três e se jogou ao mar.