Os céus em volta bramiam furiosos, grossos pingos de chuva esmurravam à janela redonda da cabine. Piotr Gontcharov observava atento à escuridão lá fora, esperando ansiosamente pelo momento em que o próximo relâmpago traria luz ao mundo embebido em trevas, revelando o contorno agourento das nuvens acima e a cordilheira gelada que se aproximava, conforme o aeróstato avançava rumo ao norte através das colinas. Ele havia depositado seu chapéu marrom com cuidado sobre o assento ao lado e puxado do bolso do paletó da mesma cor o pequeno envelope pardo que continha os restos saudosos dos últimos três anos.
Espalhada sobre a mesa e entre seus dedos secos, agora, uma mulher sorria, congelada no tempo, momentos capturados mesmo que contra a prĂłpria vontade jaziam presos em fotografias ainda recentes, o papel laminado brilhava, o barulho dos motores era ensurdecedor, ele quase podia imaginar as hĂ©lices girando lá fora em meio Ă tempestade. Ele quase podia imaginá-la dançando sob os pingos de chuva no campo lá embaixo, girando como as hĂ©lices, de boca aberta, o vestido branco colado ao corpo. Onde ela estaria agora? Ele respirou fundo e retirou do envelope a Ăşltima foto. Ela nĂŁo sorria, estava sĂ©ria, encarava imparcialmente, quase insĂpida, Ă câmera, seus lábios pequeninos e apertados pintados de vermelho, seus cabelos cacheados escuros, volumosos, brilhavam sob o sol da tarde que entrava pela janela em lâminas incisivas. Jazia sentada numa grande poltrona estofada, vermelho e dourado, seu trono. Havia um gaveteiro marrom ao lado e um enorme vaso de porcelana contendo botões gordos de rosas brancas em suas longas hastes espinhentas, e eram tantas, “vocĂŞ trouxe a roseira inteira”, ela havia dito “sem necessidade”, ela havia completado.
Ele sentia falta daquilo, daquele rosto em formato de coração, das pernas brancas como leite, grossas, saborosas, dos seios fartos e da grande pinta no formato da Austrália que ela escondia entre eles, “vamos para lá um dia”, ela havia dito, “eu já tenho o mapa”, ela havia completado. Um nó formou-se em sua garganta, seu coração acelerou, aquele perfume ainda o inebriava em pensamento, algo como lavanda, ela o assombrava em silêncio. Piotr carregava no peito a sensação de que era constantemente observado de longe, mesmo no interior de uma cabine apertada como aquela. Olhou em volta admirado, a presença era quase sólida, e então espantou aquele pensamento com um sacode da cabeça e enfiou as fotos de volta no envelope rapidamente, tanto quanto atrapalhado, como se tentasse, em vão, impedi-la de se materializar diante dos seus olhos. No fundo, aquele era o seu desejo, entretanto o medo de olhar novamente dentro daqueles olhos escuros como o abismo da noite era muito maior do que a saudade. Antes de guardar a última foto, deu uma longa e arriscada espiada nela, aquela com as flores, e sorriu sem jeito vendo-a largada na poltrona vestindo sua camisa, aquela blusa branca de botões, larga, mangas compridas, era para ela quase que como um vestido.
Absorto, foi arremessado para fora dos seus pensamentos por trĂŞs singelas e ritmadas batidas Ă porta. Assustado, pĂ´s-se de pĂ©, e com o coração acelerado, deu dois passos em direção Ă ela e abriu, esperando vĂŞ-la de certo, ainda a carregava em seu pensamento quando a figura magricela e recurvada enfiada num terno cáqui desenhou-se no escuro alĂ©m do vĂŁo, diante dele, destroçando quaisquer fantasias e esperanças que ele ainda carregava. A iluminação dos corredores perdida no Ăşltimo estrondo de trovĂŁo minutos atrás, fora restaurada naquele mesmo instante, e Piotr pĂ´de entĂŁo distingui-lo melhor. O cabelo comprido penteado para trás, o nariz adunco, as sobrancelhas grossas, os lábios finos e cĂnicos, no mundo, aquela era a Ăşltima pessoa que ele desejava ver. Pelo menos naquele momento. Pelo menos por toda a longa eternidade que se estendia infinita. Seu peito encheu-se de Ăłdio, mas antes que ele fechasse a porta com um baque, a mĂŁo ossuda do homem espalmou-se na madeira impedindo-a de avançar rumo ao encaixe. Sua outra mĂŁo apertava um chapĂ©u panamá de encontro ao peito.
— Fora daqui, antes que eu torça o seu pescoço e acabe com essa história de uma vez por todas — silvou Piotr.
— Nós precisamos conversar.
— Você tem muita coragem de vir até aqui. Como soube que eu estava nesse navio? Eu comprei a passagem de última hora. Isso não pode ser coincidência, isso é mais um dos seus ardis, seu animal vil e imundo.
— Isso nĂŁo Ă© um ardil, pelo menos nĂŁo mais. — ele respirou fundo, tinha os olhos fixos no chĂŁo desde o momento em que Piotr abrira a porta, seus lábios eram uma linha rĂgida, estava teso, tenso, e nĂŁo iria a lugar algum — isso pode soar estranho, mas venho te seguindo desde que ela desapareceu. TambĂ©m venho acompanhando as investigações da polĂcia de perto desde entĂŁo.
— Então você sabe que o seu pessoal desistiu das buscas — cuspiu Piotr com nojo — você não tem mais o que fazer aqui, nunca teve. Fora daqui ou chamo a segurança.
O homem magricela ergueu os olhos do chão e o encarou duramente. Havia algo de diferente ali em comparação às outras vezes em que o havia encontrado. Não havia deboche ou desafio por trás das suas pestanas, o sorriso de canto de boca havia desaparecido, ele não estava girando o chapéu no dedo indicador. Senhor detetive galanteador, salafrário e sedutor, mestre das palavras, incisivo no olhar, persuasivo, persistente, sorrateiro feito uma serpente, assim era Bóris Agassian, ao menos sob o olhar masculino competitivo de Piotr, que tinha lá sua fama machista numa era de emancipação feminina. Todavia, sob o olhar amoroso e piedoso daquela que ambos haviam disputado, Bóris não passava de uma alma solitária e incompreendida, alguém torto e corrompido como ela própria. Piotr nunca havia se dado ao trabalho de entender o que ela queria de fato dizer com aquilo, ao seu julgamento — e ele era absoluto e irrevogável — Bóris não passava de um tratante com a lábia muito boa, especializado em conquistar mulheres demasiado românticas e solitárias para fins de satisfação do próprio ego absurdamente grande. Como se ele próprio não fosse egocêntrico o suficiente.
Bóris poderia ter se justificado, poderia ter contado ao rival a respeito das inúmeras tentativas falhas em assumir as investigações, poderia ter lhe contado a respeito dos embargos superiores e de como lhe disseram que seu envolvimento emocional com a desaparecida poderia comprometer toda a operação, em vez disso absteve-se e contentou-se em engolir em seco antes de dizer qualquer coisa, jogar o próprio orgulho na lama para ir até ali já havia sido o suficiente, ele não precisava justificar-se para aquele homem. Que se dane.
— Nós não temos porque brigar agora, Piotr. — ele disse, dura e friamente — eu sinto tanta falta dela quanto você.
— Você está desesperado — concluiu ele, baixando a guarda e dando um passo atrás. Seus ombros outrora arqueados, desceram. Não havia nada do Bóris costumeiro naquele homem de terno cáqui parado à sua frente, apertando o próprio chapéu contra o peito até que os nós dos seus dedos se tornassem brancos. Ele até mesmo havia penteado o cabelo para trás, suas madeixas escuras lambuzadas de gel brilhavam sob a luz amarelada da cabine, não havia desdém naquela voz, a postura que ele ostentava carregava uma aura incomum. Estaria ele revestido de humildade pela primeira vez na vida? — você se arrumou tanto que parece que está indo para um velório. O que houve com aquela cabeleira solta ao vento?
— Não tenho porquê usá-la desse jeito novamente, o único motivo era…
Piotr fechou a cara e ergueu a mĂŁo.
— Não termine — disse, algo verde e ácido se revolvia em seu estômago, um arrepio percorreu sua coluna. Ciúmes. — eu sei bem o que você vai dizer, eu sei bem o que você está sentindo, eu também mudei alguns costumes desde que ela partiu.
Eles permaneceram em silêncio, palmos de distância os separavam. Piotr deu uma bela olhada naquele pilantra antes de afastar-se e dar-lhe passagem.
— Por Deus, você está miserável. Entre antes que eu lhe parta a cara em duas.
Devidamente acomodados em assentos opostos, Piotr puxou o enorme telefone do gancho na parede próxima, girou os números na roleta e chamou pelo serviço de bordo, e enquanto ele e a mulher do outro lado da linha conversavam cordialmente, Bóris, que havia notado algo de peculiar embaixo da mesa, agachou-se para recolher do chão algo semelhante a um papelote pisoteado. Seu coração deslizou garganta acima quando percebeu que se tratava na verdade de um retrato, mas não somente isso, o que havia lhe feito congelar no assento e perder o ar completamente não fora o papel laminado ou sua moldura branca serrilhada, mas o olhar apático e as sobrancelhas escuras e grossas daquela que um dia fora aos seus olhos a mais bela e perfeita de todas as criações de Deus. No retrato, a mulher estava deitada de bruços, os braços apoiados nos cotovelos, os cotovelos apoiados na cama, o rosto angelical em formato de coração emoldurado por mãos delicadas de dedos longos, de pernas para o alto, suas canelas formavam um xis perfeito. Ela estaria completamente nua, não fosse pelo lençol que cobria suas costas e nádegas, seus seios jaziam esparramados, entretanto as auréolas não estavam à mostra, nada daquilo importava, aquela visão era o suficiente para fazer com que seu coração pulasse uma batida ou duas. Ele já havia visto aquilo de perto, aquele sorriso, aquelas curvas, por Deus, ele poderia ouvir a gargalhada dela a qualquer momento, a voz grossa para uma mulher, roufenha por consequência dos cigarros. Quantas vezes ele havia pedido a ela que parasse? Ela por sua vez havia gargalhado alto enquanto baforava uma nuvem branca e amorfa em direção ao teto descascado do quartinho apertado onde ela havia morado aquele ano inteiro.
Naquela Ă©poca, se nĂŁo lhe falha a memĂłria, ela estaria completando as alturas de um ano e uns trocados ao lado de Piotr, frequentando restaurantes chiques e festas da alta sociedade. No entanto, ela e BĂłris ainda se encontravam Ă s escondidas e conversavam com frequĂŞncia ao telefone. A troca de postais e cartas tambĂ©m era constante, os envelopes costumavam conter versos de poemas, flores e folhas secas, pedaços de renda rasgada — lingeries? — e relatos curtos do cotidiano, os quais nĂŁo muito raramente vinham carregados de um forte apelo sexual implĂcito, dissimulado em relatos detalhados por demasia acerca de banhos demorados, trocas de roupas corriqueiras e noites quentes de verĂŁo.
Havia certa classe no modo como ela narrava a maneira com a qual gostava que Piotr a tocasse, nĂŁo havia vulgaridade alguma quando ela se dispunha a descrever seus hábitos femininos e as tĂ©cnicas usadas para satisfazĂŞ-lo e satisfazer-se. Existia, entretanto, uma falsa casualidade e despretensĂŁo no modo como ela descrevia, como se compartilhar suas práticas sexuais nĂŁo passasse de uma trivialidade tola e fĂştil, algo banal. Mas no fundo, bem no fundo, BĂłris sabia que ela o fazia para provocá-lo, para atraĂ-lo feito uma mosca Ă boca da planta carnĂvora. E ele resistiu o quanto pĂ´de, tinha tido a sua chance, em seu prĂłprio tempo, num passado distante, e havia a dispensado veementemente seja por medo, receio, culpa ou um misto dos trĂŞs. Fato era que ele nĂŁo fora forte o suficiente, e tempo depois, voltaram a encontrar-se em carne e osso, naquele quartinho apertado com cheiro de lavanda. Se fechasse os olhos naquele momento, poderia vislumbrar perfeitamente o papel de parede cor de rosa cheio de elefantes, o pequeno lustre de cristais falsos pendurado no teto, atĂ© mesmo sentir o carpete fofo embaixo dos seus pĂ©s; a seda macia dos lençóis, o dossel vermelho acima da sua cabeça, os cabelos escuros dela grudados ao suor no pescoço e a fumaça insuportável do cigarro escapando pela janela. A canção da caixinha de joias reverberava em seu âmago num loop incensante, como um disco em repetição eterna na vitrola da memĂłria.
— Dê-me isso — Piotr tomou-lhe a fotografia e enfiou-a no bolso frontal do paletó, limpando a garganta. — creio que você já tenha fotos o suficiente dela espalhadas pelas paredes do seu quarto, seu pervertido.
BĂłris encarou-o seriamente.
— Eu não sou esse tipo de pessoa.
— Eu li as cartas que vocês trocavam.
— Então só absorveu aquilo que era do seu interesse.
Permaneceram em silĂŞncio durante algum tempo encarando Ă mesa de mogno envernizada, o serviço de bordo estava demorando demais, Piotr havia pedido uma garrafa de whisky e dois copos, sequer havia se importado de perguntar Ă visita pela sua preferĂŞncia, mas BĂłris nĂŁo se importava, ele nĂŁo beberia de qualquer forma, detestava álcool, mas aquilo era um segredo. Os dedos de Piotr tamborilavam no tampo de madeira sem parar, um trovĂŁo sacudiu o aerĂłstato mais uma vez, fazendo com que as luzes do interior da cabine piscassem trĂŞs vezes antes de apagarem por completo, mergulhando a dupla numa escuridĂŁo quase palpável, nĂŁo fosse pelos relâmpagos que entravam agora em intervalos curtos atravĂ©s do cĂrculo da janela, iluminando seus rostos pálidos fantasmagoricamente.
— Porque decidiram suspender as buscas? O que houve com o seu pessoal afinal? — Piotr cortou o silêncio com a sua voz melódica, quase cantada.
— Eles dizem que são tempos estranhos, pessoas estão desaparecendo aos montes desde que as auroras deixaram os pólos e passaram a cobrir os continentes à noite, ninguém sabe o que está acontecendo, os animais estão ficando loucos e as tempestades cada vez mais fortes. Em breve não poderemos voar.
— Você poderia ter assumido dali por diante, então.
— Eu assumi. Particularmente. Estou nessa por conta própria.
No escuro, Piotr ergueu as sobrancelhas, um relâmpago iluminou seu rosto rapidamente, tempo o suficiente para que Bóris visse a surpresa estampada ali.
— Cético? — inquiriu ele — eu sinceramente não sei que tipo de homem pensa que sou.
— O tipo que troca cartas e se encontra às escondidas com mulheres comprometidas.
— Ela nunca foi sua de verdade.
Aquilo o atravessou feito uma lança, um nĂł enorme formou-se em sua garganta. Ele poderia ter explodido ali mesmo e avançado sobre o pescoço daquele homem, nĂŁo o fez, tinha a plena consciĂŞncia de que o que aquela figura pálida e magricela falava era a verdade. A mais pura e simples verdade. E aquilo doĂa como suco de limĂŁo pingando sobre um corte feito com papel no espaço entre os dedos.
— Também jamais foi sua, se quer saber.
Bóris riu baixinho, cheio de prazer, as memórias borbulhavam no escuro à sua frente, dançando entre um relâmpago e outro.
— De fato, meu caro, ela nunca foi de ninguém.
As luzes voltaram a tempo, poucos segundos antes que a porta se abrisse e o comissário de bordo vestindo colete e barrete vermelhos entrasse trazendo a garrafa e os copos numa bandeja prateada e redonda feito a lua.
— Como estão as coisas lá fora, camarada? — perguntou Piotr ao comissário — estão bravas?
— Vamos ter de fazer um pouso de emergência após as cordilheiras, sir — disse o jovenzinho ruivo demasiado alto para a sua idade — nossos catalisadores estão sobrecarregando devido à quantidade de raios que vêm nos atingindo desde que entramos na tempestade.
BĂłris deu aquele sorrisinho cĂnico de canto de boca e gargalhou, seus olhos escuros de cobra estavam brilhando de novo. Talvez aquele fosse o personagem dele, afinal.
— Parece que os céus não nos querem aqui em cima, meu chapa.
— De fato — fez Piotr — já ouvi histĂłrias de frotas inteiras atravessando os cĂ©us revoltos do oceano PacĂfico sem serem alvejados pelos deuses uma Ăşnica vez.
O jovem ruivo sorriu enquanto abria a garrafa e despejava o lĂquido âmbar nos copos de vidro dispostos diante da dupla.
— Aparentemente não estamos com sorte, sir — ele cumprimentou Piotr com um aceno de cabeça — sir — e curvou a cabeça em direção à Bóris antes de retirar-se. Havia silêncio no recinto novamente, e toda aquela atmosfera de cordialidade havia desaparecido por completo ao fechar da porta da cabine, partindo junto ao comissário sem a mesma educação que o próprio: sequer havia se despedido.
— O que ela diria se estivesse aqui, agora? — inquiriu Bóris, quase como se para si próprio, alguns instantes depois.
— Está falando sozinho? — perguntou Piotr entre um gole e outro.
— Estou imaginando o que ela estaria dizendo se estivesse aqui nesse momento.
— Com certeza estaria nos enchendo com histórias sobre deuses e outras coisas.
Bóris sorriu, saudoso, em direção à janela. Seus olhar romântico e anuviado perdido no mundo escuro lá fora.
— Esse aspecto dela em si, me fascinava. Ela parecia crer, de verdade.
— Ela tinha fé, à maneira dela, no mundo, nas pessoas. A fé que lhe faltava em si mesma, ela depositava nessas coisas, no passado, no sobrenatural, em demônios e deuses, essas coisas absurdas.
Indo contra todas as suas convicções, o detetive Bóris também virou um gole.
— O que faria alguém tão brilhante quanto ela odiar tanto a si mesma?
Piotr ponderou por um instante antes de soltar um “seu passado, talvez”.
— O passado não define homem algum, muito menos uma mulher como aquela — concluiu Bóris, empertigando a postura e levando outra vez o copo à boca. Aquela coisa ruim e amarga desceu-lhe rasgando.
— E quando ela ligava a vitrola, tirava a roupa e ia pra varanda, dançar?
BĂłris gargalhou cheio de nostalgia.
— Aquilo era fantástico…
— Ela só o fazia durante a lua cheia, você percebeu isso?
Bóris virou-se para encará-lo, repentinamente empolgado.
Piotr gargalhou e ajeitou o chapéu na cabeça. Não se lembrava de quando o havia posto de volta, mas ele estava ali, e não era o seu, na verdade. Aquele era o chapéu cáqui do detetive sentado à sua frente, ele não se importava, e aparentemente o outro também não.
— Aquela mulher era uma bruxa, disso eu tenho certeza — riu o homenzarrão — o jeito que ela cantava e cozinhava, aquilo não era normal…
— Toda mulher é uma bruxa, meu chapa, toda mulher é uma bruxa — disse Bóris, abrindo os braços sobre o encosto do assento vermelho e cruzando as pernas, encarava o teto sorrindo. — porque será que ela foi embora?
— Eu estou isento de culpa — Piotr ergueu os braços em rendição.
— Eu sei, meu chapa, eu sei. Se você houvesse sequer levantado a voz para ela, ela teria me dito.
— Ela enganou a gente direitinho — disse.
— Não diria que “enganar” é a palavra certa. Acho que omitir não é o mesmo que enganar.
— Eu nunca aceitaria uma amizade entre vocês dois.
Outro trovão sacudiu a nave de uma ponta à outra, reverberando por muito mais tempo do que o comum, distanciando-se no céu como um rasgo percorrendo o tecido lentamente. As luzes piscaram freneticamente durante o seu ribombar, mas daquela vez, no entanto, não se apagaram.
— O que havia entre vocês era muito mais do que uma amizade, entretanto. — constatou Piotr levando o copo mais uma vez aos lábios, entornando o conteúdo num único gole.
— Estava longe de ser um romance também, éramos algo complicado, sempre fomos, desde a primeira vez em que nos encontramos — ele observava ao homem encher o copo pela segunda vez.
— Você não está bebendo, detetive — resmungou.
— Eu tenho meu ritmo, seja paciente.
— De qualquer forma, tenho de admitir, você entendia ela muito melhor do que eu — e deu um gole arqueando as sobrancelhas rapidamente, dando de ombros — você tem aquela coisa do herói com cara de pateta que as mulheres gostam, o pobre cãozinho abandonado... eu vou ter que confessar que não entendia nada do que aquela garota falava, ela era complicada demais pra mim.
— Você estava por perto, tenho certeza de que bastava.
Ele estalou a lĂngua e sacudiu a cabeça em negação, encarando o conteĂşdo do copo na mĂŁo. Um mini-redemoinho havia se formado ali dentro.
— Não mesmo, pelo menos não ultimamente. Ela tinha estado infeliz e inquieta já a um bom tempo, se você quer saber.
— Ora, pode ser que não tivesse nada a ver com você.
— Não temos como saber.
— VocĂŞ falava a mesma lĂngua que ela — soluçou Piotr — tenho certeza de que ela te contou algo, ou pelo menos te deu alguma pista do que ela pretendia fazer, para onde iria se fugisse…
Bóris inclinou-se sobre a mesa e apoiou seus cotovelos na madeira, unindo as mãos em oração diante da boca, encarou aos nós brancos dos seus dedos.
— Eu procurei nas cartas, repassei mentalmente os Ăşltimos telefonemas, nĂŁo encontrei nenhuma possĂvel pista ou qualquer coisa parecida. Se ela o fez, fez sem planejar, de Ăşltima hora, decidiu que assim seria e foi.
— Que bosta de detetive que você é…. mas, bem, agora aqui estamos nós, num navio rumo à terra natal dela. — Piotr ergueu o copo. Bóris sentiu-se impelido a brindar, e o fez, para em seguida virar todo o conteúdo nos lábios, goela abaixo. Era como beber lava vulcânica diretamente do próprio manto da terra.
— Isso se chegarmos lá vivos, o que eu duvido muito. — completou.
— Acha que a tempestade derruba o navio antes do próximo porto?
BĂłris fechou os olhos e arqueou as sobrancelhas enquanto levava o copo aos lábios, havia sorvido trĂŞs ou quatro goles Ă quela altura, sua cabeça iniciava agora entĂŁo um leve balouçar, feito um berço a ser embalado por uma mĂŁo invisĂvel, indo da esquerda para a direita, de um lado para o outro, dando voltas preguiçosa, como o navio em volta. Estaria ele tonto, ou o aerĂłstato havia sido pego de supetĂŁo numa corrente de ar errante em meio Ă chuva forte? Outro trovĂŁo sacudiu o barco, Piotr segurou a garrafa com as duas mĂŁos antes que a mesma tombasse sobre a mesa, a intensidade da lâmpada acima das suas cabeças diminuiu vagarosamente e entĂŁo aumentou gradativamente para entĂŁo apagar novamente e acender logo depois.
— Isso está ficando repetitivo — resmungou Bóris levando a mão direita à testa para esfregá-la.
— Não vá vomitar na minha cabine, eu paguei caro nisso aqui. — ele havia esquecido completamente do copo, estava virando a garrafa direto do gargalo. Bóris arregalou os olhos diante da cena e sacudiu a cabeça;
— Você é inacreditável.
— E vocĂŞ Ă© um frangote — surpreendentemente, Piotr parecia sĂłbrio. Sua voz nĂŁo estava embargada, as palavras fluĂam com tranquilidade, seu pensamento aparentemente mantinha-se linear, sua postura ereta e galante era a mesma de sempre, os ombros para trás e os braços afastados das laterais do corpo, caracterĂstica de galos-de-briga como o homem parrudo que ele era. Soviete atĂ© os ossos, tinha sangue esquimĂł em alguma parte daquele corpanzil, disso BĂłris tinha certeza, aqueles olhos puxados nĂŁo negavam suas origens, apesar do maxilar demarcado e do queixo pontiagudo. Ele, por sua vez, nĂŁo passava d’um moleque magricela do campo, que passara a infância inteira chafurdando na beira de charcos e riachos em alguma paragem esquecida da ArmĂŞnia.
— Eu sinceramente não sei o que ela viu em você — completou — não sei como ela teve a coragem de deitar-se com um troço seco desses. — disse, apontando o braço fino do homem à sua frente. Bóris gargalhou.
— É a conversa, camarada, é a conversa. Uma conversa faz toda a diferença.
— Eu sei o que é uma conversa. — ele parecia profundamente ofendido agora — Eu sei muito bem, eu não sou um ignorante brutamontes quando se trata de mulheres. — ele cruzou os braços — eu sou carinhoso, eu sou engraçado, eu sei a hora de dizer a ela o quanto ela é linda. Faço tudo o que me pedir, se me ordenam a ir à lua trazer um pedaço de queijo, eu vou e trago, sem questionar.
— Isso vai além de elogiar a aparência delas — emendou Bóris — e a lua não é feita de queijo, aliás.
— Ora, e quem liga, seu detetive de merda? — Piotr deu um tapa forte na mesa e gargalhou. BĂłris absteve-se ao seu sorrisinho cĂnico e a uma sacudidela de leve da cabeça, levou entĂŁo a mĂŁo Ă boca.
— Trata-se de elogiar a mente da mulher, a cabeça, aqui Ăł — moldando uma arma de fogo com os dedos, ele levou o indicador e o mĂ©dio Ă tĂŞmpora. — elogiar a mente de uma mulher, o espĂrito dela, isso a motiva a ir alĂ©m, isso a motiva a explorar a si mesma, a conhecer-se, e de quebra ainda mostra que vocĂŞ tem algum nĂvel de profundidade. O suficiente para enxergá-la lá dentro, bem lá dentro.
— Vai dizer que eu tô mentindo?
— Você é um frangote.
— Eu falo a verdade, elogiar o espĂrito de uma mulher vai motivá-la, vai ensiná-la a amar a si mesma. VocĂŞ nĂŁo pode amá-la por ela e por vocĂŞ. Mas pode ensiná-la a se amar, se for esperto o suficiente para manipular a cabeça dela.
Piotr soprou o ar por entre os lábios apertados, fazendo voar saliva e álcool em todas as direções.
— Você é um tratante, olha como está falando! Olha pra você! — ele lhe estendeu os braços — falando em manipulação e tudo! Você é um especialista em conversa fiada, isso é o que eu te digo, você gosta de enganar uma mulher como nenhum outro homem. Um psicopata.
Bóris cruzou os braços e sacudiu a cabeça.
— Não tem conversa com você. Eu não estive enganando ninguém, eu estive tentando fazê-la enxergar-se através dos meus olhos.
— Isso Ă© impossĂvel, vocĂŞ sabe. Ela se recusa a ver o quĂŁo maravilhosa ela Ă©.
— Não repita isso para mim como se eu não o soubesse.
Fez-se silĂŞncio durante um tempo arrastado que pareceram horas, a garrafa estava quase no final quando Piotr o interrompeu.
— Como ela era quando estava com você?
BĂłris sorriu sorvendo o Ăşltimo gole do seu copo.
— Ela era… ácida? — questionou-se — sarcástica, brincalhona. Provocante e não num sentido sexual, era algo mais infantilizado, uma coisa que a gente só vê no jardim de infância, as garotas costumam desafiar os garotos nessa época, e algum tempo depois também. Elas parecem estar dispostas a testar nossos limites, a descobrir até onde somos capazes de ir. Ela estava sempre ali me cutucando de alguma forma, buscando me estimular de alguma maneira, tentando arrancar alguma coisa de mim… é claro que eu não deixava barato. Eu queria descobri-la como ninguém antes, ela permanece um mistério como nenhum outro, mesmo agora.
— A mim ela parecia muito simples, nada complicada, era uma mulher como qualquer uma outra. Doce, tinha uma alma melancólica, apesar de tudo, mas havia algo de menina por trás daquele olhar triste e distante dela. Às vezes me parecia constantemente irritadiça, era coisa dela, como você mesmo disse, talvez ela só estivesse me testando. No fundo, talvez ela estivesse tentando descobrir se aquilo valia a pena, se eu valia a pena, se seria paciente o suficiente, se eu era o homem certo. Eu nunca fui, mas ela jamais iria admitir tamanha decepção.
— Você esteve ao lado dela esse tempo todo com um sorriso enorme no rosto, não seja tão duro consigo mesmo.
— Ela foi embora, pelo amor de Deus.
— Ela era um espĂrito selvagem, nenhum de nĂłs dois seria capaz de segurá-la por muito tempo. Ela nĂŁo foi feita pra isso.
— Ela deve estar correndo livre agora, em algum lugar, longe de nós dois.
— Quase me faz desistir de tentar procurá-la — Bóris largou o copo sobre a mesa, um último trovão sacudiu a embarcação, tudo tornou-se escuro então, e de súbito estavam deitados os três; ele, o largo e musculoso Piotr e toda a beleza inebriante de Luna em curvas, pele e pêlo, seu vestido branco transparente favorito esvoaçava sobre a relva mais verde que ele havia visto e sentido sob seu corpo nu em toda a vida. Os campos de grama alta se estendiam até onde a vista alcançava, salpicados de flores brancas, e o céu acima era do anil mais puro, as poucas árvores de caule marrom escuro eram tão longas e tão finas, cujos galhos tão altos e espalmados se perdiam entre as alvas nuvens acima, unindo uma copa à outra como se segurassem o céu feito mãos erguendo-se do seio da própria terra.
Fizeram amor os trĂŞs, de uma sĂł vez, repetidas vezes, sobre aquele gramado. Perderam-se incontáveis vezes um no corpo do outro, ela os tinha a ambos na palma da mĂŁo, ela era sua senhora e eles eram seus servos, seus filhos, seus irmĂŁos, aqueles que estava jurados Ă ela para toda a eternidade. Eles gemiam e gritavam de prazer em unĂssono, juntos eram uma Ăşnica voz, uma Ăşnica alma e um Ăşnico corpo. Os cheiros, os gostos, as sensações num lugar como aquele em nada se equiparavam ao que haviam feito BĂłris e ela naquele quartinho fedendo a lavanda e cigarro, ou Ă s noites sob o luar nas varandas do luxuoso hotel Ă beira mar, no encontro corporal entre Piotr e ela.
Tudo ali vinha em triplo, tudo existia em triplo, eles estavam em trĂplice, suas mentes giravam perdidas em cores e nuances profundas, um caleidoscĂłpio, eles estavam em ĂŞxtase, seus lábios estavam sobre o corpo dela e entĂŁo sobre o corpo de Piotr e as trĂŞs bocas eram uma sĂł. Ela parecia gigante ali, tĂŁo grande quanto uma montanha, e eles estavam ambos deitados nus sobre os braços dela, perdidos em seus seios, jamais iriam deixá-la partir novamente. O jovem comissário ruivo, curiosamente, acenava do topo de uma colina ao longe, completamente nu.
Piotr e BĂłris acordaram na manhĂŁ seguinte ainda na cabine do navio, ancorados ao mastro principal do porto da primeira vila apĂłs a cordilheira. A tempestade havia perdido força durante a madrugada, de modo que os colossais condores dos alpes agora voavam em cĂrculos sobre os cumes gelados das montanhas Ă s suas costas. NĂŁo comentaram a respeito do sonho entre si, nĂŁo fora necessário, estava implĂcito como nas cartas, eles o haviam compartilhado.Â