Heretics | Para 02
adelaideredwater:
O fantasma de um sorriso surgiu no canto dos lábios de Adelaide ante as reações de James, os pequenos gestos que, não fosse por sua recente e mútua descoberta, talvez não tivessem lugar entre os dois. Haviam sempre se tratado com cordialidade, como ditavam as normas, mas muito se dividia entre o que era apropriado e o que não era; a como nobres deviam se comportar diante daqueles que recebiam seus comandos e vice-versa. Acostumada como estava a uma fachada estoica, poder realmente observá-lo – conhecer por completo o homem que, por um acaso do destino convenientemente combinado a caprichos conservadores, fora designado a estar sempre ao seu lado – era quase como receber um presente inesperado.
“Conheço bem a sensação,” respondeu. De fato conhecia: entendia bem de grandes inspirações. Adrien havia sido uma e apresentado tantas outras. Hesitou por um momento antes de verbalizar a pergunta que lhe ocorrera, mas a noite parecia propícia para diálogos pessoais e profundos. De qualquer forma, suspeitava de que James já estava familiarizado com sua incessante curiosidade. “Tem sentido muito a falta deles? Dos Ewing, quero dizer. Não deve ter sido uma separação fácil,” arriscou. Mais uma vez, viu-se perguntando o quanto fora arrancado dele no momento em que fora designado ao posto que agora ocupava. “Talvez eu possa arranjar para que venham à corte. Tenho um baile de aniversário muito próximo,” sugeriu. Não seria difícil convencer seu pai a convidá-los: com ou sem atritos e rumores, os Ewing eram figuras de proeminência; sua presença seria especialmente significativa agora, com um acordo tão explícito entre a família real e o ducado de Westhelm. Ademais, estava quase certa de que a presença deles seria muito mais agradável ao duque de Allerton, seu tio, do que a do próprio Gregory Fairmount. Declan jamais admitiria, mas não se sentia confortável em partilhar seu espaço com outros de sua mesma posição. Deixou de divagar, porém, no momento em que James fez sua afirmação seguinte. Sorriu. “Eu não me preocuparia com isso. Sou notória pelo número de vezes em que já estive certa,” gracejou. Não era de seu costume fazer piadas – ou, ao menos, não diante da maioria das pessoas – mas supunha que não haveria problema. Duvidava de que James as julgaria inadequadas.
À resposta sobre sua mãe, assentiu levemente. Um sorriso ainda curvava seus lábios, mas parecia distante agora, perdida em pensamentos. “Sou insistente quanto a esse assunto, não sou?” indagou, um lampejo de diversão em seus olhos. “Eu nunca tive a chance de conhecê-la, então minha impressão é de que tenho tentado aproveitar todas as mínimas chances de ouvir um pouco sobre ela desde que nasci.” Comprimiu os lábios, franzindo o cenho. “Meu pai a conhecia bem, é claro. Melhor do que qualquer um. Dizem que eles eram confidentes, unha e carne um com o outro. Gosto de pensar nisso. Mas ele não fala sobre ela. Revisitar as memórias é muito doloroso.” Suspirou. Voltou a olhar James nos olhos, surpresa ao perceber que se desviara. “Se conhece histórias sobre minha mãe, eu gostaria de ouvir. É bom pensar que ela ainda vive nas memórias de outros.” Pausou por um instante, repensando sua constatação. “Mas talvez não hoje,” ponderou. “Hoje, temos muito a falar sobre o presente.” Ofereceu um sorriso cúmplice. “Temos muitos eventos enfadonhos nos quais uma distração será bem-vinda pela frente. Podemos discutir o passado então.”
Por um instante, voltou a desviar sua atenção, dessa vez mirando o céu sobre eles e as estrelas que o pontilhavam. “Deus o ouça,” desejou, em um murmúrio. “O mundo precisa de mais pessoas corajosas, quase tanto quanto precisa de mudanças.” Soar amarga foi inevitável, mas, pela primeira vez desde que se lembrava, Adelaide não se censurou por isso.
A reverência oferecida por James a atingiu com uma onda de afeição. Sabia o que estava contido naquele simples gesto; entendia os votos ali implícitos. Em face de tudo o que acontecera naquela noite, não lhe restavam dúvidas; o silêncio daqueles momentos falava mais alto do que qualquer juramento prévio. Daquela vez, havia sinceridade nas intenções dele, e não apenas o senso de obrigação. A constatação significou mais para ela do que ela podia exprimir em palavras, e, assim, não disse nada: em vez disso, limitou-se a abrir um sorriso iluminado.
“Venho me perguntando se isso não é um terrível incômodo,” observou, em uma tentativa de se distrair da sensação de calor que se instalara em seu peito e parecia se recusar a deixá-la, fazendo mais para aquecê-la do que sua capa fizera a noite toda. Sinceramente, esbravejou consigo mesma, quando vai parar de agir como uma menina boba? “Ter que fazer reverências a todo momento em público quando está comigo. Não pode ser agradável, pode?” perguntou, batendo o dedo indicador contra os lábios para forjar uma expressão pensativa.
Olhou nos olhos dele mais uma vez ao ouvir sua risada, incapaz de esconder seu próprio divertimento. Deveria ter imaginado como aquilo soaria aos ouvidos dele. “Sei disso,” confirmou, ainda lutando para se manter séria. “Mas eles viriam pela companhia da princesa. Receberiam um espetáculo. Sou muito atenciosa com meus convidados… Não que eu tenha alguma escolha,” suspirou resignadamente. “Você tem que me acompanhar por todo o dia, para todos os lugares. Não consigo manter um espetáculo por tanto tempo.” Sorriu, bem-humorada. “Inevitavelmente, você tem de lidar com a minha verdadeira face. Não deve ser nem de longe tão fácil. Ou agradável, já que tocamos no assunto,” acrescentou, risonha. “Embora, é claro, eu espere que não seja um fardo tão pesado quanto eu acabo de fazer parecer.”
O elogio subsequente, entretanto, fez suas orelhas queimarem. Deu graças aos céus por ser noite; a escuridão tornaria muito mais difícil que o guarda notasse seu enrubescimento. “Tem retribuído perfeitamente bem, James,” respondeu, no mesmo tom. Sempre enxergara nomes próprios como coisas intrinsicamente íntimas, e o fato de que ele agora podia tratá-la simplesmente por Adelaide quando estavam sós a faziam se sentir estranhamente satisfeita. Depois de tantos anos de solidão, apreciava em muito tal proximidade. “Sempre foi um perfeito cavalheiro. Fico feliz em saber que não fiz de sua estadia em Rivergate completamente desagradável.”
“Não tenho dúvida de tanto,” assentiu com um mesmo sorriso cúmplice mais uma vez em seus lábios. Sim, como bem supusera, como bem acreditara indicar o tom com quem a mulher falava do próprio tio. Aquele contentamento teve curta vida, porém; apenas a invocação da falta de Philip e Catherine foi o suficiente para, como sal em uma ferida, trazer à tona o vazio de que tanto se esquivava em seu peito. Aprendera rápido que se afundar em autopiedade era o menos enriquecedor dos jeitos de passar os dias a sós com sua mente, e o luto pelo que deixara para trás haveria de ser apenas mais uma das facetas do sentimento. No entanto, não tinha como fugir do mesmo agora. Sentia sua falta todos os dias, como se a vida lhe sorrisse com desprezo, sarcástica e oh tão vingativa por todas as vezes que James afirmara que nada tinha a perder. Sua língua correu pelo lábio inferior; devia a Adelaide uma resposta. “Sim… sim, sinto,” concordou, sentindo-se mais vulnerável do que nunca antes em sua presença. Quiçá fosse aquela mesma vulnerabilidade de uma criança pega desprotegida que fizessem seus olhos brilharem como os de uma, arregalados, tão logo ouviu a proposta alheia. Não poderia estar falando sério… poderia? Engoliu uma expiração na tentativa de fazer a si mesmo recuperar a compostura. “É uma proposta muito gentil de sua parte, Alteza,” não conseguiu levar-se a desviar do título, oferecendo-lhe uma suave vênia. “Não posso negar que qualquer encontro similar me alegraria…,” já haviam sido tão sinceros, afinal, “... porém, por favor, não há necessidade de se incomodar com isso,” concluiu, não obstante se visse incapaz de suprimir uma faísca de esperança em seu peito. Oh, havia tanto que queria lhes dizer pessoalmente! Sabia que, em algum momento, tornaria a vê-los, como era inevitável nos jogos da corte e sua habilidade de sempre unir outra vez nomes proeminentes, apesar das profundas dissidências ou diferenciações entre as pessoas que os carregavam. O gracejo alheio bastou para arrancá-lo dos cada vez mais frequentes devaneios, então; não conteve uma leve risada divertida. Não era um lado de Adelaide com que fosse familiarizado todavia. Naquele momento, sentia-se privilegiado; ainda por cima, ela o usava para assegurá-lo! “Pois bem… não tenho provas para contestá-la; haverei de aceitar,” replicou. A bem da verdade, queria aceitar.
Meneou a cabeça, apressado em assegurá-la, não obstante não acreditasse que ela o via agora. Não podia julgá-la, tampouco, sentia, interrompê-la tão cedo. Apenas ouviu, solene, compreensivo. Como poderia julgá-la por sentir falta de uma mãe e de uma rainha? Tanto mais alguém tão respeitada e querida quanto Anne-Claire. Por um primeiro momento, e para surpresa própria, viu-se compadecendo do rei que sua mente aprendera a mirar como como uma fortaleza de valores distorcidos. Claro, deveria saber melhor: não importava o que as canções e os contos quisessem dizer, os homens não se dividiam entre o bem e o mal. Quiçá antes em amigos e inimigos, a despeito de quaisquer outras características. “Não creio que qualquer pessoa poderia culpá-la por isso. É apenas natural, não? Tem o sangue dela em você, afinal,” concluiu em uma ponderação. “Então… discordo de chamá-la de insistente.” Ainda assim, as reflexões com que Adelaide colocaria um fim ao assunto teriam-no fascinado. Por um momento, pareceu ver um relance de sua mãe de criação ali, em sua obstinação, em sua entonação. Seus pais de criação, que melhor poderiam falar à princesa sobre as memórias de Anne-Claire. Quiçá um reencontro seria benéfico a todos ali. “O presente, então?” indagou como por afirmação, intrigado. Os elogios já não vinham como bajulações educadas: “Adoraria ouvir seus pensamentos, quanto aos recortes do presente que escolha.”
Os lábios contorceram-se em não sabia o quê ante a concordância alheia, ante aquela pitada de revolta que pareceu identificar em seu tom. Uma com a qual tanto se identificava. “Acredito que compreendo o que disse sobre estar certa com frequência,” ousou brincar. “Parecem-me necessidades cada vez mais urgentes…,” mais de uma vez se perguntara se poderia ser aquela pessoa, ou se, apesar de tudo em que tanto gostaria de acreditar, não lhe faltaria coragem. No entanto, quem era ele? Um bastardo, e todos os mais capazes bem sabiam daquilo. Acreditava prudente, também, traçar a linha entre coragem e estupidez em nome de um heroísmo fútil. “Mas dizem que Deus age de maneiras misteriosas… algo em que gostaria de confiar,” buscou a mirada alheia novamente. Não seria o fato de ambos estarem ali, naquela noite, tendo similar conversa uma possível prova de tanto?
A menção de seu possível incômodo arrancou de si uma nova risada, singela e breve como uma brisa de verão. Não podia deixar de apreciar os maneirismos da mulher, amáveis como eram, mas via ali que, para além disso, ela era atenta. E atenta às necessidades dos que a cercavam, ainda que tivesse todos os motivos para não se importar com os sentimentos de James. Negou com a cabeça, então. “Não é algo a que eu esteja desabituado, não tem por que se preocupar. É um gesto fácil e natural,” assegurou-a, “e fruto de respeito genuíno, o que quiçá seja o mais importante.” Nem sempre o era, e ela deveria saber. Em mais vezes do que seria capaz de contar, reverenciava as pessoas à sua frente apenas por formalidade morosa. Já não era o mesmo com Adelaide, porém. Já não via qualquer problema em servi-la.
Tornou a ouvi-la atentamente, apenas para ter nova evidência do quão atenciosa ela era. Evidentemente, uma das grandes atrizes do reino, como lhe destinava, mesmo demandava, sua coroa. E, mesmo assim, acreditava que o rosto por detrás daquela máscara era desagradável. James não pôde deixar de rir uma vez mais, mesmo enquanto se perguntava o quanto estava desviando de sua compostura, as chances de Adelaide compreendê-lo erroneamente. “Acredito que tem a si mesma em baixa consideração, Alteza, com todo respeito,” rebateu. “Até agora sua verdadeira face não me foi mais do que aprazível e afável. Se qualquer coisa, sinto-me, em verdade, honrado por poder acessá-la,” era sincero. Todas as noites com Adelaide tinham-no, com persistência, positivamente surpreso. Aquela, em especial, apenas servira para consolidar o sentimento.
Sua mente não pôde deixar de ecoar o som de seu verdadeiro nome na voz da princesa. De Adelaide. Soava bem, acreditava; não que fosse tolo para negar o quão agradável era sua voz. Ainda assim, a sensação de intimidade vinda da voz dela, realeza, diante de quem acreditava estar condenado a ser mantido atrás de uma muralha, soava demasiado similar a esperança. Estava tomando demasiadas liberdades consigo mesmo naquela noite. “Alegra-me em saber que meus modos são de seu agrado em vez de a torturarem muito,” ofereceu com um sorriso. Não deixava de ser sincero. Ousou, então, continuar, mesmo orando em silêncio para que suas palavras não soassem ríspidas ou fossem mal-interpretadas: “Acredito sinceramente que, de todos os motivos para permanecer em Rivergate, servi-la há de ser o mais agradável deles.”












