Já fazia quase um mês desde a volta de Olivia para sua cidade natal, e a morena ainda não havia conseguido recuperar sua autonomia. Lembrava-se completamente de quando deixara tudo aquilo para trás, tendo certeza de que suas visitas seriam periódicas para visitar os pais e nada além disso. Àquela altura, seu casamento com Clarke já deveria estar próximo, suas apresentações se tornando mais frequentes, tornando os finais de semanas dos dois precisos, como planejado. Naquele momento, no entanto, lá estava ela no café que costumava frequentar raramente quando mais nova, esperando o horário de sua próxima sessão de fisioterapia, apoiada em sua muleta no balcão esperando que a garçonete lhe entregasse seu chá gelado para que ela pudesse seguir caminho.
Poucas foram as pessoas de sua adolescência que sabiam de sua volta, já que por sorte Melbourne era uma cidade grande o suficiente para as pessoas se manterem ocupadas, embora ela soubesse que isso não duraria muito tempo, afinal apesar de não ter sido exatamente popular em sua época de escola, Liv sabia bem como se comportavam os grupos de sua época e acreditava que não deveriam ter mudado tanto assim. A morena agradeceu a garçonete em um tom baixo e um meio sorriso surto nos lábios, guardando o celular na pequena bolsa em seu ombro e, segurando o copo em uma das mãos, apoiando o corpo com a muleta a mulher afastou-se ainda de costas para virar o corpo pronta para seguir para sua sessão, quando sentiu o corpo se chocar bruscamente com outra pessoa, fazendo-a desequilibrar, segurando a muleta com força para se manter em pé, mas soltando o copo de chá que praticamente explodira no ar molhando tudo ao seu redor.
Seu impulso fora fechar os olhos com força, como se estivesse se preparando para o próximo golpe do universo contra si. – Holy… – Ponderou, em um suspirou profundamente, sacudindo a mão molhada pronta para olhar para o autor da cena, quando ouvira seu nome ser proferido por ele em uma voz levemente familiar, fazendo-a franzir o cenho e engolir em seco em seguida. – Não, não, deixa pra lá, não foi nada, só… – Respondeu rapidamente, balançando a cabeça negativamente, arrumando a postura com a ajuda da muleta, olhando mais cuidadosamente para o rosto do antigo conhecido, recém ferido e inchado. – ouch.– Exclamou baixo mordendo brevemente os lábios em uma expressão preocupada. – Com licença, você pode me arrumar um pouco de gelo? – Murmurou a morena olhando novamente para o balcão, pretendendo tentar ajudá-lo, aonde a garçonete já se dirigia com um pano para ajudá-la a se secar.
A garota à sua frente havia sido responsável pelos únicos pensamentos genuinamente puros e sem malícia de Xavier durante o ensino médio. Desenvolvera uma espécie de paixão platônica pela garota lá pelos seus dezesseis anos, e embora àquela altura estivesse acostumado a lidar com garotas, nunca havia realmente tentado a sorte com Olivia. Isso porque era esperto o suficiente para saber que as meninas que caíam em sua lábia eram as que tinham interesses sexuais e reputações manchadas, exatamente como ele; nesses casos, era muito mais fácil conseguir se relacionar com uma delas. Mas aquela garota à sua frente, com sua aura angelical e sorriso doce, jamais seria alguém que merecia ficar com um cara impulsivo, rebelde e inconsequente como ele.
Por mais que até hoje fosse o mesmo cara, e agora desempregado, sem profissão e sem um diploma de faculdade, ainda era o mesmo cara que se esforçava para ser legal com a única garota que já havia feito seu coração bater de uma forma diferente, ainda que ela não soubesse. “Foi mal mesmo, eu não prestei atenção onde eu eu ‘tava andando.” Era sincero no que dizia. Observou uma das funcionárias limpar o local que ele havia sujado, e o loiro franziu o cenho quando reparou que ela havia pedido gelo. “Gelo? Eu te machuquei? Vem cá, deixa eu te ajudar, melhor você se sentar.” Seu tom era genuinamente preocupado, e ele sequer pensou na possibilidade de que ela estivesse pedindo gelo por conta dos visíveis machucados em seu rosto e punho. Aproximou-se dela, não sabendo muito bem se poderia tocar nela, para lhe dar apoio e ajudar a sentar-se em alguma cadeira. Virou-se para uma das atendentes e fez o pedido de maneira meio grosseira. “Aí, faz outro desse negócio que ela pediu, e me traz uma água sem gás também.” Mesmo que a outra tenha dito que não precisava, sentia que devia lhe pagar a bebida de volta. “Tem uma mesa vazia ali, quer sentar lá enquanto espera?”