Ainda sobre bolsonaristas
Há tempos ando com vontade de comprar uma mesa de jogar xadrez, das que vêm com peças em tamanho e peso oficiais. Seria um item de decoração que me deixaria satisfeito, podendo até servir para eventual jogo com um amigo que me visitasse, embora seja difícil que eu receba alguém. Nos últimos dez anos não lembro de ninguém que tenha me visitado. Das pessoas que entraram em meu apartamento, foi para fazer algum pequeno reparo ou faxina como diarista. E só, que eu me lembre.
Existe uma loja bem pertinho daqui, a menos de cem metros, que vende esse tipo de mesa, bem como centenas de outros itens feitos principalmente em madeira, com reputação de boa qualidade.
O problema é que o dono mandou colocar uma bandeira do Brasil na porta de entrada, que está lá desde antes do 7 de setembro de 2021, para sinalizar que é um dos apoiadores obstinados de Bolsonaro. Também costuma vestir roupas com estampas militarizadas, para deixar ainda mais claro.
Caso resolva mesmo comprar a mesa, com certeza vou buscar por outro fornecedor que tenha preço e prazo de entrega razoáveis. Permanecendo, assim, no zero com meu vizinho, sem saber se o estou boicotando, ou se eu seria um cliente indesejado para seus produtos. Quem sabe as duas coisas e mais um pouco.
O que me leva a falar de um amigo dos mais antigos que tenho, ou tive. Na verdade, tenho pouquíssimos amigos, a rigor, nenhum. Mas esta é, ou foi, uma amizade longeva o suficiente para fazer frente às grandes amizades daqueles que têm muitos amigos.
Pois este amigo é outro bolsonarista.
O responsável pela duração da amizade sempre foi ele. Nos conhecemos no último ano do colégio e seria natural uma separação após o fim do curso, cada qual seguindo seu caminho para a faculdade ou para o trabalho. Mas ele continuou aparecendo em minha casa e convidando para sua casa, apesar de morarmos longe um do outro.
Fizemos muita coisa juntos. Uma delas foi transportar uma geladeira por três quilômetros usando apenas nossas bicicletas amarradas uma à outra, num trajeto que incluía uma descida íngreme, só esperando lá embaixo. A coisa esteve perto de não dar certo o tempo todo. Outra foi irmos a um baile do chopp em outra cidade, daqueles em que se bebe quanto quiser e puder, bastando ter comprado o caneco. Tomamos o porre que meu fígado de 18 anos e que o fígado dele, de 22, permitiram. E corremos sério risco de apanhar bastante ao mexer com umas moças, sendo nós uns moços de fora. Não percebi direito pela tonteira, mas acho que saímos meio que fugidos.
Uns dois anos mais tarde ele voltou para o Rio Grande do Sul, sua terra natal. Passou, então, a mandar cartas todo mês e eu, que escrevo até de graça, sempre respondi. Para se ver como a coisa é antiga: escrevíamos cartas, coisa do tempo do Ariri Pistola.
Naquele período em que morou distante, numas férias, apareceu em casa para me visitar, sem aviso, como se fosse um parente a quem se é obrigado a acolher. Mas este sempre foi o seu jeito, sempre soube se intrometer como ninguém, na vida de todos que o cercaram. O que, para alguém reservado como eu - muito mais reservado que a média das pessoas - poderia ter sido fatal em muitos momentos.
Pois bem. Durante as décadas que passaram ele acabou voltando a Quatro Trevos, ficando aqui por uns quinze anos e dois endereços diferentes, época em que começou a prosperar. Depois novamente retornou ao Rio Grande, e depois novamente retornou a Quatro Trevos, época em que começou a falir. E voltou para o Rio Grande, até agora definitivamente.
Poderia suscitar alguns momentos de sua biografia que certamente se conciliam seu bolsonarismo. Mas é algo que prefiro deixar de fazer, também tenho o que gostaria de ver omitido no dia do juízo final.
Não sei se ele acha que a Lua é plana, parece que não. Mas não aceita vacinas, acha que as eleições foram roubadas, suspeita de um plano para matar Bolsonaro. Andou conhecendo alguns novos amigos nos últimos tempos, pela internet, que pensam como ele. Por aí.
Está lá, com muito pouco dinheiro, atirando para todos os lados (felizmente não há ninguém por perto).
Por mim não consigo ver ideia que preste no compêndio bolsonarista. Se perguntarem a um bolsonarista o que é um brasileiro, sua resposta vai excluir mais de metade da população brasileira. Basta imaginar o que querem dizer quando declaram que supremo é o povo.
Mas a linha que eu traçaria no chão, que não deve ser ultrapassada, é a questão democrática. Sempre será inaceitável resolver eleição na bala, chamar as forças armadas para impor um governante, desacreditar eleições que despejaram uma caldeirada de bolsonaristas no Congresso.
Quanto ao meu velho amigo, de minha parte a amizade se encerrou no dia em que me encaminhou um vídeo do Alexandre Garcia. Se me pedisse dinheiro emprestado e nunca mais pagasse, talvez fosse jogo jogado. Mas ter enviado aquele apostema não tem perdão, nunca terá.













