Há uma libélula que conhece dois mundos.
Num deles, ninguém a vê.
No outro, ela prende o céu.
Há uma espécie curiosa de ausência que não pode ser chamada de saudade.
Saudade é filha da memória.
Precisa de um rosto, de uma voz, de algum vestígio onde possa pousar.
Mas há faltas que chegam ao mundo antes da lembrança.
Não deixam imagens.
Deixam possibilidades.
Talvez seja por isso que certas ausências só adquiram tamanho quando a vida começa a nos mostrar, muito depois, aquilo que não pudemos conhecer.
O tempo tem dessas crueldades delicadas.
Primeiro ele leva.
Depois ensina o nome do que levou.
E há uma idade em que se descobre que determinadas palavras sempre tiveram um cômodo vazio dentro delas.
Pai.
Não como definição.
Como possibilidade.
Como uma palavra que poderia ter sido muito maior do que foi.
Há quem atravesse essa palavra sem sequer saber o peso que ela poderia ter tido.
Até que um dia o mundo, distraidamente, apresenta uma imagem:
um gesto de cuidado,
uma cumplicidade antiga,
uma proteção que parece existir naturalmente entre duas pessoas.
E alguma coisa se ilumina.
Não uma lembrança.
Uma hipótese.
O pensamento breve e quase absurdo de que talvez também houvesse uma versão da vida em que aquela ternura tivesse encontrado outro caminho.
Não há como sentir falta de uma memória que não existe.
Mas talvez seja possível reconhecer a forma de uma ausência quando se contempla aquilo que poderia tê-la preenchido.
É um fenômeno estranho.
O coração, às vezes, não se comove diante do passado.
Comove-se diante do possível.
Talvez algumas pessoas não carreguem dentro de si uma saudade.
Carreguem uma pergunta que o tempo nunca formulou em voz alta.
E perguntas assim não precisam de resposta.
Talvez baste deixá-las existir.
Como existem certas estrelas que já morreram
e, ainda assim, continuam chegando aos nossos olhos.
Talvez exista, além do último domingo do mundo,
um lugar onde todas as infâncias possíveis
continuem correndo umas atrás das outras,
sem nunca chegarem ao fim.
_Vinicius Carvalho










