Oi, desculpa o incômodo, mas eu preciso conversar. Se bem que eu nem sei se posso chamar isso de conversar… Faz alguns dias, talvez semanas, que eu estou me sentido muito mal. No começo eu achei que ia passar, que era um sentimento qualquer, mas me enganei… No primeiro dia era só um incômodo, no segundo era apenas solidão e do terceiro em diante comecei a me fechar completamente, nada que não tivesse acontecido antes mas era diferente, intenso demais para simplesmente ser controlado. Uma semana depois não queria sair do quarto, muito menos ir á escola, só queria ficar deitada sentindo cada segundo daquele vazio que era não ter ninguém que me entendesse ou alguém para me entender. Meus pais concluíram como sempre que era frescura, nem ligavam, mas querendo ou não eu já estava acostumada com isso. Na segunda semana eu não falava quase nada, só o necessário, e ainda se falassem comigo. No colégio tudo mudou, meu único papel ali era fazer presença, poucas vezes se escutava minha voz e eu poucas vezes sorria, e quando eu sorria sentia uma dor estranha no peito, era como se eu estivesse fingindo. Mas não tinha ninguém com quem eu pudesse me abrir ou pedir ajuda, então mais uma vez acreditei que tudo era passageiro e continuei… Minha casa estava um inferno e dentro de mim estava cada vez pior. Mesmo assim eu saía do meu quarto e cumpria minhas atividades como sempre, como se eu não estivesse sentindo nada, a mesma impecável postura de sempre e mesmo assim nunca era o suficiente… A cada dia eu escutava: -“Você não faz nada!” “Prefiria morrer do que ter uma filha como você!” “Você faz tudo mal feito!” “Deixa de ser inútil!” “Sai desse quarto!” Eu não tinha resposta á dar e mais uma vez me calava. E aquela imensa tristeza que estava presa em mim batia, e eu apanhava. Só queria dormir, talvez durante horas ou talvez para sempre. Eu não podia chorar, eles julgariam até minhas lágrimas, então eu me encolhia no cantinho da cama e respirava fundo enquanto sentia a dor chegando. Sem comida, não sentia fome… E no outro dia, tudo se repetia. Foi aí que praticamente tudo o que estou sentindo começou. Me sentia aliviada quando saía de manhã cedo para a escola e durante todo o caminho eu respirava sem me preocupar com nada, eram exatos 15 minutos de uma considerável tranquilidade, e então no primeiro degrau da escada do colégio tudo voltava. Eu tirava os fones da bolsa e ligava a primeira música da playlist no último volume. Até que um dia isso não bastou, sempre alguém piorava o que eu sentia e então eu me rendi. Era impossível segurar toda aquela barra sozinha e assim que o último sinal bateu me tranquei no banheiro e chorei tudo o que eu sentia, mas depois da primeira lágrima eu não conseguia mais parar. Voltei para casa sem querer voltar e á cada passo tudo piorava, então eu percebi que aqueles 15 minutos de tranquilidade não existiam mais. Cheguei em casa chorando e como de costume fui direto pro meu quarto. Não saí de lá, tudo o que eu queria era pedir ajuda, mas não sabia pra quem pedir nem como pedir; e eu sabia onde aquele sentimento poderia me levar e eu não queria tudo aquilo de novo, apesar de toda a minha resistência, os pensamentos suicidas vieram. Foram ao todo 156 formas diferentes de me matar e a cada uma delas eu me convencia de que era a coisa certa á se fazer, mas eu conseguia controlar aquilo… e mais uma vez calei. Fernando Pessoa já disse que quem sente muito, cala. Bom, foi isso o que fiz, pelo menos até agora… eu não podia continuar ignorando tudo isso, não podia fingir que a ideia de suicídio parecia cada vez mais tentadora, e eu só estou tentando avisar que foi muito difícil aguentar até aqui e que eu não sei até quando vou suportar… Eu tentei ser forte até onde consegui e espero que entenda isso. Eu tenho feito de tudo para impedir que lágrimas rolem nos rostos das pessoas ao saber que eu não estou mais aqui. Então, antes que algo aconteça, preciso deixar claro que eu tentei, e eu não queria… só Deus sabe como eu não queria…