Cyrus dava graças aos deuses por ter permanecido em Creta e, mais ainda, por ter sido avisado pelo próprio pai da saída de sua mãe. Informações quanto ao voo também e sua documentação estava em ordem, por isso não demorou muito para que o professor juntasse uma mala pequena e avistasse o tom familiar dos cabelos de Perséfone no aeroporto. Não ousou aproximar-se de início, prestava atenção nas plantas nos vasos ao redor, mas bastou embarcar para logo parar ao banco ao lado da deusa.
—- Vai ser uma viagem longa, não é, mãe? —- Ele indaga em um tom natural antes de colocar a mochila no compartimento de cima e sentar-se ao lado da outra que aparentemente não o havia notado ali antes.
Enquanto isso, entretanto, no inferno japonês, Elene finalmente encontra o kishin. Mais pálida que o normal, ela se aproxima a passos largos, mas espera até que ele termine de ser consultado quando lhe é pedido que espere. Apesar da urgência e do raro comportamento agitado, não há como argumentar ou não acatar um pedido do secretário, mesmo um feito em completo silêncio.
Compostura não dura muito, entretanto, reconhecendo o cronograma e, tendo permissão para falar, Elene é rápida em segurar o demônio que estava saindo, pedindo um momento para olhar o cronograma, aquilo não podia ser aprovado sem que antes desse a notícia que tinha ao outro.
—- Eu sinto muito mesmo pelo comportamento inesperado, Hozuki-sama… —- Papéis seguros nos braços, ela se curva perante o outro em um ângulo de 90 graus. —- Infelizmente nós recebemos a notícia de que a rainha do submundo grego se encontra a caminho e ela não está nada feliz… Deve chegar em aproximadamente 16 horas.
Hōzuki ergue a sobrancelha direita discretamente perante o comportamento incomum vindo da grega. Ele não está habituado a vê-la tão nervosa, tão fora de sua compostura natural, e isso é absolutamente claro para alguém capaz de detectar a menor distinção nos trejeitos alheios. O demônio percebe a palidez, o nervosismo desajeitado, mesmo a preocupação impressa em cada traço que desenha o rosto perfeitamente esculpido de Elene. Não há nada que lhe passe despercebido especialmente sobre ela. Voltando sua atenção inteiramente para ela, o motivo é finalmente revelado: a vinda repentina da imperatriz do inferno grego. Embora a expressão no semblante japonês permaneça a mesma - séria, calma, compenetrada -, ele imediatamente liga os pontos e compreende a importância da situação.
‘ A Imperatriz nos dará a honra de uma visita, então. ’ voz grossa cruza o silêncio da sala. Ele se vira rapidamente para o empregado com quem estivera antes negociando e faz sinal para que ele desconsidere o cronograma previamente construído. Vendo-o se distanciar, depois de cumprimentar tanto o secretário quanto a ruiva ao seu lado, Hozuki se põe ao lado dela e indica a cadeira posicionada na frente de sua mesa. Apesar da seriedade com que ele fala, Elene com certeza pode notar o tom estranhamente abrandado em suas palavras. ‘ Sente-se, vamos discutir as medidas de emergência para recebê-la. Enma Dai-O está em uma importante negociação agora e acredito que teremos de fazer isso sozinhos. Eu ficaria feliz em ouvir algumas de suas recomendações sobre como lidar com a sua madrasta. Eu pessoalmente gostaria de garantir que ela se sentisse confortável aqui. ’
Olhou para o lado e observou seu filho com cuidado, claro que ele também esteve ocupado com sua própria vida e interesses, tinha total consciência disso e que ele não era mais um pequeno bebê que ela poderia carregar no colo, encher de amor e ter o tempo todo sob sua vista, mas ainda assim sentia uma grande falta de passar mais tempo com todos eles assim: como os filhotes que poderia amar e cuidar. Mas aqui estava ele: um adulto crescido e com sua própria vida distante dela, sendo alguém a quem ela se enchia de orgulho, mas sentia uma grande saudade de ter por perto.
- Tão longa quando for preciso, meu querido. -- Respondeu a ele com um tom agridoce, feliz por ele estar ali, mas um tanto chateada pois nem seu filho lhe informou da partida de Elene. -- Nem que precise passar por tudo e todos, eu vou acha-la.