Heretics | Para 02
lionheartedhound:
Não pôde mais limitar seu próprio sorriso quando viu outro iluminar o semblante de Adelaide, aparentemente tão sincero, apenas pelo uso de seu nome. Queria acreditar em uma genuinidade intrínseca a suas interações, ao menos quando estavam a sós daquela maneira; ao menos quando já haviam compartilhado o que parecia ser tanto. O que tinha o peso de tanto. Naquele breve momento, sentia-se como uma criança a quem fora confiado um grande segredo, permitida a entrada em assuntos profanos. Sentia-se estranhamente próximo à princesa. Talvez fosse adequado que compartilhassem similar momento sob o céu noturno; a noite era a guardiã de todas as confidências, afinal. Talvez por isso, e particularmente depois de tantas revelações, tudo lhe parecesse tão íntimo. Como se fosse perigoso elevar a voz para assunto que fosse. Talvez…
Tem muito orgulho deles. Seus olhos foram de encontro ao chão, reflexivo, quase divertido. O tipo de divertimento particular trazido por um comentário sarcástico, ainda que não houvesse qualquer conotação de tanto na voz de Adelaide. Ah, se ela apenas soubesse… embora, a julgar pela maneira com que lembrava de seu tio Adrien, quiçá ela soubesse bem. – De fato tenho. São grandes inspirações – confirmou. O comentário que se seguiu levou-o a abaixar a cabeça, porém, mais uma vez se sentindo como uma criança vulnerável. – Espero que esteja certa – murmurou como uma confissão contida. Ah, se esperava! Passara tanto de sua vida almejando pelo orgulho de seu pai, de sua família de sangue, tão somente porque lhe parecia certo, indispensável. Na esperança de que aquilo lhe trouxesse qualquer legitimidade em meio a eles. No entanto, nada se comparava a sentir o orgulho de pessoas que verdadeiramente admirava. Tal eram os Ewing. Havia sempre uma sensação de recompensa intrínseca a seus elogios ou sorrisos; se eles se orgulhavam de James, era porque havia feito algo correto. Havia se tornado o homem que gostaria.
Ante o tom ávido de Adelaide, perguntou-se, enervado, se deveria haver comentado sobre Anne-Claire. Ainda tinha uma memória vívida da princesa a mirar o retrato de sua falecida mãe, com a ânsia pelo que poderia ter sido, deveria ter sido, e nunca foi. Era claramente um assunto delicado e James não queria interromper uma noite que, ele esperava, estava igualmente agradável para ela com lembranças melancólicas, ou trágicos vazios que ocupassem seu lugar. Deveria sequer continuar? – Bom… sim – reconheceu, buscando seu olhar para lhe fornecer outro cúmplice, inquisitivo. Deixaria que Adelaide escolhesse se queria ouvir mais sobre as histórias que haviam sido compartilhadas consigo; apenas esperava que ela entendesse.
Logo tornou a sorrir, porém, assentindo em confirmação. Um dia, esperava. Se conhecia o suficiente de ambas as mulheres, sabia que poderiam ter conversas deveras produtivas. Era difícil julgar quando similar encontro poderia ocorrer, visto o complicado cenário político atual. Haviam tensões, James sabia, e, como sempre, os Ewing estavam do lado errado. Não obstante, ainda eram parte da nobreza e, sem provas que pudessem justificar seu exílio ou sua marginalização, decerto compareceriam na capital para o próximo grande evento.
Seus lábios contorceram-se entre o divertimento e o amargor. – Talvez não – concedeu –, ou talvez ainda haverão pessoas corajosas o suficiente para quebrar as regras do jogo de modo a mudá-la – Refletia sobre o assunto por vezes, em seus momentos de maior inconformidade, revolta mantida calada em seu interior. Máscaras sempre haviam lhe parecido frágeis, no entanto persistiam, com construções diferentes, através da história. Gostaria de ser otimista, mas sentia que, destruídas quaisquer que fossem, outras surgiriam no lugar, talhadas em porte igualmente justo.
Uma nova troca de olhares, novamente cúmplices. Sim, a palavra cumplicidade soava-lhe agradável para aquela noite. A distância entre ambos já parecia errada, porém James ainda tinha uma clara noção de suas posições, não importava o que a cumplicidade fizesse parecer. Em um impulso, tão somente porque lhe parecia o correto a fazer, ofereceu-lhe uma contida reverência. Não lhe surpreenderia se Adelaide não houvesse acreditado em seus votos quando haviam se conhecido; ela não era uma tola alienada para não perceber que suas palavras haviam sido ensaiadas como apenas outra máscara, e mesmo James não se sentira deveras conectado a seu dever. Agora, no entanto, aquilo havia mudado, e ele esperava que Adelaide o compreendesse. E acreditasse.
Assentiu com um sorriso educado, contente em apenas saber da afeição entre dois homens de similar porte; ainda por cima dois homens com quem ambos compartilhavam vínculos de carinho. Não obstante, conteve seus comentários sobre seus desejos de que eles pudessem conversar mais uma vez, por impossível que similar evento ocorresse tão cedo. Não queria tocar em ainda outra ferida, alongar a nostalgia de Adelaide.
Não conseguiu conter uma risada abafada, algo incrédula, ante a amostra de humildade alheia. – Adelaide… muitos percorreriam enormes distâncias apenas pela honra de sua “mera” presença – lembrou-a, e falava por experiência própria. Já ouvira umas tantas demonstrações de curiosidade em torno da doce princesa e suas mãos ungidas. Sabia que tal comentário era provavelmente fruto de uma etiqueta graciosa, proposital ou instintiva, tal e qual sempre fora educada a ter, mas dispensá-la ainda parecia pertinente. Quiçá ela estivesse certa em supor que ele gostaria de mais do mundo, e quiçá fosse sincera em dizê-lo, porém James não o confirmaria daquela forma. Ainda estava inesperadamente contente em poder ter logo a companhia dela. Era, de fato, honrosa e acolhedora. E tão similar a si, como jamais ousaria deduzir. Já tão melhor de tanto do que tivera. – Mas tem razão. Devo dizer que sempre me forneceu ambos com abundância, e espero retribuir em igual medida. É uma companhia esplêndida… Adelaide.
O fantasma de um sorriso surgiu no canto dos lábios de Adelaide ante as reações de James, os pequenos gestos que, não fosse por sua recente e mútua descoberta, talvez não tivessem lugar entre os dois. Haviam sempre se tratado com cordialidade, como ditavam as normas, mas muito se dividia entre o que era apropriado e o que não era; a como nobres deviam se comportar diante daqueles que recebiam seus comandos e vice-versa. Acostumada como estava a uma fachada estoica, poder realmente observá-lo – conhecer por completo o homem que, por um acaso do destino convenientemente combinado a caprichos conservadores, fora designado a estar sempre ao seu lado – era quase como receber um presente inesperado.
“Conheço bem a sensação,” respondeu. De fato conhecia: entendia bem de grandes inspirações. Adrien havia sido uma e apresentado tantas outras. Hesitou por um momento antes de verbalizar a pergunta que lhe ocorrera, mas a noite parecia propícia para diálogos pessoais e profundos. De qualquer forma, suspeitava de que James já estava familiarizado com sua incessante curiosidade. “Tem sentido muito a falta deles? Dos Ewing, quero dizer. Não deve ter sido uma separação fácil,” arriscou. Mais uma vez, viu-se perguntando o quanto fora arrancado dele no momento em que fora designado ao posto que agora ocupava. “Talvez eu possa arranjar para que venham à corte. Tenho um baile de aniversário muito próximo,” sugeriu. Não seria difícil convencer seu pai a convidá-los: com ou sem atritos e rumores, os Ewing eram figuras de proeminência; sua presença seria especialmente significativa agora, com um acordo tão explícito entre a família real e o ducado de Westhelm. Ademais, estava quase certa de que a presença deles seria muito mais agradável ao duque de Allerton, seu tio, do que a do próprio Gregory Fairmount. Declan jamais admitiria, mas não se sentia confortável em partilhar seu espaço com outros de sua mesma posição. Deixou de divagar, porém, no momento em que James fez sua afirmação seguinte. Sorriu. “Eu não me preocuparia com isso. Sou notória pelo número de vezes em que já estive certa,” gracejou. Não era de seu costume fazer piadas – ou, ao menos, não diante da maioria das pessoas – mas supunha que não haveria problema. Duvidava de que James as julgaria inadequadas.
À resposta sobre sua mãe, assentiu levemente. Um sorriso ainda curvava seus lábios, mas parecia distante agora, perdida em pensamentos. “Sou insistente quanto a esse assunto, não sou?” indagou, um lampejo de diversão em seus olhos. “Eu nunca tive a chance de conhecê-la, então minha impressão é de que tenho tentado aproveitar todas as mínimas chances de ouvir um pouco sobre ela desde que nasci.” Comprimiu os lábios, franzindo o cenho. “Meu pai a conhecia bem, é claro. Melhor do que qualquer um. Dizem que eles eram confidentes, unha e carne um com o outro. Gosto de pensar nisso. Mas ele não fala sobre ela. Revisitar as memórias é muito doloroso.” Suspirou. Voltou a olhar James nos olhos, surpresa ao perceber que se desviara. “Se conhece histórias sobre minha mãe, eu gostaria de ouvir. É bom pensar que ela ainda vive nas memórias de outros.” Pausou por um instante, repensando sua constatação. “Mas talvez não hoje,” ponderou. “Hoje, temos muito a falar sobre o presente.” Ofereceu um sorriso cúmplice. “Temos muitos eventos enfadonhos nos quais uma distração será bem-vinda pela frente. Podemos discutir o passado então.”
Por um instante, voltou a desviar sua atenção, dessa vez mirando o céu sobre eles e as estrelas que o pontilhavam. “Deus o ouça,” desejou, em um murmúrio. “O mundo precisa de mais pessoas corajosas, quase tanto quanto precisa de mudanças.” Soar amarga foi inevitável, mas, pela primeira vez desde que se lembrava, Adelaide não se censurou por isso.
A reverência oferecida por James a atingiu com uma onda de afeição. Sabia o que estava contido naquele simples gesto; entendia os votos ali implícitos. Em face de tudo o que acontecera naquela noite, não lhe restavam dúvidas; o silêncio daqueles momentos falava mais alto do que qualquer juramento prévio. Daquela vez, havia sinceridade nas intenções dele, e não apenas o senso de obrigação. A constatação significou mais para ela do que ela podia exprimir em palavras, e, assim, não disse nada: em vez disso, limitou-se a abrir um sorriso iluminado.
“Venho me perguntando se isso não é um terrível incômodo,” observou, em uma tentativa de se distrair da sensação de calor que se instalara em seu peito e parecia se recusar a deixá-la, fazendo mais para aquecê-la do que sua capa fizera a noite toda. Sinceramente, esbravejou consigo mesma, quando vai parar de agir como uma menina boba? “Ter que fazer reverências a todo momento em público quando está comigo. Não pode ser agradável, pode?” perguntou, batendo o dedo indicador contra os lábios para forjar uma expressão pensativa.
Olhou nos olhos dele mais uma vez ao ouvir sua risada, incapaz de esconder seu próprio divertimento. Deveria ter imaginado como aquilo soaria aos ouvidos dele. “Sei disso,” confirmou, ainda lutando para se manter séria. “Mas eles viriam pela companhia da princesa. Receberiam um espetáculo. Sou muito atenciosa com meus convidados... Não que eu tenha alguma escolha,” suspirou resignadamente. “Você tem que me acompanhar por todo o dia, para todos os lugares. Não consigo manter um espetáculo por tanto tempo.” Sorriu, bem-humorada. “Inevitavelmente, você tem de lidar com a minha verdadeira face. Não deve ser nem de longe tão fácil. Ou agradável, já que tocamos no assunto,” acrescentou, risonha. “Embora, é claro, eu espere que não seja um fardo tão pesado quanto eu acabo de fazer parecer.”
O elogio subsequente, entretanto, fez suas orelhas queimarem. Deu graças aos céus por ser noite; a escuridão tornaria muito mais difícil que o guarda notasse seu enrubescimento. “Tem retribuído perfeitamente bem, James,” respondeu, no mesmo tom. Sempre enxergara nomes próprios como coisas intrinsicamente íntimas, e o fato de que ele agora podia tratá-la simplesmente por Adelaide quando estavam sós a faziam se sentir estranhamente satisfeita. Depois de tantos anos de solidão, apreciava em muito tal proximidade. “Sempre foi um perfeito cavalheiro. Fico feliz em saber que não fiz de sua estadia em Rivergate completamente desagradável.”








