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@alessandra-louise
Eu era a pedra nua sem o pudor e o temer da dor de fazer tropeçar para existir no caminho onde ia lavando com águas de lágrimas e sabão de mágoa a nódoa da indiferença. E esta é parte de mim que não conhece a linguagem, ágrafa, ininteligível, mas que me remete ao afoito desvão, que me instiga a escrever.
É a escrita da debilidade, vem do regresso aos páramos e da orfandade individual. Uma ruptura do humano no momento em que a cultura e o sentido intelectual negam tutoria e os analistas renegam a psicose catedrática.
Num momento o calor do dia é um abraço da vida, e o coração, o líder de um exército de sonhos. Tão próxima do golpe fatal sou fecundada de uma enorme energia e há uma força obstinada para um propósito natural.
Em outros, quase mesquinhos, com letras e palavras forçando ideias para uma fonética rara, à maneira de mostrar aos peixes como as minhocas se movem com o balanço das águas.
Nos últimos instantes é o ínfimo retorno, a esperança inabalável. E de todo dia vir olhar, de todo dia vir esperar, tornei a nau do reconhecimento capitã no mar da saudade, ali faço um cantinho, guardo bolos e doces, cobertas e roupas sob a neve e escondo-me no gelo da longa espera. Os mares serão descongelados antes que sua embarcação possa voltar. Então depois teremos lenha e fogo na lareira.
E se consigo abrir um sorriso sobre tudo isto, sobre toda esta minha dor... Caro sorrir. Vale por todos os de uma vida vazia.
Até vazia de dor.
Alessandra L.
Todo...
Perco um tempo olhando o que não pode ser visto
Uma teoria latina de um oceano Índico
Uma nudez de esgrima crua e tua no estilo Calvino
Perco um tempo separando o que não pode ser misto
E o tempo vem corroendo desde os pés, a pele toda
Me gastando no tempo que perco perdendo o tempo todo
E esta estrada de ti E este caminhar de mim
Perco todo o tempo caminhando... assim.
dourando o tempo
Ah... consciência, doure o tempo e faça ao molho momentos sazonais
ao alho e óleo, minutos fatiados soufflé de instantes por final
quisera perder-me nas sensações sem saber quais delas são reais
realidades são as horas que me alimentam as horas que premo nos dentes
os dias assados em manteiga com calda de noites rosé ou noites tintas
noites espumantes o que me sustém é o que sustém a vida
Ah... consciência, doure o tempo e faça ao molho momentos sazonais.
luta...
Na calmaria da normalidade veleja a consciência decisões certas, formatadas, copiadas, herdadas socialmente estiradas no estendal de roupas secas que o sol só faz secar.
E se algo quebra por um sonho, um modo, uma imersão narcotizante se desdobra a ação, a luta, o movimento destrutivo ângulos divergentes ressoam nas cordas do piano e de repente a noção do singular fato
Singular fato de existir.
No vazio o corpo cai mas ainda não é o fim até encontrar o chão o coração pulsa esperança.
a filáucia
Tentei a manhã, dormia Tentei a tarde, chovia Tentei a vida, estava vazia
Foram tantas tentativas até que o ar solidificou-se e do espelho diáfano desprendeu a epifania
Como a luz que ilumina o rosto sagrado enfim no altar da consciência a fé no vazio simbólico das coisas que eu mais temia.
linhas limites
E foi que os limites longilíneos entristeceram-me certa manhã.
Não que o estratagema da vida tinha mentido dias após dias
mas havia um querer e um falso saber
de ser e fazer as coisas mais erradas mais desencontradas.
Com o rosto partido e as costelas quebradas introduzi-me num vestido azul
e caminhando ali dentro aqueles conhecidos limites eram linhas em minhas mãos
que se esticavam contornavam teciam
um novo manto de poder.
suaves sinais...
Esta repente suavidade em minha pele não era um bom sinal o contorno dos lábios as calmas linhas tênues até aos pés...
Sedosos fios se desmancharam em cachos de dúvidas e reticências de rosas expandiram-se com o olhar oblíquo.
Eram sinais de iminente tempestade que varreria da superfície todo os resquícios de existência deixando apenas as raízes de onde não se pode saber em que direção germinariam novas esperanças.
...intenções
E agora quantos rostos traz você esta intenção sob tua respiração e o movimento inconsciente da tua mão te trai ao insuflar contra tua contenção
de tomar e ir-se de ferir e rir-se
de virar todos os mistérios de troçar dos azares sérios contar quantos vazios tem meu coração e somar a eles tua falta de atenção. Procuro oque perdi nos caracteres do tempo nas pessoas, nos atos e nas canções e teu espelho invertido vem desacelerar o momento que encontro no futuro todas as respostas que deixei no passado o meu primeiro sorriso que se ligará às minhas últimas lágrimas.
a Lua e as Flores
Semente germinada em meu sangue que confundo com solidão Formas e lugares com flores que não distingo dos sonhos Cores e sons que podem ser meus e tão misturados estamos também podem ser teus.
Se nesta noite há uma lua a luz é do sol ausente Como está presente na minha noite a luz indireta e constante E antes que não exista mais noite quando também não existirei deixe a lua ver as flores que se tornaram pálidas como sempre serei.
Tu tempo texto eu
E se espalmar minha mão nas tuas... e entrelaçar meus dedos aos teus... Posso transmitir no contato minha vida todo o peso e meu drama de existir? Porque ouço um ruído de caos entropia que existe porque me reflete mas antes de mim denominava-se tempo e comigo, dissolução da vida em frações de instantes.
Então abro minha boca e inspiro este tempo molho minha língua na liquidez dos segundos e a misturo aos instantes e tudo o que secciono para que degustado o tempo, desapareça o caos e reste uma pequena certeza de que este texto seja eu.
Medos
Os olhos trago vendados no espelho não posso ver pois o espelho não será mais espelho se eu não me reconhecer
A língua que todos praticam esta não posso exercer pois a língua deixará de ser língua se não me fazer entender
A água cristalina e suave negada estou de beber pois a água deixará de ser água se minha sede não deter
A lembrança me é apagada nunca a poderei manter pois lembrança não será mais lembrança se eu porventura esquecer
O abraço amado e apertado não espero jamais crer pois abraço não mais será abraço se não puder me aquecer
A existência que todos afirmam impossível para mim a ter pois a existência não será existência se eu acaso desaparecer
A vida que se estende no tempo não poderei desfrutar e viver pois a vida deixará de ser vida se de repente eu morrer.
Toda
Se todas as coisas do mundo estavam ali Todas as imaginações e as concepções Todas as formas e todas as existências.
Não era admissível que eu não estivesse também. Para confirmar que existo preciso achar-me nesta caixa. Porque se não me vejo, onde existo?
Na borda do vértice, na pele da minha solidão e no movimento dos meus ritos...
De viver como o sol e de noite não ser ausente Uma pequena xícara contém o chá ainda quente à noite a lua é fria à noite o chá esfria.
...sobras da consciência
O pó da minha consciência que nas noites longas acumulou-se em lençóis oníricos
Marcou a forma do meu corpo como um molde de lembranças em memórias esquecidas
O tempo não podia conter os recorrentes eventos dos sonhos contra o despertar
Então por fissuras invisíveis no ar de cada manhã destilou-se a incursão sutil
Contaminando a realidade com momentos e diálogos vindos de dimensões inexistentes
No pesadelo com raios e mudos trovões dedos delicados tentavam tatear a fronteira improvável da sanidade
E pela fenda que se abriu conhecidos olhos me fitaram curiosos reconheci aquele rosto Era o meu.
...meus quase poemas
Meus quase poemas são menos que vapor pudera, se fossem vapor se condensassem em nuvens e caminhassem por algum céu tocados por ventos solícitos.
E precipitassem em gotas de palavras formassem riacho de águas em alguma terra seca em alguma boca seca Que alguém possa beber. Água, rio, cascata, riacho coração no tacho mão de mulher caldo de chuva de se servir na colher.
Não se seque. Não se peque. Já vem o sol sorrindo à toa leite quente, pão de broa pudera, se fossem vapor para voar com quem voa com um pouquinho de vento à proa.
Ausência
As flores que se quebram nas mãos que as tomam e o tremor nas pernas pela sensação que chega o 'eu' que se desvanece no ar e se esquece a identidade que se evapora
Agora tenho algo a dizer, e isto que se forma no próprio ato que descubro ao falar a palavra é uma janela que se abre transtornada
A tela pálida do difuso desmaio permanece luz enquanto lembrada já não é nem mesmo fechada areia esvaída, desmemoriada
Agora tenho algo a dizer, a confusão pacífica de um resto de café na mesa as mãos revolvem num gesto uma despedida da vida de aceno a boca entreaberta a meio verbo condenada a sorrir ameno e ausentar-se de si.
Incerteza
Não tenho certeza se existo mas vejo meus passos marcados no caminho não sei como sou, como se parece meu rosto mas me demoro a contemplar meus olhos nas fotos e queria sugar toda a tristeza que vejo todo o desamparo e desconcertos
nunca sei sobre a minha voz se sussurro ou grito mas gostaria de gritar gritar para que alguém ouvindo me amasse apenas porque sou grito apenas porque sou pegadas no caminho apenas porque meus olhos estão tristes e desamparados nas fotos apenas porque talvez eu exista...