We're on our way home, we're going home. (POV)
Abriu os olhos e se encontrou no banheiro feminino do aeroporto, a diferença de luz machucava um pouco seus olhos e por isso teve que piscar algumas vezes para que eles se acostumassem com a iluminação do novo lugar. Será que ela tinha voltado para o exato momento que se viu abrindo a porta vermelha? Poderia tudo aquilo ter sido um sonho? Abraçou a bolsa contra o corpo e se relembrou de todas as coisas que conseguia, do rosto de cada um que havia encontrado em Gael e reviu todas as cenas exatamente como se lembrava, como memórias e não sonhos. Ela não poderia, também, ter caído no sono em pleno banheiro público, que pensamento bobo! Correu com as mãos para a mochila, procurando seus desenhos e assim que os achou deu um sorriso de uma ponta a outra. Os rostos de Daniel, Harriet, Elektra e Nate estavam lá assim como os rabiscos que formavam a praça de Gael e o salão comum, ela não poderia ter sonhado com aquilo. Reencontrou, também, o desenho que concluiu minutos antes da sua "viagem" para a cidade misteriosa: O senhor olhando para a decolagem dos aviões.
Ouviu vozes de pessoas caminhando para todos os lados de fora do banheiro e sentiu uma alegria banhar seu corpo ao reconhecer o sotaque francês carregado nas vozes da maioria das pessoas que escutava. Saiu confiante, bem melhor do que da última vez que havia passado pela porta, uma normal desta vez, e abriu o maior de seus sorrisos para qualquer um que passasse pela ruiva. Amelie, por mais saudosa, estava sentindo uma felicidade plena. Voltar para casa nunca foi tão bom. Lembrava de todo o caminho que fez pelo aeroporto e, ao passar pelo banco que havia desenhado pela última antes de partir, avistou o mesmo senhor de meses atrás. A curiosidade atacou a menina ferozmente ao rever a figura parada no mesmo lugar depois de um bom tempo, será que o tempo em Gael não passava da mesma forma do que na Terra? Caminhou com passos rápidos, ela já não conseguia segurar a vontade de conversar com aquele homem, parando apenas quando chegou no lado dele. - Posso lhe fazer uma pergunta? - O tom de voz diminuiu pela vergonha de ter confundido e aquele ser um homem completamente diferente.
- Pode se me deixar lhe perguntar outra depois. - Sorriu, os velhos olhos azuis tomaram um brilho diferente, como se ele já soubesse a pergunta que viria pela frente, mas não incomodasse de responde-la para Amelie. A ruiva puxou o desenho, o primeiro daquele caderno e mostrou para o mais velho.
- Eu vim aqui no aeroporto faz um tempo e desenhei isto e, bem, eu acho que você me lembra muito o homem que estava aqui... Desculpe. - A cada nova palavra Amy tinha vontade de sair correndo e voltar ao caminho inicial, o que a levaria para a casa. Suspeitava estar fazendo papel de idiota ao fazer uma pergunta como aquela.
- Pois bem, minha jovem. Sou eu, provavelmente. Mas não se assuste, eu venho aqui todos os dias da minha vida. Eu gosto de ver as expressões das pessoas ao passar para viajar porque, normalmente, elas estão tão focadas no que vão fazer quando chegarem ao seu destino que simplesmente deixam as mais variadas emoções esculpirem seus rostos. Gosto de estar no meio da multidão sem realmente fazer parte dela e... Se a senhorita quiser uma resposta mais simples... Gosto do café da manhã que servem aqui. - O sorriso no rosto enrugado apareceu no mesmo momento que a garota arregalou os olhos, ela não esperava uma resposta como aquela e não imaginaria nada como aquilo, nem em um milhão de anos. - Agora, me diga, de que lugar você veio para estar vestida com roupas de frio, mas com o cabelo molhado? O aeroporto é aquecido, você não pode ter se molhado assim aqui.
Passaram horas e horas, Amelie explicou da cidade, de tudo que sabia sobre ela. Detalhava cada espaço, com muito gosto, por estarem frescos na memória, contou tudo o que passou e todas as escolhas que fez. Escolhas complicadas e outras nem tanto. Disse como conheceu Daniel, seu melhor amigo, o irlandês que fez a menina confiar em si mesma e nas outras pessoas. O homem que dividia muitos de seus pensamentos e vontades. Wright sentiu saudades ao falar de Dan, desejava revê-lo mais tarde e cumprir a promessa de assistir um jogo de beisebol com ele. Não deixou passar as lembranças de Harriet e Elektra, as duas meninas que eram opostos e faziam Amy querer voltar ao seu primeiro dia em Gael. Finalmente contou sobre Bilbo, um brilho apareceu em seus olhos, ela não conseguia achar palavras para descrever o rapaz - nem tinha o desenho do mesmo. O descreveu como um guerreiro, um búlgaro corajoso. Disse ao senhor que ela sentia por ele algo diferente, queria que ele estivesse bem e feliz. Ao terminar de contar a sua história e de responder todas as perguntas que vinham na cabeça do seu interlocutor, Amy despediu-se mais uma vez naquele dia e prometeu voltar para tomar café da manhã com o senhor e seu tio. Se levantou e voltou a caminhar.
Passava pelas ruas famosas, lembrava de todos os caminhos que poderia fazer para chegar em qualquer um de seus lugares preferidos e, por maior que fosse a sua vontade de ir comprar um doce francês, o coração batia forte pela vontade de chegar em casa e correr para os braços dos tios, sua verdadeira família. O sorriso de Harold veio como uma bomba em sua mente, ela esperava que ele tivesse a perdoado por ter sido tão idiota da última vez que tinham se visto. Amelie queria que ele soubesse que ela o amava tanto quanto as lembranças de Jim, seu pai. Que sentia falta da figura paterna, mas que o velho francês não era menos importante. Chegou em casa algum tempo depois e notou que a porta na frente não estava trancada, sua tia sempre esquecia de trancar com a chave e, provavelmente, Harold não tinha passado para checar naquele dia. Girou a maçaneta com um pouco de nervosismo e vergonha por ter deixado o lar com tamanha irresponsabilidade e voltar de uma forma tão inesperada.
Sujou o tapete de entrava com um pouco do que trazia grudado nas botas desde Gael, ouviu o barulho de liquidificador vindo da cozinha no final do corredor e das vozes de algum canal culinário francês, sua tia devia estar testando alguma nova receita de doces, seu prato preferido. Um latido alto cortou o pensamento da ruiva que, ao procurar o dono do barulho, viu um labrador correr em sua direção. - O que?! - Gritou por surpresa, Amy nunca teve um cachorro. Deu as costas para sair da casa e se proteger do pulo do animal que estava cada vez mais perto.
- Ei, não! - A voz imponente de seu tio cobriu o espaço entre o grito de Amelie e os latidos do labrador, o cachorro parou na mesma hora que o comando foi feito, mas continuava olhando para a menina atento por mais que fosse um filhote. - Quem é vo--... Amelie! Ammy! - Desta vez foi o homem que correu em direção a visita, a puxando para um abraço apertado. Amelie afundou-se nos braços de Harold e correspondeu a todo aquele sentimento desesperado de saudades. Sentia o pequeno animal pular em suas pernas ao ver a felicidade do dono ao ver a mulher.