Sou uma menina simples que gosta de saias, vestidos e de colecionar histórias... (este blog contém material não recomendado a menores de idade)
Aceito perguntas a qualquer hora
Oiee, eu sigo você tem um tempo e tem uma coisa que sempre tive vontade de perguntar! É por pura curiosidade hahah Você diz no twitter que é "trans conservadora". Você é mesmo trans ou é só uma daquelas brincadeiras de botar qualquer coisa na bio? De qualquer modo te acho muito lindinha! Bjoo
Já faz um tempo que adio escrever este texto, por motivos dos mais diversos. Quero mantê-lo curto, uma vez que não há muito o que dizer. Tenho, de vez em quando, exibido uma certa insatisfação que não conseguia expressar em palavras. Era como se estivesse limitada a um molde que não me comportava mais, enquanto meu espírito exigia alçar voos mais altos.
Sem enrolar mais, consultei com alguns amigos e decidi mudar o material aqui hospedado para o Medium, e dediquei-me, durante a semana, a migrar o conteúdo. O que foi escrito aqui continua aqui hospedado, mas novas aventuras (ou desventuras) deverão ser publicadas apenas na nova plataforma.
O endereço é https://medium.com/@asindmann. Não deixem de seguir, enviar sugestões ou seus próprios perfis para seguir de volta.
Há algo podre na sociedade brasileira, permeando diversos aspectos diferentes, como a cultura, política e educação. Nas universidades, por exemplo, os estudantes, que de lá deveriam sair como bastiões de um conhecimento avançado, são contaminados por um miasma ideológico que sutilmente molda sua visão de mundo. É ainda pior para os poucos alunos que se descobrem imunes a tal infecção: ameaçados a serem reduzidos a rótulos e estereótipos, são incapazes até mesmo de exporem essa conclusão, ficando isolados em um local que deveria aceitar e estimular a divergência.
Esse é o contexto em que surge A Corrupção da Inteligência, de Flávio Gordon. Uma obra digna de muitos méritos, cujo maior deles é algo que, provavelmente, não foi antecipado pelo próprio autor: mostrar às pessoas que elas não estão loucas em sua análise. O texto apresenta um histórico das ideias que levaram ao estado atual de decadência do processo de criação de conhecimento, um plano de longo prazo desenvolvido por Antônio Gramsci, um estudioso do marxismo. Sua ideologia chegou ao Brasil na época do regime militar e serviu como alternativa à luta armada, uma opção cujo impacto foi subestimado pelo governo da época, contribuindo para a contaminação de diversas esferas da cultura.
Após suprir ao leitor o entendimento necessário para compreender as ideias da esquerda, Gordon mostra com amplos exemplos o quanto elas degradaram a ligação do brasileiro com altas esferas do conhecimento, fazendo com que uma pessoa média não saiba que está inserida em uma tradição milenar, da qual é herdeira e contribuinte. Isolada dessa fonte, só resta a ela consumir, sem reflexão, tudo o que é regurgitado a sua frente.
A tirania das ideias se expande também de outras formas. Não se contentando em seu projeto reducionista do homem ao seu estado primitivo, a esquerda também falseia o passado com o único objetivo de alterar a visão do povo sobre si, transferindo culpas para adversários políticos, minimizando seus fracassos e glorificando suas lutas. A ferocidade com a qual o comunismo defende seu ideal de mundo pode ser visto, no livro, com a comparação entre a forma com a qual estes regimes cerceam a liberdade de seus antagonistas. Na URSS, conta o autor, escritores eram obrigados a destruir seus escritos caso discordassem do governo, sob pena de tortura e morte, enquanto no Brasil, certos jornalistas conseguiam evitar o controle de seus textos pela ditadura militar - eterno algoz de nossa intelligentsia - apenas embebedando o censor.
Os assuntos tratados por Gordon são, claro, mais diversos dos que os pincelados neste texto. São, também, temas difíceis, mas sua compreensão é facilitada devido ao estilo do autor, dono de uma escrita leve e que procura, sempre que possível, garantir que o leitor entenda o que está sendo apresentado, uma característica que, por si só, difere dos textos de esquerda comuns, que apostam no obscurantismo, apresentando conceitos ditos científicos cujo único objetivo é dar ao escritor a aparência de elucidado.
Uma das estratégias mencionadas é o uso de um sistema chamado de “marcação”, que procura exaltar características de pessoas contrárias ao establishment político para fixá-las na memória coletiva como sendo diferentes do padrão da sociedade - mas um padrão falso ditado, de cima para baixo, pelos donos do poder.
Há, claro, muitos outros debates dignos de nota, sob os quais faço apenas menções honrosas para evitar alongar este texto além do necessário. Sob as páginas de A Corrupção da Inteligência, o leitor também aprenderá aspectos de nossa história que não são profundamente estudados ou revelados - seja por descuido ou propositalmente, - como a influência da KGB na política internacional durante a guerra fria, a disseminação de estratégias de controle gramscianas no país e, talvez o mais importante, o impacto de 1.968 na esquerda cultural brasileira.
Após meio século, os eventos daquele ano, em que foi emitido o Ato Institucional nº 5, continuam a assombrar o imaginário de vários intelectuais. Apesar de parecer um exagero, isto pode ser provado ao analisar textos de grandes veículos de comunicação - como o jornal Folha de São Paulo e a revista Veja - que publicam textos relatando os eventos daquela época como se estivessem ocorrendo no momento. Esta última dedica, inclusive, uma conta de Twitter específica - curada pelo jornalista Ricardo Noblat - a reviver o período.
Claro que nem tudo é perfeito, mas os defeitos do livro são praticamente imperceptíveis frente a suas qualidades. Um deles é inerente ao próprio assunto: os textos de Gramsci são, por natureza, de difícil compreensão, com ideias frequentemente contraditórias, e mesmo alguém com a perícia de Gordon, em certos momentos, falha em transpor isso para o imaginário do homem comum, desacostumado a ler este tipo de abstratismo. Outro problema, também menor, são algumas deslizadas do próprio autor, quando procura sair do estilo de texto acadêmico e aventurar-se em uma prosa mais livre. Por não dominar esta área com a mesma maestria daquela, a qualidade da narração de histórias, como a de agentes da União Soviética, é inferior à de outros trechos.
Ainda assim, estes pontos não são suficientes para ofuscar o brilhantismo da obra, que está destinada a ser silenciada por críticos e acadêmicos através de uma estratégia já antecipada pelo próprio autor. De fato, a busca por material complementar para escrever este texto resultou em poucas resenhas em veículos de alcance nacional, apesar dos mais de seis meses passados desde seu lançamento.
Isto não significa, por outro lado, que o livro seja dispensável. Pelo contrário, é uma leitura obrigatória, que disseca a decadência moral e cultural brasileira, permitindo entender o momento atual com clareza o suficiente para que seja possível começar a superá-lo.
Aconteceu que eu, há anos, entediada com uma aula noturna cuja cadeira e professor me escapam à mente (o que significa que não mereceriam serem mencionados aqui, caso o contrário fosse verdade), fugi e embarquei em um ônibus que me levaria do campus até o conforto do lar. O pensamento, embalado ao observar as luzes de carros, prédios, e postes ao longo da estrada, pôs-se a pensar assuntos cotidianos, ou mesmo a fantasiar histórias que jamais aconteceriam. Não importa. Distraída, não percebi, de imediato, um jovem casal sentado em minha frente.
Eram um menino e uma menina. Deviam ter seus 13 ou 14 anos. Falavam de coisas relacionadas ao seu cotidiano, como trabalhos de escola em comum ou eventos de seus seriados favoritos. Não prestei atenção nesta parte da conversa. Suas palavras alcançavam aos meus ouvidos como uma melodia natural do ser humano enquanto se comunica com um semelhante. Desviei meu foco a eles somente quando o ritmo mudou drasticamente. Foi uma reação natural, tratando-se daquele assunto.
O tempo apagou da memória as palavras exatas proferidas naquele momento e a transcrição a seguir, se peca por sua imprecisão, prometo, é fiel ao seu espírito:
- Há algo que desejo falar-lhe, disse o menino, em um tom de voz diferente do empregado até aquele instante.
- Pois diga.
- Não sei se devo.
- Já tocaste no assunto. Não o evite.
- Me faltam as palavras corretas.
- Use as erradas.
- Então. Não sei se já percebeste, mas nutro por ti sentimentos.
- Não o entendo.
- Amo-te!
- Pois eu não. Tenho por ti o carinho de um amigo, e nada mais.
Seguiu-se neste momento um rápido silêncio, não entre as pessoas, mas no próprio ambiente. Ouviram-o somente aqueles que já estiveram no lugar do pobre menino, e correspondia ao som de seu jovem coração, inseguro ao velejar nos mares da primeira paixão, a partir-se. E não há homem, mulher, menino ou menina imunes a essa decepção.
Sua companheira de banco, em seguida, disse que estava na hora de descer, puxou o cordão do ônibus e foi-se embora. Ao levantar-se, pensei ter visto nela a figura de uma conhecida (enganava-me) e cogitei a possibilidade de persegui-la, interpelá-la e perguntar-lhe as mais diversas questões. Não me interessava intervir em favor do rejeitado, apenas saciar a curiosidade sobre os fatores que a levavam a desprezar sua declaração. Havia nele algum defeito mortal que o tornava impróprio aos olhos dela? Estava seu próprio coração ocupado com amores a outro jovem? Ou era apenas falta de interesse, um motivo tão válido quanto qualquer outro, que a levaram a tal ação?
Desisti da ideia ao ver, em minha frente, uma oportunidade única de observar o Homem em sua reação natural de ver seu coração despedaçando e ter que juntar os cacos para que, com sorte, um dia se colem. Só atentei ao seu semblante de preocupação se transfigurar em mais profunda amargura. Agora sozinho em seu banco, abriu as pernas e apoiou nela os braço, olhando fixo para um nada qualquer no chão. Mal piscava, tampouco se mexia.
Uma parte minha quis acudi-lo, renovar suas esperanças, proferir palavras de alegria. Julguei impróprio. Há momentos em que a pessoa deve contar apenas consigo mesma para organizar-se e seguir em frente. E ele, que já descera ao fundo do poço, tinha como única opção escalar de volta à superfície.
Por coincidência, descemos no mesmo ponto e caminhamos pelas mesmas ruas por uns minutos. Andava alguns metros atrás dele, sempre observando seu caminhar irregular, a cabeça sempre baixa. Duas ou três vezes ensaiou uma corrida, como se tivesse sido tomado por uma raiva súbita e a única forma de expurgá-la fosse batendo com os pés na calçada.
Não falei com ele, mas me prontifiquei a ajudá-lo caso precisasse. Quero acreditar que, naqueles menos de cinco minutos, fui seu anjo da guarda, embora, muito provavelmente, minha existência passou despercebida e ele sequer me notou a acompanhá-lo.
Esta história poderia terminar aqui, mas a empatia é uma das qualidades do homem e lembrar deste caso me trás outro à margem da memória. O mesmo havia acontecido comigo anos antes. Apaixonada por alguém que não me queria, hesitei em me declarar, mesmo certa da rejeição, prolongando uma dor no espírito de simples solução em tempos modernos. Acontece que liberar a alma deste peso na consciência significava preparar o coração para novos altos e baixos na montanha russa do amor e, para mim, a rápida alteração de estado emocional era, na época, um destino pior que o espinho de uma fantasia irrealizável cravado no peito.
Uma noite, tomada pela agonia, não aguentei mais o peso de tal segredo e confessei-lhe a única pessoa que poderia dar um fim a ele. O que se seguiu é aquilo que o leitor, pelo tema discorrido até o momento, já pode antever. A mensagem foi entregue através de um aplicativo, o que é um bom método para quem não tem esperanças de um final feliz. Já para quem espera ter seus sentimentos aceitos, o recomendável é assumi-los pessoalmente, para seguir imediatamente ao beijo prometido, já que nada é mais angustiante que um amor mútuo que se adia indefinidamente.
Olvidei a resposta exata ao meu pleito. Lembro apenas que não chorei. Saí à varanda e deitei-me no chão. Era uma noite quente e de céu limpo de verão. Estava sozinha, salvo a companhia das estrelas. Olhei para a lua, cheia, e perguntei-a quantas pessoas, assim como eu, já haviam pedido sua atenção para contar suas mágoas de amor. O satélite, impassível, até hoje me deve uma resposta.
A dor daquela noite não sinto mais. Não sei se foi curada pelo tempo ou tornou-se tão presente que a única forma de suportar foi escondê-la nas profundezas do coração. Talvez tenha se tornado obsoleta, já que assim como ela sucedeu a outras, novas surgiram depois. Se o coração partido volta a sua forma original, não sei, mas nada há mais universal que esse sentimento.
A tormenta em meu coração naquela noite, portanto, não era só minha e sim de todas as pessoas que já a sofreram desde o princípio da história humana e que foi meu destino devolver à natureza para que muitos, depois de mim, também saboreiem de tal amargura.
Como o menino do ônibus. E a menina que o rejeitou.
Existem vários relatos de casos em que uma pessoa se encontra fulminada por um sentimento inesperado. Esse é só mais um deles e não tem nada de especial. Mas é meu e só meu. Começou em uma noite qualquer. Estava quente, apesar da forte chuva lá fora. Eu, pra variar, estava sentada no meu canto, me esforçando o máximo possível para que todos os olhos da sala não pensassem que era a mais estranha entre todos, embora eu soubesse que aqueles pares me olhavam com curiosidade e minha presença, por motivos irrelevantes, destoava do ambiente.
Um daqueles pares era seu. Não foi a primeira vez que nossos olhos se cruzaram. Isto ocorreu semanas antes, em outra cidade, outra caverna, outra história. Basta dizer que você tinha uma expressão de susto e queria estar naquela situação tanto quanto eu. Quando se foi, acreditei - juro - que não te veria de novo.
Mas lá estava eu, acuada em um canto, quando você, sem cerimônias, se aproximou. E o que vi, dessa vez, foi completamente diferente. Havia curiosidade na sua expressão. E os leves movimentos de sua boca, quando começou a me fazer tantas perguntas, foram pouco a pouco me cativando. Foi mais ou menos nesse momento que percebi que eu também queria conversar com você, saber dos seus gostos, desgostos, prazeres e interesses.
Nos despedimos logo, mas esse estranho ritual se repetiu por mais dois ou três dias. E, mesmo quando eu achava que precisava fugir de tudo aquilo, você me perseguia por salas quartos e varandas. Por várias vezes tive a vontade de te encher de beijos e, confesso, houve momentos em que quase cedi.
Faz, suponho, pouco mais de dois dias que não te vejo. Nossa despedida foi simples, porém cruel para um coração despreparado. Uma parte minha queria te agarrar e fugir daquele local, enquanto a outra lutava, em vão, para encontrar motivos racionais para não fazê-lo. Em poucas horas, a distância entre nós aumentava e minha companhia voltou a ser a dor da separação - velha companheira - cuja presença há muito me iludia.
Por outro lado, não ache que isso seja uma aventura triste. Sempre vejo nossas fotos juntos e sorrio, contando os dias para nosso próximo encontro. Essa não é a nota de um fim melancólico e sim o prólogo de uma convivência feliz.
Todas essas histórias são reais? Tem quantos anos? Mora aonde?
A maior parte, em essência, sim, com detalhes diferentes por conveniência da narrativa.Por outro lado, existem umas poucas que são ficção pura. Acho que essas são fáceis de identificar pela temática.
Há dias em que me sinto animada. Acordo, tomo um banho e me visto. Enquanto me maquio, vejo Amanda no espelho. Seus olhos intensos, atentos a meus movimentos, parecem me estudar por completo, em busca de algo que não sei explicar. Também sucumbo à tentação.
A Amanda no espelho pode parecer comigo, mas há algo de diferente nela. Seu sorriso parece ser mais autêntico, o cabelo é sempre perfeito e as mesmas roupas a vestem melhor. A mesma Amanda desfila pelas ruas sem sentir-se constrangida pelo cumprimento da saia, pelo contrário, até sente-se ousada por isso.
Não que essa Amanda não possua problemas parecidos com os meus, mas ela é capaz de resolvê-los com facilidade ou, no mínimo, torná-los pequenos e insignificantes. Confesso: em momentos de fraqueza, tentei abraçar a Amanda no espelho, mas suas mãos certeiras e frias seguram as minhas. Concede-me, então, um único favor de confessá-la um segredo. Aproximo a boca de seus ouvidos inalcançáveis e sussurro:
- Eu queria ser você.
Procuro outra vez seus olhos, refletindo a minha solidão. Ela me vê por completo e sabe todos os meus segredos e dúvidas. Pergunto se me julga e seu semblante, impassível, não me responde. Nos despedimos em seguida.
Mais tarde, perdida em meio à rua, sopra por mim um vento ascendente. Congela meus braços desnudos e obriga-me a parar e segurar o vestido para proteger minhas vergonhas, mas ninguém ao redor parece se importar. Penso na Amanda do espelho e se ela sorriria neste momento. Afinal, quem é Amanda? De que aromas, gostos e cores gosta? De que tipo de piadas ri? Como serão seus amigos e amores? Serão suas respostas a estas perguntas iguais às minhas ou será ela uma pessoa completamente diferente?
O vento se vai sem me dar respostas. Livre de suas amarras invisíveis, volto a caminhar sem rumo. Em algum lugar, a Amanda do espelho faz o mesmo. Sem saber quando nos encontraremos de novo, apenas torço para que quando nossos caminhos novamente se cruzarem, possa olhar com orgulho em seus olhos e ver que finalmente sou madura o suficiente para merecê-la como reflexo.
Uma vez, sonhei e em meu sonho estava reunida toda a verdade da existência. Tal conhecimento era suficiente para enlouquecer qualquer mortal, mas eu, contida por limitações humanas, acordei sem aprender nada sobre a realidade do cosmos.
Passaram anos e levaram com eles novas experiências e sentimentos. Foram-se felicidades e tristezas, alegrias e decepções. Certezas tornam-se dúvidas. A revelação organiza-se, ainda que pouco, e a solução do mistério da vida, ainda que oculto, começa a ganhar forma.
Anoitece. Tranco-me em casa e saio; vestido cada vez mais curto e noites cada vez mais longas. Verto copos, acompanhada apenas por Laquese. Homens revezam-se na mesa: meu castigo é dispensar os bons e acompanhar os maus. Arrependo-me e retorno, não à alcova onde me espero ansiosa e sim ao bar vizinho onde me afogo, outra vez, em solidão.
- Que destino cruel me teces, velha!, clamo. Ao meu lado, ela sorri. Estende a mão e coloca o olho em minha face. Sádico, perfura os meus e fala não com meu corpo e sim com o espírito.
- Conspiraste o caminho desejado a Cloto. A mim cabe apenas vigiar o fio tecido. Não nego, confesso, sentir por ti irônico contentamento, igual ao de outros tolos, afogados em destruição silenciosa. Vê, ao teu redor, a degradação dos homens. Mas não pensa em escapar, apenas entrega-te ao pior deles, jurando que a mácula transferida parte não deles. São vítimas todos, mas só a ti cabe a culpa do crime. Eles, ao deitar contigo se elevam, só tu te rebaixas.
É inútil. Afogada estou em beijos alheios, entorpecida pelo álcool de minha miséria. Findada a tortura auto imposta, acordada em cama estranha, choro a vergonha da desonra.
- Só te rebaixas!, lembra Laquese ao meu lado. Vê-me correr e abandonar meu parceiro efêmero, de cujo rosto e carinhos menosprezo. Chegada a noite, bem sabe, tornarei a procurar braços iguais aos seus na próxima vítima do meu abandono.
Em minha alcova não me espero. Tonta, dou-me conta outra vez que fugir de mim é inútil, ainda assim encurto a saia e maquio a dor refletida no espelho.
Alguém bate à porta da alma. É Átropo.
- Vem, é chegada tua hora.
Assustam-me o olho impaciente, agarrado por dedos enrugados e unhas grossas. Sua voz expressa a impaciência de uma mãe carinhosa, porém rígida. Fecho a porta, e lamento ao chão gelado o medo de deixar-me para trás. A escuridão conforta e o desconhecido apavora.
A noite longa é dado da natureza e mesmo o solstício de inverno promete um novo amanhecer ao se acabar.
Começo pedindo perdão pois abrirei com uma tautologia: há amigos e amigos. Cada um é importante de seu próprio jeito e sempre há a chance de que eles nos surpreendam com novas facetas de suas personalidades que aprofundam ainda mais o sentimento de bem estar comum que nos une.
Tive, recentemente, um momento desses. A pessoa já conhecia há anos. Parceiro de festas e jantares, companheiro para brincadeiras. Há anos não conversávamos, exceto em ofensas falsas em grupos de aplicativos. Retornou à cidade para o final do ano e uma noite, sentiu-se sozinho e precisando de companhia. Algum acaso do destino fez com que todos os seus amigos mais íntimos estivessem indisponíveis e chegou a mim o seu apelo. Visto estar em situação semelhante, nossos desejos convergiram e, em pouco tempo, estávamos sentados em um bar, lembrando histórias antigas e contando as novas.
Ele vestia uma camisa polo salmão e calças bege, eu uma mini saia jeans e blusa de alça preta. Achei nas indumentárias um estranho contraste. As dele, mais sérias, não combinavam de jeito algum com seu jeito espalhafatoso e gestos largos. Anos atrás, em reunião semelhante, atingiu, sem querer a bandeja de um garçom, derrubando nele uma garrafa de cerveja e dois copos de vodka. Levantou-se, desajeitado e envergonhado pelo incidente, ajudando a vítima, que ainda assim ficou cheirando a álcool. Abastado, levou-o para o banheiro para limpá-lo, sem pensar no significado do gesto. Meses depois, em outra reunião, admitiu:
- Ficamos!
Esse caso, aliás, merece seu próprio conto, só o menciono como exemplo do temperamento deste meu amigo, tão diferente do meu, que me mantia quase imóvel, com as pernas e braços à mostra, porém fechados, fazendo o mínimo possível de movimentos afim de não chamar a atenção de ninguém.
- Larguemo-nos daqui, disse, ao mesmo tempo em que levantava, usando termos mais coloquiais dos que gosto de usar em meus textos. Não atingiu ninguém dessa vez.
Pois, larguemo-nos e, em poucos minutos, estávamos em um bairro longe dali. Era, anos atrás, um descampado no qual nos reunimos várias vezes durante as madrugadas para ficarmos a sós com nossas loucuras. Agora, havia uma cidade inteira no terreno e ninguém mais sabia se quem havia morrido primeiro era nosso salão de festas particular ou nosso interesse nele. Uma parte havia se transformado em uma pequena praça, com iluminação parca. Ninguém frequentava o local à noite porque as árvores das ruas perimetrais nunca foram derrubadas, dando a ele um aspecto sinistro. Ficamos a sós em nossas memórias do local, jogados no chão em um pequeno elevado.
- Sabe?
- Diz.
- Eu tenho, aqui na minha cabeça, uma espécie de lista. Não sei dizer quando começou, mas eu lembro de sempre ter ela. E nessa lista anoto nomes de pessoas. Eu a chamo de “lista do apocalipse”, porque é nela que ponho as pessoas com quem eu gostaria de tomar um café antes do fim do mundo. E eu queria que você soubesse que desde o início você está nela.
Havia em seu tom de voz algo doce e terno, ausente até o momento. Confesso que ri da declaração, pois achei que todo o contexto em que estávamos e a escolha das palavras faria daquela a situação ideal para transformar esta história em um início de romance. O único problema eram exatamente as pessoas envolvidas, que não sentiam, um pelo outro, a mínima atração física.
A tal lista do apocalipse, no final das contas, era uma ideia que eu também tinha, dissolvida entre tantas outras, dentro de mim. Tratamos a concretizá-la e, em pouco tempo, criamos uma terceira, composta, justamente, de quem figurava ao mesmo tempo em ambas as outras.
Não foi a única revelação da noite e esta, admito, parece tola. E já explico o motivo. Disse-me que sentia um gozo ímpar ao ler, em livros, passagens de alta qualidade. Você sabe, aquela sopa de palavras certas no lugar certo. Para mim, a manifestação ressoou com um daqueles segredos que trazemos no fundo do peito e que insistem em encontrar alguém que também os sinta, apenas para decepcionar-se mais do que não, até chegar ao ponto em que desiste e contenta-se em viver sozinho na obscuridade do coração, agarrando-se à esperança de um dia ser encontrado por profissão semelhante e que ainda não desencantou por completo.
Não respondi com palavras, apenas ouvi, depois, que naquele momento meus olhos pareciam “brilhar mais que os postes de luz”. Eu havia encontrado, naquele momento, um irmão na aventura do descobrimento, a grande jornada em busca do desconhecido que, de certa forma, é o objetivo de todo ser humano.
A pequena moral desta história, se é que dá pra chamar assim, é outra tautologia. Nunca sabemos quando uma pessoa que já conhecemos pode vir a se tornar nosso melhor amigo, muito menos que desejaríamos vê-la para tomar um café antes do fim do mundo e discutir, com o coração na mão, sobre nossas poesias favoritas. E se você tem alguém assim, não precisa de mais nada na vida.
As mãos circulam. Eu estou aqui, em pé, olhar fixo para a porta. O suor desbrava o rosto, inaugurando uma trilha na maquiagem recém-aplicada. O coração acelerado não deixa escapar a ansiedade das horas e uma espera infinita. Oh, se eu pudesse encurtar o tempo para que chegasse logo!
Cerro-me os olhos em vã esperança de ouvir teus passos, mas há apenas o silêncio. O instante, fotográfico, é interrompido por um desejo: grito para que apareças, me leves embora, me faças feliz mais uma vez. Mas a voz que tenta sair não consegue, bloqueada pela garganta, ofegante de medo que seja escutada por alguém que não seja tu.
A cadência dos ponteiros parece acelerar, mas os segundos continuam segundos. Passam-se horas sem que eles se movam. As mãos se tornam um rio, desaguando nervosas nas dobras da saia. Até as nuvens, que tudo veem, parecem esquivar do meu apelo: permanecem imóveis e não me contam onde estás.
Na tua ausência, crio alguém igual a ti, que várias vezes já me tirou daqui, enquanto aguardo, levando-me para viver aventuras diversas que culminam sempre em nossos olhos mirados uns nos outros. Quero muito, confesso, materializar tal sonho que há anos cultivo em jardim mal adubado. Nem sei como sobreviveu, mas desconfio haver parte de minha alma rebelde que insiste, teimosa!, em regá-lo.
Enfim, abres a porta do quarto escuro do meu coração. Salva-me!, grito com os olhos e tu respondes com um sorriso gentil. Estendes a mão, afim de que não me afogue outra vez no mar de minhas mágoas. E como vês em meus olhos sinal de dúvida, não hesita em cingir-me, para que reconheça: estou viva!
Segura, ó anjo, minha mão, e leva-me voando deste local onde verto de mim, mais rápido que meus passos, que os carros e até mesmo os aviões, para fora de casa, da rua, da cidade em direção ao espaço onde eu não existo sem ti e só teu corpo tocando o meu importa!
Na janela, o vapor do café aquece o vidro, enquanto lá fora chovem gotas d'água sobre as flores do jardim. Estas desabrocham devido ao calor intenso, para depois caírem de suas árvores e darem lugar mais uma vez ao frio.
A cadência do tempo traz-me notícias que não são boas ou ruins, visitas de quem logo me esqueço e sorrisos com os quais não me importo.
Lá fora, pessoas vão e voltam todos os dias. Para onde, só elas sabem. Algumas param no caminho e se cumprimentam. Finda a tarde: o destino é igual a todas, ainda que os caminhos de hoje não sejam os mesmos de amanhã.
Quando criança, ao viajar, via no horizonte uma cidade se aproximando, com tantos rostos e sonhos que era impossível de contar.
Hoje, ainda viajo. Há a estrada. Há o horizonte. Não há cidade.
Ainda na adolescência, por motivo que até hoje me escapa, dei pra mim que havia de escrever, e assim o fiz. Sobre meu primeiro romance, escrito durante os intervalos das aventuras cotidianas dos quinze anos, basta dizer que tinha começo, meio e fim, costurados por personagens inconsistentes, tão inesquecíveis que foram varridos da memória de sua criadora. Orgulhosa, imprimi as poucas folhas que continham tais palavras, sem desconfiar da vergonha que sentiam por estarem ao lado umas das outras em um conto tão infantil.
Mostrei os escritos a um professor.
- Como podes escrever bem se não lês nada?, me disse.
Perdida em minha húbris juvenil, interpretei o comentário como um insulto pessoal e não como a crítica construtiva que era. Daquele momento em diante, passei a desprezar o professor, conspirando formas de expulsá-lo da escola. Passava as aulas distraída, envolva em tramas mais complexas que o romance que pretendi escrever. Desnecessário dizer que nenhum plano jamais passou de fantasias de criança e nunca fiz nada que pudesse lhe caluniar.
O professor não era velho, mas usava uma barba fechada, do tipo que dá ao homem anos a mais de sabedoria do que lhe atribuiriam de outra forma. Talvez a convivência com ele após dez ou quinze anos me fizessem descobrir nele uma pessoa embasada ou um idiota completo. Nunca descobri a resposta correta: no final do ano, por descuido, foi atropelado ao atravessar bêbado a avenida durante a madrugada, ao sair da festa de formatura de um primo.
Desligada, só soube do ocorrido no início do ano seguinte, o que foi uma benção disfarçada, já que eu poderia ter, pelo impulso da idade, me culpado por ter desejado-lhe o mal ou ficar satisfeita com esta conclusão. As duas opções são igualmente assustadoras.
O passar dos anos não me trouxe a cura da doença da juventude, apesar de aliviar alguns de seus sintomas mais agudos. E eu, mais madura, voltei a arriscar a sorte na arte de juntar palavras. Os parágrafos, por sua vez, pareciam assombrados, já que a cada um concluído sentia pesar à pena a mão fantasmagórica do professor, e sua voz sussurrava a meu ouvido:
- Como podes escrever bem se não lês nada?, me disse.
Esta frase continuou a me atormentar, expandindo cada vez mais seus domínios. A ela não bastava mais apenas a porca literatura, alcançou também trabalhos universitários, mensagens de redes sociais e rascunhos de listas de compras. A voz, entretanto, aos poucos deixava de ser de meu finado mestre, tornando-se cada vez mais minha própria. Era a prova de que, finalmente, aceitava a conclusão para a qual ele, anos antes, me indicara.
Não sei bem por onde comecei, mas passei a devorar todos os documentos possíveis. Clássicos, modernos, notícias de jornal, indicações de amigos. Por muito tempo consumi as palavras de outros sem ousar dar vazão às minhas. Como ousaria uma neófita como eu usar o mesmo instrumento de mestres como Machado, Vieira e tantos outros?
Esta ousadia, confesso, só apareceu tempos depois após alguns copos de vodka em uma noite solitária. Meus surtos de honestidade limitaram-se a análise de frases e verbos soltos em capítulos devidamente selecionados pela forma com a qual me impactaram durante a leitura.
- O que pensava este verdadeiro filho da puta ao montar esta frase?, gritava, sozinha no apartamento. Depois ria e sorvia outro gole, direto da garrafa. Não tive nenhuma resposta naquela noite, ela me trouxe somente a ressaca no dia seguinte. Admito, uma das melhores que já tive.
Continuo a pensar sobre esta questão mesmo agora, quando olho, ainda curiosa, para o texto já findado. O pouco que sei é que as palavras, antes de encontrarem a estrada ao papel, existem em um turbilhão de palavras, tentando encontrar aquelas que lhe ajudarão a formar o sentido perfeito. É assim que nascem as frases. Quando prontas, deixam de existir somente na cabeça do escritor, e mesmo assim não estão seguras, havendo sempre a chance de, caso necessário, serem reescritas para por um pouco mais de ordem na história.
Um dia desses, enquanto caminhava na praça perto de casa, fiquei reparando nas pessoas que também frequentam o local. Nesta época do ano, obviamente, ela é muito visitada por crianças e adolescentes que, de férias da escola, teriam que, de outra forma, ficar em casa. As atividades que elas desempenham são as mais comuns imagináveis: jogar futebol no campo aberto ou se juntar em um canto para jogarem algo em seus celulares. As crianças usam os brinquedos e correm e gritam, deixando seus pais assustados e temendo que elas se machuquem.
Por falar nisso, esta semana presenciei um caso insólito. Eu usava um dos aparelhos de ginástica comunitários, aqueles que não sei o nome, mas servem para caminhar. São compostos de duas hastes erguidas sobre o chão, no qual a pessoa pode pôr os pés e movê-los. Na minha praça existem seis deles, sendo três lado a lado e os outros paralelos, a frente. Enquanto eu me exercitava, um menino de no máximo quatro ou cinco anos (talvez menos ou mais, há anos descobri que não sei identificar a idade dos pequenos) se aproximou do aparelho da frente, subiu nele e começou a se movimentar. Há uma observação importante a ser feita quando uma criança usa um destes equipamentos: em vez de mover as pernas independentemente, simulando um andar natural, elas impulsionam as duas pernas para a frente e para trás, como se estivessem em um balanço. Isto geralmente é perigoso por que a única forma que eles têm para se apoiar é a barra frontal, que muitas vezes é alta demais para sua baixa estatura.
E eu sempre tenho medo que um deles que esteja do meu lado perca o equilíbrio, caia e se machuque. Primeiro por que, neste mundo louco em que vivemos, você nunca sabe quando um pai distraído vai querer se aproveitar da sua presença ali, ao lado, inocente, e lhe acusar de negligência com a criança, sem perceber a falha lógica em seu argumento (existem pessoas que não precisam de desculpas, e, sim, pretextos). Por outro lado, pode ser que a criança esteja sem nenhum pai ou responsável por perto e recaia sobre mim a tarefa de tratar do assunto, o que é assustador quando você está contendo suas crises de ansiedade com um equilíbrio tão instável que qualquer “oi” pode derrubar. Some-se a isso o fato de que eu já sou mega-consciente de eu mesma e morro de medo de chamar a atenção sem saber. Quando uso roupa de ginástica, por exemplo (e eu amo usar esses macacões apertados), sempre checo várias vezes antes de sair de casa para ver se eu não estou com um camel toe acidental.
Voltando ao assunto antes que eu me perca em um ensaio longo e irrelevante sobre minhas preferências de moda, desta vez o menino realmente caiu e foi ao chão, provavelmente machucando pelo menos uma das canelas, sem falar nas outras partes do corpo que se arrastaram no chão de cimento. Obviamente, ele começou a chorar e, por sorte (tanto minha quanto dele), seu pai estava ali ao lado. Mexia no celular (acho que via um vídeo, ou jogava um jogo, não dava pra ver direito) quando ocorreu o acidente. Desatento, só percebeu o que aconteceu ao ouvir o inevitável choro e se aproximou do filho. Seu rosto, entretanto, era um exemplo perfeito de alguém contrariado, fazendo algo mais por obrigação do que qualquer empatia ou dever paternal. Em nenhum momento, e isto me enojou profundamente, tirou os olhosdo telefone. Apenas segurou-o com uma das mãos e levantou-o, gritando para que ele se calasse e não causasse mais problemas. A criança continuou chorando, claro, e abraçou uma das pernas do pai. Um outro menino, provavelmente seu amigo, que usava o aparelho ao lado e se movia da mesma forma, parou e foi ver se ele estava bem, demonstrando mais preocupação que o adulto.
Quem já foi criança sabe que todo segundo é precioso e, após uma boa chorada, nada melhor do que voltar a fazer o que quer que estivesse fazendo antes e os dois meninos decidiram voltar aos aparelhos. O pai, mais preocupado em não permitir a criação de uma nova distração, lhe proibiu tal ação e o filho, em vez de reclamar, inventou na hora um jogo complicado que envolvia toda a praça e saiu correndo. O pai suspirou e pôs-se a caminhar em direção à área onde ficam algumas mesas para sentar-se e, antes de sair, olhou para mim e sorriu aquele sorriso nojento que só os medíocres homens sabem fazer.
Enquanto isso, perto dos brinquedos infantis, algumas meninas igualmente novas corriam e brincavam no escorregador. Algumas delas usando saias ou vestidos, o que também muito me espanta, já que me faz lembrar daquela época em que as coisas, na nossa cabeça, não possuem uma dimensão sexual e mostrar a calcinha para alguém só resulta naquela pessoa vendo sua roupa íntima, sem nenhuma conotação ou consequência a mais. O que se segue, geralmente, é um misto de um novo surto de autoconsciência, na qual tento pôr para baixo minha saia para esconder minhas próprias vergonhas, então percebo que não estou de saia e sinto falta de uma para que ninguém veja meu camel toe que, alias, também não existe, e também um pouco de inveja por não poder mais ser irresponsável desta forma com minhas próprias roupas, o que significa limitar meus movimentos ao usar um vestido, por exemplo. Correr e pular com uma saia larga é algo que nunca vou conseguir fazer, talvez só em uma ilha deserta e, ainda, desconfiada.
O que me surpreende mesmo são os adolescentes, que usam o local para paqueras, o que é algo que eu nunca tive coragem de fazer na vida. Praça era, quando eu tinha essa idade, um local para encontrar os amigos, contar piadas e se divertir. Uma vez, um amigo de um amigo resolveu chegar em mim e eu, desconfortável, não consegui nem dar-lhe um fora, me limitando a esquivas sem substância que acabam por confundir a pessoa e fazê-la pensar que você está apenas se fazendo. E não importa o que digam, cortar a investida de alguém neste contexto sempre é ruim por que deixa um clima chato no local depois – mas, mesmo assim, é melhor que ficar com alguém por obrigação.
Os grupos que eu vejo na praça são de outro tipo e parecem ter sido formados apenas como local de aglomeração de pessoas que estão lá com um objetivo em comum: a pegação. Eles lembram as antigas reuniões dançante do fim do meu Ensino Fundamental, na qual meninos tímidos dançavam com meninas vaidosas sem saber exatamente por que estavam fazendo aquilo, só que, neste caso, eles pulam direto a parte da dança e vão direto aos finalmentes, o que significa ir para o canto e ficar se beijando.
Só que, como eu não faço parte destes grupos, admito desconhecer suas regras elementares. Não acredito, portanto, que se trate de uma versão bizarra de um bazar ao ar livre, na qual o cliente pode passar e escolher a mercadoria para usufruí-la pelo dia e tudo volta ao normal no outro dia. Para ser sincera, tenho imensas dificuldades em lembrar dos rostos de pessoas e preciso vê-las com frequência para fixá-los – sofro disto desde pequena e a solução que encontrei para ajudar a me organizar sempre foi prestar atenção nas roupas das pessoas como forma de diferenciá-las (o que resultou em uma memória acima do normal nestes casos. Posso não saber com certeza o que alguém fez em um dia específico do passado, mas tenho certeza de quais roupas estava usando naquele dia).
Para ser sincera, e ai já me aproximo do ponto que eu queria chegar com este texto, este tipo de abordagem nunca me interessou. Sempre pensei em uma relação, ainda que uma simples ficada, como algo para ser degustado em privado e não exibido em público. Nunca gostei de beijar alguém na boca no meio da rua ou flertar na frente de terceiros. Por isso que algo que aconteceu certa noite me marcou. Minha turma de Ensino Médio sempre foi unida, mesmo após a formatura e, com frequência, nos reuníamos para jantar em um restaurante ou beber em um bar ou festa na casa de alguém. Com o tempo e a expansão dos nossos horizontes, estes encontros ficaram cada vez mais escassos até desaparecerem por completo, mas isto ocorreu antes disso.
Eramos cerca de nove ou dez pessoas na mesma mesa, só que por problemas de agenda só éramos duas mulheres: eu e outra colega que, para ser sincera, não me dava muito bem. Eu vestia uma saia larga bege até o joelho e uma blusa de alça justa preta, com um casaco jeans por cima e uma sandália rasteira. Ela, uma blusa tomara-que-caia amarela e uma saia longa da mesma cor. Estávamos com nossos ficantes que também eram colegas por que nossos universos, naquela época, eram limitados. Alguns dos meninos faziam sinais para outra mesa, na qual estavam duas meninas que, descobriria depois, eram poucos anos mais novas que nós. O inesperado aconteceu no final da noite, pouco antes de voltarmos para casa. Um dos meninos, um cara alto e magro e que aparentava ser mais adulto do que era realmente por que usava bigode e cavanhaque, chamou o garçom e pediu mais uma cerveja. Quando ele voltou com a bebida, trouxe consigo um bilhete, entregue por uma das meninas da outra mesa e que, àquela altura, já estavam de saída.
No outro dia, nos encontramos de novo para uma janta na casa de um colega. Nem eu ou meu ficante tínhamos carteira de motorista na época, então a mãe dele me buscou em casa – na época, morria de vergonha dessas coisas!. Por problemas de agenda (ou seja, femininos), me atrasei e chegamos lá tempos depois do combinado. Eu lembro de estar irritada naquela noite e meio contrariada por que não queria ter ido. A casa do colega tinha uma piscina que todos estavam curtindo, menos eu. Vestia uma blusa sem mangas larga e uma calça jeans surrada e o dia estava tão quente que eu estava praticamente derretendo. Chegando lá, percebi a presença de duas meninas que nunca havia visto antes – e já estava acostumada com as ficantes de alguns colegas e sabia que não eram elas.
O dono da casa nos apresentou e, como elas não haviam sido informadas sobre a piscina, também não tinham roupas adequadas. Ficamos as três conversando por toda a noite, mas acho que não fui muito gentil com elas em alguns momentos. Se as ver de novo na rua, não saberia reconhecê-las para pedir desculpas, o que é uma pena. De qualquer forma, uma das meninas havia passado a tarde com meu colega, fazendo sabe-se-lá-o-que e ele a convidou para se juntar a nós durante a noite, algo que ela só concordou se pudesse levar a amiga, que por sua vez se juntou à empreitada por que esperava encontrar, no meio de todas aquelas crianças que eu tinha orgulho de chamar de meus amigos, alguém para ela própria.
Mas o que ocorreu durante a noite foi ainda mais frio que o esperado. Os meninos, embalados pelo álcool e por suas brincadeiras sem graça na piscina, preferiam montar uns nos outros como em uma imensa luta de sumô e raramente prestavam atenção em nós. Acho que beijei na boca uns dois ou três selinhos a noite inteira, o que aumentou ainda mais a minha irritação.
Uma hora quero expandir mais este assunto, mas sempre fui o tipo de mulher que procurava se integrar aos grupos de amigo de namorados ou ficantes. Conheço umas meninas que preferem o oposto e se fecham, olhando feio para todo mundo e não perdendo uma única oportunidade para lembrar a todos que preferia não estar ali. Aquelas meninas, por sua vez, pareciam ser do tipo que se valorizam e nunca mais as vi depois daquela noite. A que estava com meu colega, por exemplo, recebeu menos atenção que eu. A outra, ainda menos.
Se elas fugiram de nosso grupo por receio de estarem se metendo em algo ridículo, tudo bem. É a opção delas procurarem ambientes que as façam se sentir melhor. Eu, por outro lado, nunca conseguiria ir na casa de um cara para ficar com alguém que nunca vi antes na vida enquanto estava cercada por amigos dele e sem nenhum dos meus por perto.
Não sei se agir assim é coragem ou descuido.
Uma das histórias que eu mais ouvia na adolescência, quando alguma amiga ou colega terminava um relacionamento – seja namoro ou ficada, – era a expectativa de encontrar alguém disposto a amá-las do jeito que elas eram e que estivesse apenas esperando o momento certo de ela estar disponível para se declarar e se tornar seu novo amado ideal. Para uma ou duas, isto até aconteceu e o resultado qualquer pessoa que use a Internet sabe: elas o rejeitaram na hora. Esta não é uma história sobre isso, ou melhor, até é, mas em partes.
Não vou dizer aqui que eu nunca fui uma dessas pessoas, até por que isto seria mentira. O caso de rejeitar meninos apaixonados, por sua vez, realmente não foi comigo – naquela época, eu odiava não ter sido contemplada nesta loteria bizarra, mas hoje agradeço, já que eu, provavelmente, teria agido da mesma forma que as outras e, hoje, teria nas costas o peso de ter rejeitado alguém em nome da minha própria vaidade.
O que me deixa tranquila para confessar essas coisas é que o tempo é senhor de tudo e nos torna capazes de ver os acontecimentos por outra óptica. Várias pessoas, sentadas ao redor de uma fogueira (as algumas verdadeiras, outras, metafóricas), já relataram o quanto se sentem envergonhadas ao lembrar de certos episódios de quando mais jovens, e esquecem o mais importante: se você está se sentindo assim, é por que, com o tempo, ganhou sabedoria o suficiente para compreender o quanto seu comportamento era inadequado na época.
Nossa cultura tem a ideia do garanhão pegador, aquele cara que, por onde passa, vai comendo todas as menininhas. Não estou aqui para julgar se a imagem é certa ou errada, apenas lembrar que ela representa um aspecto muito desejado, que é ser proativo. O homem que vai atrás de uma mulher tem muito mais chances de conseguir algo do que aquele que fica passivo em um canto, esperando ser notado.
E o mesmo vale para mulheres: muitas delas, ao decidir por um homem, correm atrás do que querem em vez de esperarem passivamente que eles venham até elas. O problema mesmo ocorre quando as pessoas não conseguem colocar este plano em ação por desconhecerem o método certo e julgarem que ao homem só cabe o avanço cego e certeiro e, à mulher, o papel de presa que tem de fingir uma caçada difícil.
O tempo ensina que a melhor opção, nestes casos, é ser sincero com seus sentimentos. Meninas, se vocês quiserem um homem, corram atrás e o prensem na parede, da mesma forma que ele faria se lhe quisesse. Meninos, pelo amor de Deus, não mascarem seu interesse diminuindo-o ao ponto de mimetizar uma falsa amizade. Pegação pressupõe desejo físico, que é algo independente de respeito e interesse intelectual. Claro que qualquer relação que tenha estes elementos é melhor, mas ai não chamamos pegação, e sim, namoro.
Já conversei sobre o assunto com amigos, ficantes e namorados e muitos deles me relataram um problema semelhante: a demora para entender que nós, mulheres, também sentimos tesão. Acho que este é o grande fator que gera situações exóticas, como um cara falando e falando, enquanto a mulher está em sua frente, apenas esperando que ele dê o bote – sendo que ela, por algum motivo besta, não percebe que também é capaz de dar o primeiro passo. A frase “cala a boca e me beija” cai muito bem nesses casos.
A primeira vez que um homem foi sincero assim comigo, me assustou, por que não esperava este tipo de abordagem. Ele não foi direto ao ponto de dizer “oi, quero te comer”, apenas deixou claro que o que ele queria comigo era mais físico do que intelectual. Ai, nesse momento, nossas conversas começaram a girar mais em torno de temas pornográficos: posições favoritas, fetiches e este tipo de coisa. Encurtando a história: transamos, sim, mas a relação não se transformou em um namoro depois por que, fora deste pequeno círculo de interesses comuns, chegamos a conclusão – mútua – que não fomos feitos um para o outro. Nós ainda conversamos de tempos em tempos e o rompimento, se é que pode ser chamado assim, foi brando.
Na hora de escrever este parágrafo, pensei em usar o termo “evoluir” para designar a mudança eventual de nossa relação, ai percebi: para isto, seria necessário criar uma hierarquia para determinados tipos de relação, o que considera que uns são, por definição, mais elevados que outros, o que não é verdade. Conheço pessoas que se contentam em achar parceiros ocasionais para fazer sexo e depois cada um segue seu rumo. Um amigo, uma vez, confidenciou que nem sabia o nome da pessoa que levava para a cama. Outras precisam de algo mais: beijos, um pouco de carícia, mas sem criar raízes. E há os que precisam de uma relação mais íntima, com algo que sexo não é capaz de trazer (pessoalmente, acho que o melhor sexo possível é quando você está numa relação dessas, nada é melhor que intimidade). Nenhum desses tipos é, intrinsecamente, melhor que o outro e o problema ocorre quando, por exemplo, uma pessoa que quer sexo casual está presa em um relacionamento duradouro, ou vice-versa.
No final das contas, o importante mesmo é saber reconhecer o que você e a pessoa com quem você está se relacionando querem e se certificar de que ambos estão na mesma sintonia, pois, caso contrário, alguém pode sair machucado, e não há necessidade de ferir alguém se isto pode ser evitado.
Com o fim das festas e correria de fim de ano, acho que devo retomar o ritmo aqui, que caiu um pouco devido ao excesso de correria, festas familiares e coisas para fazer em geral. Não que eu não tenha me esforçado: para ser sincera, tenho um arquivo aqui cheio de textos pela metade, e por vários motivos. Alguns não ficaram bons o suficiente, outros tem um final definido, mas falta o recheio, a maioria, por outro lado, têm tantas formas de serem escritos que eu ainda não decidi qual o melhor rumo (e não acho que um texto no estilo “Você Decide” seja legal nesses casos). É o meu tipo particular de bloqueio de escritor (embora, pessoalmente, não me ache digna de merecer tal alcunha). A verdade é que, mais do que pensar em histórias, nos últimos dias tenho focado mais em minha própria percepção de mundo. Se isto vai resultar em uma literatura própria mais madura e com mais profundidade, não sei. A verdade é que parei de tentar descrever, com minhas palavras, qualquer verdade universal. Tenho me concentrado na minha própria realidade e construído sentido ao redor dela. Talvez isto, um dia, resulte em algo grandioso? Só o tempo dirá.
A minha vontade era escrever algo aqui para o ano novo, mas fiquei sem tempo por um monte de motivos, nem todos podem ser ditos aqui. De qualquer forma, fica aqui um beijo super carinhoso para todo mundo que, por algum motivo, dedica um pouco do seu tempo para ler as coisas que eu expurgo neste blog.
E um abraço especial à todos aqueles que, não aguentando de curiosidade, vieram me fazer perguntas e, mais importante ainda, companhia durante algumas madrugadas que, sinceramente, não foram nada legais, mesmo que vocês não soubessem.