Rapaz latino-americano
Você foi a coisa mais bonita que me aconteceu depois da queda do dente de leite
– o da frente que deixou uma janela no sorriso para ver até a alma
e olhe que isso faz muito tempo.
Quando você chegou pelas ondas do rádio na cozinha,
tinha uma bancada onde ficavam as frutas, as biscoiteiras e o rádio
O rádio eu não tinha percebido antes de você chamar
fazia parte do meu ouvido quase como o vôo de um pernilongo
Naquela época as estações embalavam a tarde morna
de modo que não havia silêncio na casa mas havia muito
espaço para ser preenchido.
Minha mãe cortava o cheiro do coentro em pedacinhos
eu esticava as pernas no sofá esperando a noite
o rádio com voz de moço pincelava as notícias
de gente que tinha morrido
das lojas inauguradas no centro da cidade
do resultado do jogo do bicho naquele dia
eram coisas tão distantes de mim
até que você usou sua maciez para entrar
e uma ponte surgiu entre meu rosto e os alto-falantes.
Você falava da vida comum como se conhecesse
a minha família
falava da América Latina, eu estudava isso no livro de geografia
e o Nordeste também
embora você dissesse que o Nordeste
era uma invenção, eu entendi
também não me reconhecia na terra rachada
e no gado morto, pelo contrário
em casa eu demorava no banho
e ficava imaginando que cordilheiras e ilhas
também eram invenções dos livros
Imagina você dividindo uma coca-cola comigo
eu que nunca tinha visto a sua cara, pensava
que você era do meu tamanho
que talvez morássemos na mesma rua
queria te perguntar quais gibis você leu
se você realmente foi no cinema pra beijar
só depois de anos te entendi um pouco
mas você já tinha sumido no mundo
você já tinha ido embora, ninguém te tocava
eu velha ficava repetindo as mesmas músicas
que você tinha deixado pra gente
toda vez descobria um sentido novo dentro da sua cabeça
detalhes que eu tinha deixado passar:
você é claro e transparente como um vidro
é que as coisas simples são difíceis de enxergar
quando o mundo é tão complicado.
Na verdade, me acostumei com sua ausência
como me acostumei com o silêncio do rádio
duas coisas que apesar de terem passado
nunca vão morrer.
Mariane Cardoso.














