Para alguém cuja vida costumava ser uma intensidade seguida da outra, Alfonso percebia que recorrer a uma rotina familiar para algumas questões lhe era agradável hoje em dia. Talvez fosse a mínima sensação de estabilidade advinda de ter ao menos um pouco de controle, ou então meramente havia passado a apreciar novas perspectivas com o tempo. O futebol era um bom exemplo disso para o herdeiro espanhol: uma rotina agradável, treinos cansativos que serviam perfeitamente o propósito de dissipar energia que se acumularia em tensão sem o gasto da atividade. Por isso, apesar de sorrisos largos e expressões exuberantes não serem as facetas de escolha de Alfonso, não podia negar que estava de bom humor. Um contraste perfeitamente pontuado pela chegada do irmão mais novo, que parecia estar em um estado de espírito muito menos agradável. “E aí, campeão” Cumprimentou, sua habitual preocupação com o caçula deixada de lado por perceber que o que incomodava era algo inocente feito uma dor de cabeça pós-bebedeira. “Foi mal, mano, vou ficar te devendo dessa vez.” Estendeu uma garrafa de água na direção do outro, ainda que não pudesse ajudá-lo com um medicamento que não possuía. “Uma situação muito interessante essa aqui. Geralmente eu assumo o papel de fazer careta enquanto você sorri fazendo as simpatias. Deve ter sido uma noite daquelas, hein?” Cutucou Xavier levemente entre as costelas, em um gesto familiar que existia entre os dois desde a infância. “Tomei uns goles com a Eunji, dei uma olhada em umas salas bizarras com uma outra galera, depois fui embora. Nada demais, diria que foi um balanço bastante inocente. E você? Devo saber o que andou aprontando a ponto de esquecer como evitar uma ressaca no outro dia?”
Xavier até tentou forçar um sorriso ao cumprimento do mais velho, mas só a tentativa lhe causou um pequeno latejar nas têmporas. Como os brasileiros estavam acostumados com a caipirinha? Ele nunca iria saber, mas certamente lembraria de maneirar numa próxima vez. O suspiro frustrado rompeu seus lábios, e o mais novo assentiu com um movimento suave de cabeça. “Tudo bem, imaginei que não fosse ter, ao menos não por aqui. Mas a esperança é a última que morre, não?”, uma frase clichê, para um momento igualmente clichê. Xavier sentia que ia morrer, apenas queria deitar no gramado e ficar ali. Que passassem a bola por cima dele, não queria problema. Olhou a garrafa ser estendida, e o estomago quase embrulhou, também não queria a água, ou julgava que não ia conseguir ingerir nada pelo resto do dia, mas se esforçou a aceitar. Tomou o objeto nas mãos, abriu a tampa e deu apenas um pequeno gole. A observação do irmão foi realmente curiosa, sua ressaca quase não permitiu que notasse o quanto mais velho estava sorridente, um tanto diferente do habitual entre eles. “Tem razão. Quem é você e o que fez com o meu irmão?”, conseguiu brincar naquele momento, mesmo que sem nenhum sorriso nos lábios e com o tom mais normal do que brincalhão, mas Alfonso entenderia. “Aaah, eu me animei bastante com a caipirinha, não sei se por ser gostosa a tal da cachaça, ou se para... bem, animar a noite”, diria que para esquecer, mas não queria tocar naquele tópico com o mais velho, gostava de manter sua ainda dependência por Alejandra guardada para si. O cutucado, fez com que ele desse um pequeno pulo sem sair do lugar. A destra que foi na direção da mão do irmão para afasta-la, não teve qualquer sucesso, já havia sido tocado. Estava lento ainda, talvez resultado da ressaca ou do cansaço. “Não aprontei, sou um anjo, lembra? Também conheci algumas salas, tentei ajudar a Thea com um problema e depois acabei arrastando a Cerys pra balada, o de sempre, eu acho.”, deu de ombros. “só não sei como consegue aguentar a Eunji. Deveríamos trocar de quarto, sabia? Já que se dão tão bem.”.