como você pode se julgar sortudo tendo alguém que os outros abandonaram?
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como você pode se julgar sortudo tendo alguém que os outros abandonaram?
tu queria ir pro mundo e eu te querendo por perto
XXIII
essa era uma metafora para dizer do seu lume singular desde quando você queria me fazer companhia em uma viagem de barco pelo hemisfério sul do oceano antes de você dizer — eu diria — "sim" para tudo, que assim viesse porque fomos prometidos desde outras vidas diante despedidas minha intenção, sempre foi dizer sim para tudo, que nos houvesse vir entao meu plano, meu verdadeiro plano minha verdadeira intenção se ao menos eu soubesse antigamente antes de tudo vir a ser chão e natureza na índole do universo poderia ter te dito antes acho que por isso o nosso fim também chegou aqui porque a gente percebeu a alma um do outro e para o universo, isso é muito perigoso tudo, desde o começo sempre foi tão perigoso mas você brilhou e eu vi uma aura de cem mil anos me chamar era como um sinal e a minha intuição me disse para ir mesmo que eu não soubesse a gente precisava fazer tudo, uma outra vez mais uma vez porque fomos enlaçados desde outras vidas e eu posso estar totalmente errado mas sempre no fim ficaria com essa sensação sempre no fim, essa luz me diria para ficar porque a gente cansou de cavar o outro para encontrar algo que a gente já sabia que existia a gente viu mas não podia sentir e por isso o nosso fim chegou nessa vida também.
XXI
o ano em que esperei ser o melhor foi também o que desejei o fim do mundo
com tudo apitando desesperança eu desbocava um sorriso por ter um amor de verdade e que duraria pra sempre caso o mundo acabasse talvez o universo estivesse sendo injusto entre julho e dezembro mas eu, jamais cederia meu lugar a outro mesmo que também fosse injusto eu senti meu coração bater enquanto o mundo desmoronava e o mundo poderia ter acabado ali pois agora, em um ano que nem sequer queria que tivesse mesmo começado só restam escombros e o mesmo desejo do ano passado mas ainda faltam, quarenta e dois dias para um fim e a mesma esperança do começo do ano.
XX
me sinto grande em uma pequena caixa quadrada
de madeira entalhada —
com um desenho de saturno e constelacões do zodíaco
com o universo adiante
nu
em uma órbita cintilante nos meus cinco pontos cardeais
sinto a vida aguda perder cor e propósito
antes mesmo de começar.
Karborn - Europe Ozymandias, 2018
Instalações Noturnas, Assuntos de Rua! lessa gustavo // makalister
quase vinte′ e dois de terapia (até o dia cinco de nov) quase dois em que achei que os dois últimos anos seriam os melhores. mas ai como quase sempre, nunca tive muita oportunidade. as que tive ou estraguei, ou perdi o horário do ônibus. ou talvez, eu que não tenha visto outras milhões. bem na minha cara. bem e a vida está ai sempre te mostrando como as coisas não são como a gente espera e há final atrás de final. como mesmo que você espere, o tempo não vai. nem quem não quer esperar, também não vai. voltei da terapia e percebi que é mais duro do que imaginava não ser compreendido ou entendido. que não é uma coisa que depende só da paciência do outro, da disposição do outro, do amor do outro. foi duro ouvir que também tenho ‘culpa’ por parte de algo que não me esforcei o suficiente pra deixar claro. e não era necessariamente sobre responsabilidade. mas do quanto eu esperei mais do que realmente fiz esforço para ter. ainda tocamos no fato de que eu finalmente estou começando a entender a minha solidão. e que talvez tenha enxergado as coisas mais bonitas do que realmente são. quando esperava ser ouvido, acolhido, compreendido da mesma forma que dei aos outros essas coisas todas. é duro se ver envelhecendo e ver que algumas coisas não mudaram. mas é talvez lá, suficientemente confortável, perceber que hoje eu tenho outras ferramentas mais eficientes pra lidar com aquilo que me fere/aflinge/me afasta. a primavera vai chegando ao fim, e não lembro muito mais das estações. sol passeia pelo meu signo. e ainda carrego comigo coisas demais que acho que preciso carregar.
ainda sigo cansado. como há um semana, um mês. dois anos
cinco de novembro de dois mil e vinte e um’
ouvindo makalister e rico, nas madrugadas em que eu me perco. onde o vapor da minha boca se confunde com o frio lá fora. levo revolta, sua raiva, cansaço e memórias que em breve serão um ep.
ainda sigo cansado. mas ngm pode dizer que não sigo tentando. com aquilo que posso dar. eu sigo cansado e tentando.
passo como linha fina por buracos de agulhas de costura
percebi há pouco que desde quando ganhei certa consciência da vida tudo o que eu quero/busco/persigo é paz. eu quero a paz mesmo no pior estado de injúria. mesmo que ao abrir a boca eu queime o mundo num incêncio ingênuo e impulsivo. eu quero a paz nos lugares inóspitos do meu ser.
eu quero a paz nos piores fins que se possa imaginar e eu sempre andei agonizando pela paz toda vez que algo acabou. não foi diferente com você e nunca mais vai ser eu só quero paz e você me aterra e me afoga no que nunca soube me dizer. você segue equilibrada no pedestal do seu ego enquanto faço julgamentos baseados no que vejo. mas não abro mão eu prefiro perseguir a minha paz em silêncio. mesmo que por dentro. a inquietação inocule os ossos. me aperte e me convide a gritar você que me vê agora não despenda sua energia comigo. eu estou morrendo em busca de paz. eu vou morrer tentando encontrar paz em algum lugar do mundo.
“Light thinks it travels faster than anything but it is wrong. No matter how fast light travels, it finds the darkness has always got there first, and is waiting for it.” Artwork by velmock on IG
uma sombra que enquanto me acolhe me mostra o contraste entre eu e você.
eu te esperei como o cachorro daquele filme em que o dono morre. todo santo dia na estação. queria saber de você o exato momento em que tudo acabou. vivem dizendo por aí que a gente sente. realmente. a gente sentiu muito e sempre. ai eu me pergunto será que o que sufocou a gente aos poucos foi isso eu só queria arrancar de você a sensação de quando acabou. eu só queria te dar a minha sensação pra você ver como mesmo com tudo o que fere. ainda foi infinitamente mais especial do que se podia imaginar.
e quando disse que te dei meu coração não foi pra fazer poesia medíocre sobre o fim depois que tudo acabasse. foi porque eu tentei de todas as maneiras te dizer tudo o que sentia. até parar de insistir e entregar tudo o que me fazia vivo naquele dia. foi quando você me deu algo maior que um coração. algo mais que sangue e palpitação. era independente de tudo e crescia corajosamente se atirando nas paredes do meu corpo. percorria veias rasgadas e solitárias como quem preenche a caneta com tinta nanquim. tudo o que você não via em si. eu percebi em mim. porque era tudo seu era tudo seu
até no dia em que tudo acabou e te esperei por dias na estação. depois comprei minha passagem e voltei pra casa. sozinho. sozinho no meu peito crescia copiosamente com medo, aquilo que você me deu. sacudia inquietamente sempre que eu lembrava de nós. me dizia exatamente o quão distante estaríamos agora, um do outro.
e eu não consegui fazer nada. eu senti tudo. enquanto o ônibus partia na direção oposta da sua.
bromélia segurou meu braço e me fez emergir do furação do centro da cidade da água suja da chuva forte naquela madrugada fui salvo e agora, o que resta de nós(?) meus ossos doem, ao te observar crescer na varanda. você um dia esteve tão perto, tão perto que quase fui engolido inteiro de tão perto, tão perto que quase foi como eu era e agora acordo e desmancho numa madrugada qualquer sem a sua presença e dói porque não consegui curar o que havia prometido curar. a cada dia me sinto menos capaz e eu passo a me tornar, o que fui para os meus pais para quem me deixou. para quem me viu no chão no centro. (em todo aquele turbilhão) com o peso do mundo nas costas eu peso as costas de quem não quer pesar no mundo é por isso que eu soo tão pesado não há poema no mundo que alivie o peso que carreguei demais por abrir o peito em pleno fim do mundo.
Gaëtan Delalande
queria parar um instante e ouvir o barulho da chuva esquecer que meu corpo é feito de matéria e matéria apodrece mesmo sem estar próximo do fim apodrece nos fins de semana nos bares de esquina no fim de tarde de um domingo no cansaço apodrece queria esquecer meu corpo e deixar a alma flutuar na intensidade do barulho da chuva '''' 'estar cansado de toda essa situação' eu também tenho estamo a muito tempo nunca me pareceu justo, mas também nunca me pareceu cruel (apenas incompreensível) as vezes parece impossivel viver sem aquilo que você sempre definiu como essencial e ainda assim se ver vivo, agora o que é realmente essencial ??? talvez tudo talvez tudo que defini como essencial mas nem tudo algumas coisas são mais necessárias que outras pensar de menos 'é uma delas o corpo, a matéria quem sabe, o que é necessário também pode atrapalhar o que você julga essencial mas sempre, sempre será necessário!