Acordei com o coração acelerado de novo, muito acelerado, senti cada batida como se empurrasse a caixa torácica para frente e desafiasse o poder de supressão dos ossos.
Não é nada que eu já não sinta diariamente, mais um sonho onde alguém me diz que não sou nada, não sei fazer nada direito, não presto, não valho, não, não não....
Ela está presente, os hormônios estão despertando a sabotadora, a auto julgadora que existe em mim. De novo? Fuck! De novo? Vou combatê-la antes que piore. Preciso dar um basta, como quando estalam os dedos para mim e dizem: mude a energia! Pronto, estalei os dedos sob a cabeça e a queimação começou. Como controlo isso? A pressão interna parece uma bateria dentro do crânio. Dói.
Sentei em frente ao meu ojubo de Egbé e comecei a agradecer Ori, como faço todas as manhãs. Gratidão pela minha saúde, coração disparado, gratidão pela minha casa, imagem mental da bagunça e das coisas quebradas, porque estou pensando nisso agora? Foco. Gratidão pela minha cama quente, 1 cesta básica doada não é o suficiente. Preciso ir para o front, mas tenho trabalhado muito e agora vou viajar ainda mais cedo que o normal. Trabalho, contas, porque não estou ajudando mais. Os músculos começam a doer, a culpa chega personificada, é uma mão forte que agarra os nervos com força e torce tudo por dentro. Esù, me ajude a organizar a vida. Orí, imploro que aceite a sorte que você merece. Quais rituais do meu Odu eu deveria estar fazendo? Por que tantos porquês?
Por que não venci esse ciclo ainda? Porque ainda não consegui trabalhar um ponto específico e ele volta e eu finjo que está tudo bem?
Parece que ele vai embora quando estou assim, como se eu não pudesse não ser perfeita, como se eu só valesse a pena ser amada enquanto estou feliz e tendo conversas inteligentes. Parece que não sei fazer o que faço no trabalho, tudo toma proporções abismais...É tudo da minha cabeça! O coração continua acelerado, estalei os dedos mais vezes, respirei fundo, chorei, o peito doeu, preciso trabalhar, minha sobrevivência depende disso. Quem abandonou quem num passado onde eu nem existia? Física ou emocionalmente quem deixou essa sequela gravada no meu ser? Deve ser ótimo não ter essas dúvidas. Como também deve ser mil vezes pior ter as suas crises expostas publicamente ou você ter um compromisso em frente a milhares de pessoas e não conseguir se olhar no espelho porque os hormônios e a ansiedade transformam o seu rosto alegre em uma sombra escura e apagada e não há maquiagem que melhore. Eu estou aqui, te entendo, não te julgo. Devo parar de me julgar, não há tempo para isso, busco tantas soluções. No meu íntimo sei que vou vencer. Perco uma batalha, mas sei que vou vencer.
Quem passa por isso sabe, não é vitimismo, não é frescura, é um turbilhão de pensamentos e sentimentos que sugam a vitalidade e a própria alma, mesmo que momentaneamente.
Cadê meu eu? Sei que não sou assim, porque não consigo frear quando se apresenta? Me abraço, deito, faço carinho no meu Ori, levanto, preciso trabalhar. Será que magoei alguém? A sensação é que todos estão decepcionados comigo, que somente andando 10km a pé no sol que isso vai se esvair.
Porque acho que nunca vou conseguir? Sensação de estranheza, exaustão mental, mas acabei de acordar. Não quero ser um peso para ninguém. Como sumir existindo e não me arrepender depois? Melhor não fazer nada, não falar nada para não ter arrependimentos depois, mas dentro de mim tem um vulcão em erupção e não sei como fazer quando a lava atingir as minhas extremidades? O relacionamento que vivo hoje me nutre de muito amor e carinho, compreensão e sem julgamentos. Não admitiria magoá-lo. Não admitiria.
Pensamentos irracionais para um ser tão inteligente. Um paradoxo interminável, assim como o trabalho das minhas glândulas sudoríparas a temperaturas abaixo de 10ºC.
Escrever faz a ansiedade fluir pelas pontas dos dedos, sinto vontade de deitar em frente ao meu assentamento de Oxum, imagino-a acariciando meus cabelos e minha preta velha carinhosamente sorrindo para mim, ela sempre estará ao meu lado, assim como meu amor.
Agora o coração parece voltar ao ritmo dito normal e eu sigo olhando para frente sempre.