▼ E se a gente chamasse beijo gay só de beijo?
É bem comum a gente ouvir coisas do tipo "se queremos igualdade, podemos agir de forma igual". Algumas pessoas podem perceber a problemática dessa estrutura logo agora.
Se queremos algo, podemos agir como se este algo existisse? Podemos agir como se algo já fosse real? Podemos supor que a conclusão é verdadeira para torná-la, então, de fato verdadeira? Podemos usar a conclusão como premissa? Notam que esse é o mesmo argumento usado para defender a existência do dia do orgulho hétero, do orgulho branco, da cristofobia? O mesmo argumento usado para, na verdade, fingir que as opressões sociais não existem, fingir que está tudo bem e todos nós já temos os mesmos direitos. O mesmo argumento para defender a desnecessidade de cotas. E, no fim das contas, o mesmo argumento para subestimar as necessidades de grupos sociais oprimidos. Afinal, se todos somos iguais, podemos nos tratar de forma igual e termos os mesmos direitos e deveres, não? A diferença é que essa igualdade é exatamente pelo que todos os movimentos sociais lutam. Essa igualdade é nosso objetivo, nossa meta. É o que nos falta e nos é negado. Podemos apenas dizer que somos todos iguais e a partir disso acabar com o dia da consciência negra, por exemplo? Podemos viver nos esforçando para sermos iguais, sem ter de tocar no assunto, sem ter de bater na tecla de que tem gente sofrendo? Podemos fingir, repito, que está tudo bem? Vamos mesmo convencer a grande massa de que há um problema social dessa forma? Vamos mesmo expôr a falta da igualdade atualmente agindo como se a igualdade já de fato existisse? Existem duas coisas de que em geral só pessoas oprimidas acabam ouvindo falar: visibilidade e representatividade. Visibilidade é quando você descobre que uma das suas personagens favoritas dos quadrinhos, a Lince Negra, foi interpretada no cinema por uma atriz lésbica. É quando você descobre que uma das pessoas mais fundamentais na história da computação foi uma mulher, mesmo hoje esta ciência sendo vista como algo masculino. Representatividade é quando você vê uma cantora fazendo sucesso com o mesmo corte de cabelo que você cresceu ouvindo dizerem que era um estilo feio, que tinha de todo mundo ter o cabelo liso para conquistar beleza e sucesso. Visibilidade é quando um dos seus professores favoritos, que foi tão importante na sua vida, assume-se gay, e isto não é torna nada menos incrível do que ele já era. Representatividade é quando você vê duas pessoas se beijando numa novela em horário nobre e vê seu futuro demonstrado em rede nacional. Visibilidade é algo pelo que lutamos: para sermos vistos no meio de uma sociedade que tanto nos invisibiliza. Representatividade é também algo pelo que lutamos: para termos na mídia um ícone sendo mostrado e remetendo a algo que represente você. Ambas as coisas nos empoderam, e isto vale para qualquer grupo socialmente oprimido. Nós queremos isto para atingir a real igualdade, algo que não temos ainda. Pessoas de nossos grupos são torturadas psicologicamente por não serem da classe vista como "melhor", perseguidas e mortas todos os dias. Quando se diz que um beijo gay é só um beijo, por exemplo, está-se esquecendo de todo o seu valor militante, social e empoderador. Uma personagem negra não é só uma personagem. Uma cantora gorda não é só uma cantora. A presença de uma estudante trans no IME não é só a presença de uma estudante. Se houvesse uma igualdade nos dias de hoje, um beijo gay não causaria tanto rebuliço na mídia e na sociedade. Se houvesse igualdade, um beijo gay seria só um beijo. Mas nós não a temos. E até que tudo seja encarado e respeitado como, de fato, IGUAL, não dá para brincarmos de igualdade e fingir que está tudo bem. Para cada beijo gay na mídia, mais pessoas lgbts sendo empoderadas em suas diversidades, mais gente estúpida tendo de aceitar a existência lgbt, e também mais gente enfim parando para pensar e aceitar que tais pessoas existem e suas sexualidades não as tornam menores em qualquer aspecto. A sociedade desigual é que nos encara como menores, e não nossas identidades. Até que haja igualdade, as reações sociais não serão iguais. E precisamos, sim, bater na tecla de que a sociedade lgbt existe e resiste. Não podemos tomar nosso objetivo como premissa, ou não vamos chegar a lugar algum, apenas fingindo que nada precisa ser demonstrado e conquistado. Até que haja igualdade, beijo gay vai ser visto como beijo gay e vai visibilizar, representar e empoderar gente gay. Beijo gay não é só um beijo. Queremos que um dia seja, sim. Queremos que um dia os movimentos sociais sejam apenas a nobre lembrança de uma sociedade evoluída onde todos sejam iguais e não sejam mais necessárias militâncias por tal igualdade. Mas, até lá, nós vamos continuar lutando pelo espaço que tanto nos é privado. Ah, e claro, vamos continuar nos beijando.









