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Ekaterina Panikanova
Life in ruins, Dimitri Bourriau
Ruínas são lindas.
Como se busca novos horizontes?
Só a arte nos salva da vida.
Cartas
Sempre escrevi cartas. Quando tinha uns 10 anos recebi uma carta de uma amiga que havia se mudado para o Paraná. Ela sofreu um acidente e faleceu antes que eu pudesse responder. Provavelmente não teria respondido com um assunto grandioso e profundo, apenas como estava a escola e a família. Respondo sempre em oração, conto como vão as coisas, agradeço por ela ter me ensinado a pular elástico. Guardo todas as minhas cartas. Quem nasce em cidade pequena sabe que às vezes as pessoas vão indo embora, buscam oportunidades, mudam para estudar. Recebi e escrevi muitas cartas de amigas. Gostava de andar até os correios e, se algo acontecia no caminho, escrevia no envelope a novidade. Guardava os selos das cartas e cartões que minha tia mandava da Itália. Eram selos especiais. Quando foi minha vez de mudar de cidade, já usava e-mail. Primeiro Bol, depois Hotmail. Aos poucos descobri que eles também eram especiais. Encontrei no fundo da caixa de entrada, lá nas últimas páginas, e-mail meu para o Gustavo e dele para mim. Imprimi recentemente e foi uma alegria saber que desde 2004 já queríamos uma família. Não lembrava disso. São alegrias que somente "cartas" nos oferecem. Por isso fizemos uma forma de guardar as mensagens para a Cecília. Porque ela merece saber todo amor que recebeu quando nasceu. Ela vai conhecer o carinho que ganhou de tantos amigos nossos e que agora são amigos dela.Por isso gosto de escrever e gosto de levar flores. Para que não seja tarde. Mesmo que seja para contar as banalidades do dia, dar um feliz aniversário escrito a mão, um recado em post-it ou um arranjo com flores roubadas no caminho do almoço. Pode não haver tempo para coisas grandiosas e profundas, mas sempre haverá para a simplicidade da amizade.
Todas as estações. E s certeza que passam, sempre transformando a vida.
As vezes uma coisa banal acontece durante algo bonito. E por um instante tudo fica mais bonito.
by Brooke DiDonato
Um sonho: a internet assim.
Fly high (2017) by Luo Li Rong
Nice to see that someone is doing impressive sculpture like that done in early Italy and Greece👍
A insustentável leveza do ser
Oculus rift, Timo Kuilder
Singulares
- Quanto deu? - Dezessete e quarenta e três. - Tem certeza? Porque acho que o limão passou duas vezes. - ….uhmmm não. Não passou não. Disse após olhar a tela do caixa passando o dedo suando pela tela. Um silêncio constrangedor pairou sobre mim, enquanto o supermercado fervia de gente, mulheres gordas, crianças de cabelos mau cortados e jovens pobres como eu. Peguei a bolsa. Esta tinha um detalhe peculiar: estava amarrada com um elástico, daqueles de dinheiro em uma das alças. Havia arrebentado a costura, talvez por ser de uma dessas lojas de departamento baratas. Sempre tentava esconder empurrando para dentro do buraco da outra costura. É.. até que resolvia um pouco. Quando tivesse dinheiro iria mandar em um sapateiro. Barato. Abri e retirei a carteira. Muitos papéis e pouco dinheiro. Sabia que tinha sete reais na conta, mas não tinha muita certeza. A senhora atrás de mim deu um passo a frente tentando me apressar. - Passa cinco reais e quarenta e três no cartão de débito e o restou vou pagar no dinheiro. A caixa me olhou com cara de horror. Com certeza pensou, "essa daí é um pobretona, coitada. Nem devia vir se não tem dinheiro." Mas e daí? Eu precisar comer. - A senha por favor. - Em tom de enfado. A senha ainda era a data de nascimento da minha sobrinha. Vinte e seis do dois. Por não precisar colocar o ano na senha, até hoje não me lembro que ano ela nasceu. Aqueles segundos entre passar a senha e ter certeza que o débito foi autorizado são imensos. Daria para ler uma novela de Jorge Amado. Os dedos batem enquanto me apoio no caixa, o coração acelera... e os olhos? Os olhos não sabem o que fazer! Não sabem onde olhar, se piscar, se ficam estáticos. Uma tensão. - Passou. Agora falta doze reais. Que raiva que sinto quando erram o plural das coisas. O gênero então, nem se fala. Muito comum em quem trabalha em supermercado. "Me dê por favor trezentos gramas de presunto". "A senhora quer trezentas gramas de qual presunto?" Abri a carteira mais uma vez. A pentelha de trás deu mais um passo. Empurrou o carrinho e encostou no pé. Em seguida pediu desculpas, disse que foi sem querer. Mas sei que foi de propósito. Também faço isso para as pessoas perceberam o quanto estão devagar. Peguei os últimos dez reais daquele mês. Juntei todas as moedas para dar dois reais, incluindo seis moedas de cinco centavos. Coloquei a cenoura, o limão, a batata, o pão, trezentos gramas de presunto, o pé de brócolis, o pimentão, a rúcula, o sabonete e o bombom nas sacolas fui saindo. Sem olhar para trás. Sem ver se estavam me olhando com pena, ou raiva, com desprezo. Entendi que o provérbio "o que os olhos não vê, o coração não sente". Até sente, mas muito menos se tivesse olhado nos olhos das pessoas. Atravesso o estacionamento cheio de poças d'águas e carros que não funcionam bem. Andado apressada pela rua onde moro, fugindo de alguma coisa ou alguém que possa estar escondido entre árvores ou muros de terrenos abandonados. Abro o portão e passo sem olhar para os quartos de portas escancaradas com suas vidas expostas por prazer ou mesmo por sentir pouco valor nelas. Coloco a chave na porta e ouço o vizinho, parece que vai sair e puxar a mesma conversinha sem graça de sempre, "Como vai sua amiga? Cadê ela?" É quase uma cacofonia verdadeira. Por isso seu interesse. E não é minha amiga, para que fique claro. Mas não tenho coragem de dizer isso em voz alta. Quando alguém acredita que é nosso amigo e que somos amigos dele, fico envergonhada de dizer a verdade. Gosto mesmo de dizer a verdade quando é para falar de coisas bonitas, não tristes. Enfim chego em casa. Onze metros quadrados só meus. Guardo as compras, coloca uma fita de meditação, preparo meu lanche preferido de pão, presunto e rúcula. Depois tomo banho e vou dormir. Esse dia acabou. E tenho apenas singulares na geladeira. Rezo pela minha segurança física e lembro da caixa que pensou que eu não tinha todo o dinheiro. Ainda me restam uns dois reais na conta. Amanhã é outro dia.
Cecília está chegando.
:)
2018, clean the bullshit, start fresh.
People are Strange 03 ● Patricia . . . . . #collage #collageart #artwork #instacollage #surrealism #contemporaryart #instaart #instaartist #cutandpaste #collageartist #digitalart #collageartwork #CollageOfTheDay #artwork #surrealism #contemporaryart #cutandpaste #collagist #artcraft #collageart #vintagecollage #digitalcollage #collagesociety #collagear #contemporarycollage #C_Expo #vintagecollage #surreal #surrealism #surreal42 #collage_guild