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A sensação que Bianca vivia agora era estranha. Nem na pior das hipóteses havia imaginado que seria assim que seu irmão descobriria do caso com Alexandre. Okay, ela entendia que o tal desfecho certamente não aconteceria da maneira ideal, com uma conversa respeitosa e civilizada, mas também não pensava que haveria aquela explosão de ofensas e tanta raiva sendo proferida de ambos os lados. Calada, Bianca se perguntava se as coisas seriam diferentes caso Natan estivesse com o emocional equilibrado, ou pelo menos, feliz. Reconhecia o erro cometido ao mencionar Manuella. Aquela jamais fora a sua intenção. No entanto, com tudo acontecendo mais rápido do que seu cérebro podia processar, as ações e falas que lhe escapavam certamente não estavam sendo filtradas pelo cérebro. Tudo parecia correr. Antes que percebesse, já havia passado mais um grito. Era torturante ver duas das pessoas que mais gostava se atacando de tal maneira, principalmente porque sabia que eles tinham tanto carinho um pelo outro quanto ela por eles. Entendia a decepção de seu irmão, mas nada justificaria as ofensas que despejava sobre Alexandre. Talvez se fossem duas pessoas distantes, aquilo não doesse tanto, mas ver que ela própria era a causa daquele embate a deixava tão cabisbaixa que sequer conseguiu aproveitar sua primeira declaração de amor. Como poderia processar o fato de que seu namorado havia acabado de admitir que a amava se o gesto estava perdido no meio da troca de farpas? Ainda com a mão entrelaçada à de Alex, Bianca o acariciou de leve, olhando para aquele encaixe em silêncio, na tentativa de acalmá-lo ao mostrar que sim, ainda estava ali, e sempre estaria. Assim que percebeu o fim do discurso explosivo, ela reergueu o olhar, cheio de lágrimas, se desvencilhou, e caminhou até seu irmão. Uma vez próxima o suficiente, buscou o encontro das orbes verdes. “Será que a gente pode conversar sobre isso depois? Só eu e você?” Pediu, com o tom de voz baixo e frágil. “Eu não quero que vocês briguem.” Admitiu, deixando os ombros caírem ao assumir uma postura reclusa. “Eu e o piá tamo nessa pra valer, Nat. Nunca foi qualquer coisa. Sabe aquele ditado que quando não der pra fugir é amor? Pois então, não deu pra fugir… A gente bem que tentou.”
Mesmo com o estrondar da voz de Alexandre pedindo para Natan parar, o homem não maneou nem um pouco o seu olhar sério para o melhor amigo enquanto ele proferia um discurso que para Natan era apenas uma desculpa na verdade sobre tudo que estava acontecendo agora. Talvez por nunca ter se casado, talvez por sim ser uma pessoa em geral calma que consegue pensar antes de tomar uma atitude por impulso - na maioria das vezes - talvez simplesmente por já ter vivido uma situação de traição de fora - por mais que também tão perto - com seus pais, ele achava que todas essas falas, as explicações eram apenas desculpa esfarrapadas de pessoas que podiam ter feito de uma maneira que tentaria machucar o mínimo as pessoas ao redor, mas por impulso ou desejo não fizeram. Mexia a cabeça negativamente - Para que? Me diga, para que? De verdade, se estava infeliz ou forçado para você, imagina para ela. Qual a dificuldade de ser honesto, Alexandre? Você pode se considerar mais homem que eu por tentar forçar ou continuar algo que não estava mais dando certo, mas ai é seu parâmetro e não o meu. - falou antes do homem voltar a falar. Natan de verdade estava cansado da impressão que as pessoas tinham sobre ele. Por mais que ele tivesse um senso de certo e errado muito grande, ele estava longe de ser perfeito, ele sempre buscava ser feliz, alcançar os seus objetivos e deixar tudo melhor para as pessoas que ele ama. Por mais que seu pai tivesse feito uma das piores coisas para ele que zelava tanto a família, Natan sempre quis a felicidade de seus pais, Natan sempre ficaria do lado da sua mãe para qualquer decisão de matrimônio que ela tivesse, ele só queria que ela continuasse feliz,e graças a Deus estão. Juntos ou separados, não muda o fato que o pai fez algo errado, impensável que poderia não ter sido feito, não tem justificativa. Mas Natan sempre soube que todas as pessoas erram, inclusive, ou principalmente, ele. Natan apenas tentava. Lógico que teve momentos que já tomou decisão que supostamente parecia certa para sua vida, mas que sofre consequências até agora. Ela não está sempre certo, ele simplesmente passa a vida toda tentando não falhar com ninguém. Natan suspirou forte, ficando sério mais uma vez - Você está certo. É sua vida e a vida de Bianca. - falou se afastando - Temos noções bem diferentes então de amizade e de irmãos. - olhou agora rápido para Bianca - Eu não pedi suas desculpas, Alexandre. Pedi que você fosse honesto e não que inventasse desculpas ou motivos, como se tornasse tudo ok. - segurou a maçaneta da porta - Mas vamos fazer como vocês, eu não dou opinião na vida de vocês e vocês não devem meter o nariz na minha. - o tom era mais ríspido no final então seus olhos foram para Bianca assim que ela falou - Não se preocupe Bianca, já está tudo falado. Felicidade para o casal. - abriu a porta e saiu fechando o escritório e caminhando de volta para qualquer lugar.
Bianca tomou a frente, mas Alexandre não relaxou a postura. Ainda estava com raiva, estressado, irritado, arrependido, com medo. Tinha um misto de emoções que, junto a adrenalina da discussão e do seu orgulho característico, não o deixava sair do estado alerta, da raiva que lhe tomava o corpo. Por isso, mesmo sentindo a dor na voz de Bianca e tentando ao máximo finalizar a discussão, ele não conseguiu ficar calado quando Natan o respondeu. - Mas eu não estou inventando... - A continuação se perdeu no seu respirar fundo quando percebeu para onde estava voltando. Seus olhos saíram do rapaz e passaram a encarar o teto, vendo que já não podia mais continuar com aquilo. Para alguém racional que tinha bastante controle, tudo que queria fazer agora era gritar, berrar até seus pulmões arderem. Por isso, Alexandre deu as costas quando Natan ainda terminava de falar, caminhando até o lado oposto de seu escritório, onde passou a encarar a parede enquanto com uma mão no rosto, tapando a boca. Mas foi somente ao ouvir a doce voz de Bianca embargada pelas lágrimas que seu coração realmente doeu. Estava cansado de causar tanta dor a ela, sentia que tudo que fazia de alguma forma estava errado. E por um mínimo segundo até pensou em desistir de tudo aquilo, dizer que já não aguentaria mais lutar uma batalha que parecia interminável e voltar a monotonia da vida infeliz que tinha antes de cometer aquele tão julgado erro. Mas a última frase da namorada lhe restaurou um pouco de paz e confiança para insistir no que ambos queriam. A batida da porta anunciando a saída de Natan fez com que o silêncio tomasse o consultório. Por alguns segundos Alexandre apenas congelou, sem saber muito bem como proceder depois de tudo aquilo. Muita coisa foi dita no auge da raiva e nunca tivera uma postura tão agressiva diante de Bianca, não sabia exatamente o que se passava na cabeça dela agora. Expulsando o medo ele se virou e caminhou apressado em direção a ela, a envolvendo num abraço na tentativa de suprir a dor causada. - Desculpa. - Seus músculos ainda estavam tensos e apoiava o queixo no topo da cabeça dela quando sussurrou a única palavra. E nem sabia ao certo pelo que pedia desculpas daquela vez. Pela raiva exacerbada, pelas lágrimas que ela acumulava nos olhos, por ter deixado a situação chegar naquele ponto ou, mais uma vez, pela mentira que iniciou tudo aquilo. Sentia-se tão errado em tudo na vida agora que pedir pelo perdão de Bianca parecia a única coisa certa a se fazer.

















