sobre escrever e copos
Ir para os copos, tirando o facto de começar mais tarde na vida, tem-se revelado uma arte próxima da escrita. Há noites em que corre espetacularmente bem... Há noites em que corre espetacularmente bem e esta pode não ser uma delas. Há noites em que corre espetacularmente bem e há vezes em que acabo de gatas, a soluçar grotescamente o que trago na alma. Há noites em que corre espetacularmente bem e a banda sonora me rebenta com as veias como se escorregas do aquaparque cheios balas de paintball se tratassem e até me esqueço que passo metade do ano a mudar de estação de rádio desesperadamente, à procura de mim mesma. É de arquear as pestanas para rir, como só quem faz uma vénia à felicidade arqueia. E há noites em que a musica é mais um verbo de encher e me faz sentir que saí de casa para vir pass(e)ar mais uma noite, em vez de um dia, naquilo que a massa quer para se manter adormecida, de olhos abertos, enquanto eu preferia mil vezes estar acordada com eles fechados. Há noites em que vou para os copos e até me esqueço de os beber, mas alguém me diz que devo a mim mesma voltar a escrever, porque escrever é uma arte parecida com a própria arte em si e as mãos que se desabituam dos traços do carvão são as mesmas que perdem o rasto às palavras e dou por mim a pensar que na cozinha tanto se fala de mãos “perdidas” como se queima carvão, e não será por acaso. “Perdi a mão ao prato”. Perdi a mão à escrita. Deste-me a tua num compromisso apertado e aqui estou novamente a tentar. Perdi a mão onde mais fome se tem e, para compensar, lá vou mais uma vez ou outra dar de beber à dor. Pode ser que uma em dez corra espetacularmente bem. Nas outras dez, engulo o medo de falhar e arroto a pullitzer, como quem anuncia um caviar. E caviar disto...














