Sorte a dele que Taehee não se sentia nem um pouco ameaçada quando invadiam seu espaço como ele estava fazendo, avançando e fechando a porta atrás de si. Caso contrário, ela estaria ainda mais brava agora e a situação poderia piorar. Contudo, como não era esta a situação e ela ainda estava magoada, Taehee utilizava de seu principal recurso quando estava incomodada com algo: ignorar. Ela fazia isso sempre que precisava sanar a necessidade de seu coração rancoroso de dar um gelo em alguém, ou apenas não queria se aprofundar em uma discussão porque sabia que estava certa. Como a situação entre os dois era um pouco mais específica do que isso, ela optou por ignorá-lo ao máximo enquanto dava as costas e rumava para a cozinha. Não queria ouvi-lo, não iria ouvi-lo. Se dependesse dela, Yukwon morreria esperando por qualquer outra palavra sua naquela sala de estar.
Entretanto, quando ele começou a falar, Taehee diminuiu a velocidade de seus passos de modo que parou um pouco antes da entrada da cozinha, para onde pretendia voltar e terminar sua refeição, depois de dar um jeito no dedo ensaguentado, cujo sangue começava a manchar o guardanapo que estava usando contra o corte. Ela tentava ser tão fria quanto os pais, quanto o pai, principalmente, mas não conseguia: pedidos de desculpa conseguiam desmontá-la de um jeito abissal. E isso era perigoso, porque fora esse tipo de coisa que a fizera se submeter a continuidade de uma relação mesmo depois de uma traição, além de ter sido vítima de inúmeros relacionamentos abusivos.
O problema era que Yukwon realmente soava sincero, e não havia tantos motivos para continuar brava com ele depois de tudo aquilo, mas Taehee andava tão fragilizada nos últimos dias que não queria dar o braço a torcer mais uma vez. Não depois das palavras agressivas de Eunseo, da despedida de Choyeon e Yunho, não com o distanciamento sem justificativa alguma por parte de Yongnam. E agora Yukwon parecia estar na berlinda também de pessoas que a decepcionaram. Por que ela não conseguia simplesmente odiá-los? Seria mais fácil. E doeria menos em si quando pensasse que tinha de perdoar seus amigos, porque eram amigos, afinal. Mas ela queria continuar com raiva. E foi só por isso que segurou o choro ao máximo possível, respirando fundo. Virou-se nos calcanhares e voltou a olhar para Yukwon.
“Você diz as coisas certas, Yukwon, mas todo mundo diz. E isso não muda o fato de que me machucam quando agem como você agiu, falando como se eu não soubesse o que eu estou fazendo, ou como se eu fizesse o que faço porque é conveniente só pra mim e eu só estou pensando em mim.” Retrucou. Um pedido de desculpas não deveria receber uma resposta, mas Taehee estava tão exausta de tudo. Parar com os remédios também não estava ajudando, então, infelizmente, talvez Yukwon fosse vítima de sua fúria movida pela depressão e alimentada pela frustração constante. “Eu estava tentando te ajudar, Yukwon. Não precisava ter falado comigo daquele jeito. Nem devia ter me dado as costas. Foi a maior demonstração de descaso que poderia ter vindo de você.” Apesar da raiva quase fazendo seu peito explodir, Taehee não estava falando muito alto; tinha medo de acabar chorando se alteasse muito a voz. Quer dizer, haviam lágrimas escorrendo por seu rosto agora, mas eram as teimosas. “E olha que é de você, que nunca tem tempo para os seus amigos, nem para a sua vida.” Naquele instante, inconscientemente, ela sentiu vontade de avançar uns passos e voltar a se aproximar dele, mas somente para poder olhá-lo nos olhos mais de perto. Os seus estavam encharcados e agora seu lábio inferior tremia, mas ela apertou mais o guardanapo contra o dedo, respirou fundo rapidamente e retomou sua linha de raciocínio.
“E, deixa eu te contar uma coisa: eu vi a morte de perto. Eu senti aquele vazio e aquele escuro na minha carne, aquela vontade de gritar e ninguém te ouvir porque eu estava morta. Não tem nada do outro lado. E eu só estava querendo te ajudar a aproveitar o que você tem aqui agora. Por mais teimoso que seja.” Sua fala se tornou uma oitava um pouco mais alta. Sua voz se esganiçara. O choro profuso estava vindo à tona. Não se lembrava de ter contado aquele detalhe acerca de sua vida – ou melhor dizendo, de sua quase morte – a Yukwon. Poucas pessoas ao eu redor sabiam disso, na verdade. A overdose acidental com as drogas em sua adolescência e as tentativas de suicídio posteriores não eram assuntos muito agradáveis a serem tratados. “Eu posso te desculpar por não querer aproveitar um pouco as suas chances, mas não por ter me tratado daquele jeito quando eu só queria ajudar. Eu cansei de vocês falando comigo como se fossem donos da razão e eu devesse me submeter às humilhações de vocês.” Estava se referindo ao plural, o que enfatizava que não estava irritada somente com Yukwon: haviam mais nomes que ainda estavam envoltos por mágoa e decepção dentro do coração de Taehee e só por isso ela estava chorando. E foi quando as lágrimas se tornaram mais profusas e um soluço escapou, que ela voltou a dar as costas. Queria se enfiar no banheiro e chorar pra caralho. O máximo que conseguia. “Agora você já pode ir. Eu já ouvi as suas desculpas, você já salvou a sua consciência. Pode voltar a fazer o que faz de melhor: cuidar da sua vida e esquecer que eu existo. Que o mundo lá fora existe. Seu pai precisa de você, algumas outras pessoas também, mas deixa elas pra lá. Vai acabar as machucando de qualquer jeito. Elas vão embora de qualquer maneira.” Deu de ombros, mordiscando o interno da bochecha. “Eu não vou mais tentar te fazer enxergar sua vida além da sua redoma de vidro, mas eu não quero mais que você se ache no direito de me chamar de amiga e de se preocupar comigo depois disso.” As palavras eram fortes, mas se Yukwon ainda a conhecia tão bem quanto conhecia quando eram menores, ele saberia que ela estava falando aquilo só porque estava frustrada. Chateada.
Taehee jamais diria algo do tipo a um amigo de longa data se já não estivesse transbordando de tanta tristeza, como já era perceptível em seus olhos enormes e tão expressivos, marejados e que derramavam tantas lágrimas enquanto ela rumava de volta, a passos rápidos, para a cozinha.
yukwon não esperava por uma resposta até porque nem tinha dado abertura para tal, então não foi de total surpresa quando a outra lhe deu as costas. claro que àquela altura preferia resolver a situação como dois adultos que eram, mas não sendo possível, não a forçaria. não fazia seu estilo e quantas vezes já não havia aberto mão da própria vontade para satisfazer a dos outros? era só mais uma das situações, provavelmente também não seria a última e tudo bem. já não fazia questão há tempos. havia dado a deixa para que ela lhe pedisse para sair quando terminasse de falar e com isso, ao que taehee se virava em sua direção, imaginou que apenas o pedido viria. estava errado.
logo que as palavras começaram a abandonar os lábios femininos, o coreano percebeu que talvez ir vê-la logo após a discussão não havia sido a tomada de decisão mais inteligente a ser feita. o tom passivo-agressivo usado por ela arranhava a audição, as palavras escolhidas também. era como se estivesse a engolir agulhas a cada novo minuto que se forçava a ficar em silêncio, mas não retrucava. precisava treinar a escuta porque afinal era importante saber como ela se sentia sobre a situação. e, no fim, era ele quem havia errado em primeiro lugar. não tinha arrumado desculpas para se defender até então e não o faria agora. queria resolver, não piorar as coisas.
a situação anterior era desconfortável, mas a atual era dolorosa. ver que ainda machucava as pessoas à sua volta não era o passatempo preferido de yukwon, que tentava a todo custo deixar aquele passado para trás. era um dos motivos pelo qual escolhia viver para os outros, em uma tentativa de machucar apenas a si mesmo no processo porque, céus, como desejava não ser o motivo de toda aquela raiva. como desejava não ser o motivo daquelas lágrimas. na visão do coreano, havia sim errado, mas não o suficiente para receber aquela tempestade em troca de um pedido de desculpas sincero. um pedido de desculpas sem armas, sem defesa, feito de peito aberto. talvez aquele tenha sido seu erro, um dos vários.
quando havia se tornado o monstro que taehee descrevia?
a menção à morte foi o início da respiração acelerada que yukwon adquiria, sendo escondida à base da força pelo próprio rapaz, que a tentava controlar a qualquer custo. era um gatilho óbvio, considerando que estava cercado por morte desde que se lembra: a morte simbólica da mãe, a literal dos avós e da primeira namorada, a ideia da morte do pai da qual fugia constantemente e agora a informação sobre a de taehee. não precisava aumentar a lista das pessoas que já tinha perdido, ou das que estava para perder, mas parecia que o nome da outra estava sendo escrito por ela mesma e, sinceramente, não conseguia entender o porquê. parecia que a mulher estava procurando uma forma de atingir, de derrubar, mas preferia acreditar que era apenas impressão sua. taehee não lhe machucaria de propósito, machucaria?
apenas quando as palavras no pural começaram a ser usadas que se permitiu cogitar a ideia de que não eram apenas uma resposta para o que havia dito, mas sim um desabafo. estava disposto a ouvir e ajudá-la a elaborar porque acreditava que quanto mais ela falasse, menos incomodaria. poderiam pelo menos tirar algo de bom daquela situação, certo? o problema era que quanto mais ela falava, mais doía ouvir. yukwon temia o abandono e taehee sabia disso, era cruel ter aquelas palavras jogadas em si sem o mínimo de cuidado por qualquer motivo que fosse. era cruel a forma que taehee usava a fala como uma faca que perfurava qualquer coisa que tinha à frente. era cruel.
então o leve sorriso que se formava no canto dos lábios de yukwon era feito de puro desgosto. elas vão embora de qualquer maneira. escutar aquilo doía como há tempos não sentia, o fôlego faltava, o corpo tensionava, a garganta fechava e os pulmões queimavam como se quisessem expulsar todo o oxigênio que entrava. raiva? tristeza? mágoa? talvez a mistura de todos, talvez de nenhum deles. a única coisa que yukwon queria fazer no momento era rir porque até que ponto ela estava errada, afinal? a mãe o havia abandonado em primeiro lugar, a pessoa que deveria ter lhe amado desde o começo, por que outras pessoas não o abandonariam também? patético. se sentia patético. era patético. merecia ouvir cada uma daquelas palavras, quem sabe após as mesmas deixaria de confiar e expor seus sentimentos para quem quer que fosse.
tinha vários pontos onde poderia refutá-la com facilidade, mas depois de tudo o que havia escutado, não sentia como se valesse à pena e nem como se quisesse fazê-lo. se aquela imagem era a que passava, por que ainda mantinham uma amizade para início de conversa? taehee vivia em um mundo paralelo onde havia se tornado a salvadora de yukwon sem que ele soubesse? onde ela devia alguma coisa pra o coreano? demorou alguns minutos a mais para que pudesse digerir tudo o que lhe foi dito, mas ao invés da voz rouca, o que cortou o silêncio da sala foi o bater da porta quando deixou o local.