carta sobre continuidade
meu amor, de tempos em tempos, a cortina da nossa consciência se abre perante a grande roda da vida. é natural que seja difícil encarar aquilo que não compreendemos totalmente. mas não precisa ser.
levei algum tempo pra perceber que viver é partilhar. principalmente o conhecimento. acho que essa é, de fato, a nossa única missão como seres vivos. sendo assim, aqui vai o (pouco) que sei sobre a morte:
não é o fim. clichê, eu sei. simples, eu sei. e quando digo “simples” é de acordo com a definição do dicionário que diz: “algo que não apresenta qualquer embaraço para sua compreensão”. porém, como sociedade moderna, diante de muitos motivos – e nem todos honestos – nós pusemos sim, muitos embaraços, para a compreensão da morte. e leva-se tempo, acrescido de muita esperança, para ressignificar esses embaraços, mas é possível.
é possível porque faz parte de nós. está gravado no nosso espírito, carregado através de nossos ancestrais. os povos andinos, por exemplo, celebravam a morte com uma grande festa. entendiam que a vida é um empréstimo da terra, e assim, quando se morre, é o momento de retorno à Mãe Terra, ou como eles chamam, Pachamama. eles honravam os períodos de colheita e seca de forma igual: não viam motivo pra ver o fim da abundância como luto, pois era o preparo para o renascimento da natureza.
o povo celta via o tempo como uma roda, não como linha reta. quando chegava o fim do período agrícola, se reuniam e faziam muitas fogueiras, dançando em círculos em volta delas, no escuro da noite. para eles, era a “morte do ano”, que hoje, após séculos de modificações, conhecemos como “halloween”. eles celebravam, pois, entendiam que o escuro, na verdade, não é o fim da luz, mas o ventre onde ela renasce. após a celebração do fim das colheitas, haviam semanas de profundo recolhimento e silêncio, se conectando com a natureza e respeitando o tempo que ela precisava para se renovar e trazer colheitas ainda melhores, logo em seguida.
esses povos – e tantos outros – tinham essa compreensão porque se guiavam pela natureza. eram inundados de conhecimento, todo o tempo, apenas por observar como a natureza – silenciosamente – age. em tudo, o tempo todo. a baleia-azul, por exemplo, o maior animal que já existiu e ainda existe no planeta. só a língua dela tem o peso de um elefante. quando a baleia-azul morre, seu corpo se afunda nas profundezas do oceano. e, de sua carcaça, um novo ecossistema nasce. diversos organismos fazem de seu corpo uma morada.
a terra empresta todos os seus nutrientes para que a árvore cresça, forte e saudável. mais tarde, folhas brotam dos galhos dessa árvore, dando alimento, abrigo e oxigênio a esse mundo. e então, as folhas secam e caem, finalmente devolvendo os nutrientes à terra.
são incontáveis os exemplos que podemos nos apegar, em meio à natureza, para compreender a importância dos ciclos. e é aqui que quero chegar. quando dizemos que a vida é breve, talvez essa concepção não esteja adequada. ao meu ver, o que se faz breve, são os ciclos, e a vida, seria uma só. uma grande teia onde estamos todos conectados e renascendo, todo o tempo. sem um, não existe o outro, e assim, é impossível determinar o que é começo e o que é fim, e é somente isso que faz a roda jamais parar de girar.
é preciso resiliência, eu sei. e, a maioria das vezes, nos falta paciência. a morte escancara a nossa falta de controle. chega e rasga toda a nossa concepção de tempo. afinal, que tempo?
mas a morte também é esperança. beleza. entrega.
diante da morte não há espaço para a dúvida. só sobra o que já se tem. e sendo assim, por que não ter fé? como aquela espécie de tartaruga que bota mais de 100 ovos por ninhada, sabendo que a maioria dos filhotes não irá sobreviver – pois morrerá pela correnteza do mar ou como presa de aves –, mas bota mesmo assim, com a certeza de que alguns poucos vencerão a arrebentação e irão viver.
é preciso ser tartaruga nessa vida. não ter medo de ser bom ou fazer o certo porque, por vezes, partes suas morrerão no processo. mas as partes que sobreviverem, te tornarão ainda mais forte. e somos todos partes de nossos ancestrais. estarmos vivos é a forma que temos de fazer eles também seguirem. e quando a nossa hora também chegar, já teremos deixado sementes suficientes, para os próximos regarem.
todas as vezes que você plantar, como seu avô te ensinou, ele viverá. e quando você ensinar os nossos filhos a plantar, ele renascerá, de um jeito novo e mais bonito.
não se apegue à ausência física, porque em espírito, estamos todos ainda mais juntos. é dolorido, eu sei.
mas não precisa ser.
Camila 10/10/2025










