Talvez fosse exatamente o que tinha de ser, era o que Bilbo tentava se convencer. Algumas semanas se passaram e ele estava sentado no sofá, com a cabeça de Emma em seu ombro, ambos olhando o pequeno gato branco que encontrara na rua e sorrindo como bobos. Angus dormia no quarto apertado, a rotina do dia havia sido cansativa como sempre e já era tarde, mas foi o dia em que ele tomou sua decisão. Naquela hora, naquele segundo, as coisas pareciam parcialmente no lugar que tinham de permanecer e talvez realmente tivessem, mas o vazio que crescia dentro de si era grande o suficiente para Bilbo acreditar que seu corpo era oco.
- Não se preocupe. Ela tem sete anos, não sete cabeças. Talvez só esteja com saudades de casa.
- Essa é a casa dela agora – era isso que ele gostaria que a irmã entendesse. Não arriscaria voltar para a Bulgária para viver como viviam há alguns meses, mas não negava que também tinha saudades. Frequentemente ouvia o barulho que suas botas faziam quando piavam na neve que se erguia há quase trinta centímetros do chão ou lembrava-se do sol despertando preguiçoso para acordá-lo com seus raios que transpassavam a cortina de tecido fino pela manhã. Bilbo suspirou, colocando a cabeça nas mãos. Queria confessar que não sabia que decisão tomar e para onde partir, mas as palavras eram juras e não podiam ser apagadas. Ele pensava ser o suficiente apenas distrair-se com o que tivesse de fazer para prover o necessário para Angus, o que admitia ser mais difícil do que ele prevera quando decidiu embarcar para Cleveland.
Felizmente Emma era como um anjo da guarda, ajudava-o além dos limites, como quando procurava professores para a irmã ou ia a mercaria para comprar o que precisasse. Ela sabia onde os pratos estavam, onde guardar cada peça de roupa jogada no chão e o penteado preferido de Angus, mas mesmo confortáveis como pareciam, instalados ali naquele apartamento pequeno, mofado e barulhento, por que soava tão errado? Semanas depois dos primeiros dias, pôde ver sinais de saudade no rosto da irmã enquanto falava com Yan e perguntava sobre sua mãe e irmãos. Foi então que notou quão diferente eram seus destinos, o bastardo e a mocinha. Bilbo teria uma escolha complicada a frente e não queria admitir ter percebido a mudança tão rapidamente, preocupava-o ter uma séria conversa com Angus, pois não sabia se tinha medo de ouvir mentiras da boca da menina ou temia saber a verdade dentro daquela cabecinha. Como era possível serem tão diferentes e ao mesmo tempo tão ligados? Apesar de ter sido corajoso diversas vezes em Gael e fazer diabos para proteger a irmã, Bilbo era uma criança cuidando de outra quando olhava seriamente no espelho. A barba cobrindo as faces podia enganar Emma ou Yan, mas nunca enganaria a ele próprio. É claro, sua cabeça funcionava de uma maneira diferente, a definição de homem e coragem e as outras concepções importantes que faziam dele ser quem era, mudavam a todo instante dentro de sua mente. Ele era incapaz de ver o bem que fazia, a ousadia que tinha e os certos e errados que tinha enfrentado até ali. Não queria brincar de casinha em Cleveland, queria voltar e ser quem ele era, finalmente crescer. Apesar de o pensamento tê-lo atingido diversas vezes, Bilbo não deixou-se entregar completamente aos costumes e esforços para melhor entender o que estava acontecendo consigo mesmo. Tinha que deixar para trás a frustração e a dor que sentia por não poder estar ao lado de Amelie, por não poder substituir o pai para Angus ou ser um bom amigo para Emma.
- Ela nem ao menos senta comigo para o café da manhã - disse, em um tom baixo. A irmã tinha um ouvido apurado e o que menos queria era que pensasse que as coisas estavam fora de controle.
- Você precisa lembrar das coisas que aconteceram com ela. Angus só tem sete anos, Bilbo, eu...
- E AS COISAS QUE ACONTECERAM COMIGO, EMMA? - as palavras saíram acidentalmente, Bilbo não podia mais contê-las, estavam presas na garganta. Emma levantou o rosto dos ombros do rapaz e olhou-o assustada. Nunca tinha o visto daquela forma, era claro que as coisas estavam bastante erradas. – Suponho que as coisas que aconteceram comigo não importam porque afinal de contas, quem liga para alguém que não reclama dos seus malditos problemas a cada droga de segundo? - agora tinha consciência dos batimento de seu coração, eles pareciam abafar qualquer outro som da sala. Um ruído contínuo e agudo invadiu sua cabeça, insuportável como era, causou-lhe alguma tontura. Teve a breve consciência de Emma tentando tocá-lo no braço como que para acalmar os nervos.
- Eu não disse isso... Bils, mais do que ninguém eu... – Bilbo puxou o braço de volta.
- Não! Você não pode saber. Como você pode saber o que eu passei com Angus olhando no meu rosto todos os dias como se eu fosse o único culpado, como se eu fosse o garoto malvado com a lupa atrás das formigas e não, você não pode entender, nem mesmo se quisesse entender - sua voz ainda gritava, estava consciente de quase nada, não podia nem ao menos notar as lágrimas que rolavam em seu rosto. Não havia mais ninguém em volta, o estrondo da porta da frente batendo foi o suficiente para entender que Emma havia deixado o cômodo. Bilbo ouviu pezinhos descalços tocarem o piso e um empurrão atingir sua barriga.
- Pare de gritar, pare de gritar, pare de gritar... – a vozinha dizia repetidamente, sem parar por um segundo. A não ser para acrescentar: - Eu quero ir para casa, a culpa é sua! A culpa é sua! – o choro era mais alto do que apenas um resmungo. Tinha mágoa, tristeza e saudade. Ele queria poder gritar de volta, mas não se atreveria. Era com Angus que estava falando e mesmo com todas as acusações, podia voltar a dormir tranquilo aquela noite, pois havia tomado sua decisão.
O choro de Angus continuou mesmo depois que Bilbo se ajoelhou e tomou-a nos braços. O gesto foi cheio de culpa e desespero, com um abraço forte, ele a encheu de beijos na testa e na bochecha, insistindo em cochichar: “We’re good, it’s ok, it is over now”. Aos poucos, todas as palavras e lágrimas convenceram a pequena, que dormiu nos braços do irmão quando ele a trouxe para o seu colo no sofá. As horas passaram, parecia ser muito tarde da noite e Bilbo continuava sentado, imóvel. Olhava para o teto impassível, como se estivesse tudo resolvido. Todo o dinheiro que guardou daria apenas para fazer qualquer coisa que o valha com a pequena propriedade que tinha direito na Bulgária e mal dava para pagar as passagens dos dois, mas valeria a pena. Nunca mais cometeria o erro de distanciar Angus de sua família por dissimulação ou qualquer tentativa do que fosse. Nunca mais se afastaria de sua casa por dinheiro ou distração, sentia falta das roupas pesadas de inverno e casacos de pele, mas acostumou-se tão bem com jeans e suéteres quanto alguém poderia se acostumar. Até mesmo o sorriso nos lábios enquanto vendia cafés no negócio de Emma era natural agora, nem ao menos sabia porquê estivera tão preocupado e receoso para voltar para casa. Tudo havia sido uma ótima experiência, apesar dos erros, os acertos todos tinham sido bons.
Bilbo levantou do sofá e acomodou a cabeça de Angus em uma almofada, a menina apenas suspirou, tinha marcas de lágrimas nas bochechas, mas um sorriso gostoso no rosto. Sentia-se leve como uma pena agora, livre de qualquer consequência que Cleveland havia trazido e de repente, lembrou-se de que havia mais para consertar. Enviara a carta de Amelie há um mês e nas primeiras duas semanas verificou a caixa de correio todos os dias, duas ou três vezes para que nada passasse em despercebido. Já desistira daquilo tudo após algum tempo, imaginando que sua francesa gaeliana estivesse muito ocupada para respondê-lo. Mesmo que estivesse realmente, Bilbo tinha uma sensação boa sobre aquilo, talvez fosse somente a vontade de voltar para Bulgária e ter o seu cantinho seguro no mundo, mas as velhas esperanças nunca morriam. Calçou os tênis tão rápido quanto pôde e colocou um casaco para o frio da noite, desceu as escadas de dois em dois degraus até chegar no térreo, dois lances depois. A caixinha era iluminada somente pelos pisca-piscas natalinos do outro lado da rua, de vagar, estendeu a mão para a pequena portinhola. A carta estava ali. Sim, realmente estava ali. Segurá-la em mãos fez um arrepio percorrer pelo seu corpo, era finalmente hora de descobrir se Amelie sentia sua falta. Bilbo apoiou as costas na parede e olhou para o teto antes de rasgar o envelope com certa ansiedade e depois, segundos depois, estava com os olhos nas palavras doces que o papel revelava. O poema, o eu te amo e até mesmo a saudação que continha o seu nome... Ele pôde ouvi-la sussurrar os escritos. Tinha gosto de alívio e saudade.
Mal podia esperar para responder a carta, para poder visitar novamente todos os dias a caixa de correio duas vezes por dia, para receber novidades e ouvi-las com a voz de Amelie em seu ouvido. Subiu para o apartamento com calma e um sorriso bobo no rosto e foi olhando pela janela, do outro lado da rua onde as luzinhas natalinas piscavam e apagavam sem parar, que uma boa ideia surgiu. A cabine de telefone pública pedia apenas algumas moedas para uma ligação internacional e Bilbo tinha centenas delas.
O ar frio tocou sua pele em mordidas geladas, o vapor de sua respiração condensava na noite e se perdia em milésimos de segundo. Agradeceu por estar quente dentro da cabine e também silencioso, podia ouvir o coração batendo forte e martelando em seus ouvidos. Depois de discar o dial do aparelho antigo, tentou ensaiar as palavras, mas nenhuma delas pareceu realmente apropriada para a situação. Nem ao menos sabia o que diria quando ela disse “Olá”, talvez não reconhecesse sua voz rouca do outro lado da linha ou talvez o envolvesse com palavras delicadas como as da carta. Bilbo não sabia o que o futuro guardava, tudo agora eram surpresas, mas estava certo de que consertaria tudo o que deixou para trás.