Análise de representações de 'Capitão América: Guerra Civil' dentro do MCU
“Ai, socorro, lá vem o viado gótico reclamar com textão de novo...”
Calma, calma. Não é para tanto.
Analisar não é necessariamente reclamar. E, mais do que isso, essa análise vai explicar sua importância por si mesma, nos pontos mais evidentes.
CONTÉM SPOILERS LEVES, que estou tentando minimizar de propósito.
Assisti ao filme no último domingo e, como um todo, me diverti horrores. Mas fiquei espantado ao perceber que, em cerca de 5 minutos de sessão, o filme passou no teste de Bechdel. “Oh minha santa Visão, o que temos aqui?”
Sintetizando esse teste famoso, ele consiste em verificar, numa mídia artística qualquer (filme, livro, desenho, peça de teatro, etc) se existem duas mulheres, ambas com nomes ou identidades definidas de algum modo, que interajam uma com a outra dentro de um assunto que não sejam os personagens masculinos da história. Parece muito simples, mas poucas mídias passam por esse teste. [Mais informações sobre ele podem ser encontradas aqui: http://goo.gl/spSufp]
O filme começa com os Vingadores fazendo reconhecimento de campo em um local movimentado, com alguns deles disfarçados, onde a Feiticeira tenta entender os conceitos e métodos utilizados na espionagem, com a Viúva a ensinando mais diretamente enquanto o Capitão comanda a ação.
De tão simples, isto chega a parecer bobo, mas o filme só com esta primeira cena já passa pelo teste de Bechdel - ao contrário de todos os filmes anteriores do Universo Cinematográfico Marvel. Ou seja, em nenhum dos 12 filmes primeiros desse universo houveram duas personagens femininas relevantes que conversassem sobre qualquer coisa que não fossem homens. Isso chega a ser assustador. E por ser um fato tão incomum, acabei percebendo na hora essa quebra de padrão, e daí para frente prestei atenção redobrada no aspecto representativo do filme. E foi isto que motivou essa análise, a princípio.
Pensando no grupo dos Vingadores com o passar da linha do tempo do MCU, Viúva e Feiticeira são as únicas participantes mulheres do grupo, dentro de cerca de catorze heróis que já passaram pelo grupo (contando até o presente filme, adicionando dois casos incertos à conta). Há personagens femininas em núcleos de suporte de vários dos filmes do MCU, como a Agente Carter, Pepper Potts, Maria Hill e Jane Foster, mas todas com um já esperado menor tempo de tela do que os heróis principais.
“Guerra Civil” tem, na prática, a primeira oportunidade dentro do MCU de duas personagens femininas principais interagirem diretamente entre si numa cena que não seja de combate, e essa oportunidade é aproveitada rapidamente.
Apesar disso, a história do filme gira em torno dos personagens masculinos, que tomam liderança durante toda ela, então essa interação feminina ainda é bem pequena dentro do filme como um todo. Viúva e Feiticeira, apesar do pouco espaço para isso, provam o quanto são rainhas destruidoras na história.
Outra questão que precisa ser comentada é a sexualização dessas personagens dentro do MCU. Quem aí se lembra das poses questionáveis em que a Viúva era mostrada nos cartazes de “Vingadores”?
Se olharmos para os cartazes de todos os filmes do MCU até o momento, as personagens femininas numa grande maioria são mostradas em poses ou de guerreira sexy ou de donzela-socorro-que-o-Bowser-vai-me-capturar. Pela história que já tem dentro do universo, a Viúva foi a mais frequente vítima dessa sexualização exagerada, tanto nos cartazes quanto nas tramas em si.
Preciso conseguir o filme para assistir em casa e afirmar isto concretamente, mas tive a impressão de que essa sexualização não esteve mais tão presente em “Guerra Civil”.
Quanto à Feiticeira, ela não foi tão atingida por esse efeito durante a história, mesmo em “Vingadores: Era de Ultron”, e sua estética permaneceu trevosa como devia mesmo ser. Obrigado aos deuses por ela não usar aquele maiô coladinho dos quadrinhos - e a atriz Elizabeth Olsen concorda comigo nessa.
Mais que isso, graças ao seu poder, esta personagem representa uma força a ser reconhecida dentro do grupo, o que também ajuda a abrir espaço para sua representação na história, bem mais do que a história da Viúva conseguiu, devido às suas habilidades serem tão subestimadas. Lembro-me de quando perguntei à minha irmã mais nova sobre o que ela pensava a respeito dos filmes da Marvel, e ela respondeu não gostar, justamente pela Viúva ser mostrada como inferior aos outros Vingadores e, quando mostrada, parecia sempre estar de romance com algum dos meninos.
Desde “Era de Ultron” nós não só temos duas heroínas no time, como seu espaço neste tem aumentado e sua representação tem sido menos impregnada de romantização e sexualização. Ainda é pouco para o MCU, mas as coisas estão melhorando e em breve teremos também a Vespa e a Capitã Marvel para ajudar na destruição de vilões e de esteriótipos.
Agora… Alguém mais achou esquisito tanto o Capitão quanto o Homem de Ferro terem ganho sidekicks negros nos segundos filmes de suas respectivas trilogias? Pode até ter sido coincidência, mas Máquina de Combate e Falcão foram os primeiros personagens negros mais centrais depois de Nick Fury.
Suas funções na história continuam lineares em relação aos eventos passados desse universo: ambos agem na sombra de algum outro herói branco com maior relevância.
Ou seja, não teria havido qualquer avanço na representação negra dentro do MCU… Se não fosse pelo Pantera Negra, um dos personagens mais aclamados por sua tamanha capacidade de representação, ser introduzido no MCU com esse filme.
Apesar de não se tratar de uma história de origem para o Pantera, “Guerra Civil” apresenta um contexto onde esse personagem consegue mostrar tanto um desenvolvimento razoável como indivíduo quanto um pouco de seu potencial e espaço próprios dentro do MCU como um todo, sendo que estes serão melhor demonstrados no futuro filme próprio do personagem.
T’Challa, o Pantera Negra, é príncipe/rei e guardião de Wakanda, um país africano isolacionista - que não sofreu a colonização branca e manteve sua cultura protegida, o que contribui muito para o potencial representativo do personagem e a quantidade de questões raciais que podem ser abordadas por ele. Apesar de não ser um personagem central em “Guerra Civil” em si, o filme abriu as portas para o Pantera, sem que em qualquer momento o personagem esteja ideologicamente subordinado a algum outro personagem branco, ao contrário dos personagens negros já existentes. Resta agora aguardar o filme solo e conferir como todo esse potencial será utilizado.
Mas e quanto à diversidade de gênero e orientação sexual no filme?
Não tem, simplesmente. Todo mundo ali é hétero e cisgênero, ao menos de acordo com o que foi mostrado até o momento, afinal quase todo mundo na história já foi mostrado em algum romance heterossexual.
Deprimente, mas não surpreendente, não é mesmo?
Não há muito o que fazer além de aguardar os próximos episódios do MCU e torcer para que isso melhore.
Rumores surgiram recentemente sobre a inclusão de personagens LGBT no futuro do universo, e as reações dos fãs não foram muito positivas na média. Apesar disso, a gente continua não só torcendo para que esse quadro mude, mas tentando educar as novas gerações e dar a elas boas representações no cinema, num mundo onde todo mundo possa lutar junto para proteger o planeta.
Se o problema está na mentalidade das pessoas, a gente tenta mudar isso.
Se o problema está nos quadrinhos que têm pouco protagonista LGBT, a gente tenta mudar isso também.
E se vale a pena? Bom, vendo minha irmã tão animada ao ver a Feiticeira Escarlate poderosíssima, acho que vale, sim.














