O Inverno sempre foi a sua estação favorita.
AlĂ©m do frio que obrigava sua mĂŁe a te fazer chocolate quente e te encher de cobertas enquanto vocĂȘ se aconchegava no sofĂĄ da sala assistindo aos seus filmes e sĂ©ries favoritos, vocĂȘ sempre se identificou com a neve.
Branca, frĂĄgil, breve.
O inverno nĂŁo havia chegado ainda, a neve tambĂ©m nĂŁo dava nenhum indĂcio de que apareceria, mas o frio podia ser comparado Ă Ă©poca mais rigorosa da estação cinza.
O vento forte fazia suas bochechas coradas pinicarem, e a cada rajada, vocĂȘ se perguntava de onde Felix tirou a ideia de irem atĂ© aquele lugar.
Ele parecia sentir tanto frio quanto vocĂȘ, visto que era possĂvel enxergar aquela fumaça escapando dos lĂĄbios alheios quando ele suspirava.
VocĂȘ nĂŁo pode deixar de respirar por alguns instantes quando se viu diante da vista de Nova Iorque, no entanto.
O nariz dele estava vermelho, e vocĂȘ, mesmo sem tocar, tinha absoluta certeza que era a parte mais gelada de seu corpo.
âAcho que eu deveria continuar sendo o cara das ideias. Eu vou congelar nesse lugar!â VocĂȘ disse com humor apenas para receber um olhar repreensor do rapaz com quem falava. VocĂȘ sabia que nĂŁo era uma simples ideia. O lugar era importante para ele, e isso certamente significava algo.
VocĂȘs ficaram em silĂȘncio durante muito tempo, e vocĂȘ agradeceu internamente por ter se lembrado de ter pego os Ăłculos antes de subir todos aqueles andares, porque vocĂȘ assim podia enxergar perfeitamente cada janela ser apagada.
Ele tambĂ©m usava Ăłculos, e aquele gorro vocĂȘ estava familiarizado desde a primeira vez que o viu. Ele nĂŁo usava todos os dias, mas era possĂvel vĂȘ-lo quando a temperatura era mais baixa do que suas orelhas e cabeça podiam suportar. As vestes, como as suas, nĂŁo protegiam muita coisa, mas vocĂȘs dois estavam acostumados com isso.
Era uma questĂŁo disso.
Uma questĂŁo de se acostumar.
O vento soprou mais uma vez, e ele se encolheu cruzando os braços contra a friagem que o atacava.
âEu vou sentir faltaâŠâ Ele divagou olhando para um ponto muito, muito distante de vocĂȘs, mas vocĂȘ sabia o que ele queria dizer. A voz dele falhou.
VocĂȘs eram tĂŁo sortudos, Sean. VocĂȘs ganharam tanto tempo.
E esse fato era uma grande ironia, o de serem sortudos.
VocĂȘs iriam morrer. Em breve, vĂtimas de suas doenças. Isso tambĂ©m era um fato.
Como absolutamente tudo o que vocĂȘ fala ou faz, o gesto viera espontĂąneo, e quando vocĂȘ se deu conta, vocĂȘ separava os braços dele e segurava a mĂŁo pĂĄlida salpicada por inĂșmeras sardas tĂŁo gelada quanto a sua. Por uns instantes, vocĂȘ duvidou que o nariz dele era a parte mais fria de seu corpo. Ignorando o pensamento que o faria viajar para longe, puxou-o para um pequeno degrau que ficava prĂłximo da porta que dava acesso Ă saĂda de emergĂȘncia.
VocĂȘs se sentaram muito prĂłximos, quase colados, e vocĂȘ se lembrou daquela teoria que defendem com muito afinco que fala sobre calor humano ser muito mais Ăștil do que agasalhos ou edredons.
Ele cantarolava aquela mĂșsica que vocĂȘ ouviu tocar em uma sĂ©rie uma vez. VocĂȘ gostava de como soava.
VocĂȘ sĂł pode, portanto, se aconchegar ao corpo alheio e deitar sua cabeça no ombro dele.
âAlgumas coisas sĂŁo perfeitas do inĂcio ao fim.â
Quando ele nĂŁo separou os seus dedos entrelaçados e soltou um suspiro longo, fazendo aquela fumacinha sair atravĂ©s dos seus lĂĄbios mais uma vez, vocĂȘ se lembrou dessa frase que sua mĂŁe lhe disse uma vez.
âHm-hmhmhmhm. HmhmhmhmhmhmhmâŠâ
Esse momento era perfeito, porque ele era tĂŁo simples, tĂŁo comum, tĂŁo normal.
Não existiam doenças terminais, só existia o rapaz descolado e aquele nem tanto.
Não existiam o pobre Sean e o coitado do Felix, só existiam as mãos entrelaçadas e o ombro de apoio.
Existia aquele sentimento que vocĂȘ, antes, nĂŁo ousava nomear e a sensação morna que começava a preencher seu peito.
VocĂȘ nĂŁo sabia o por que de estarem ali aquela hora, mas sentiu uma necessidade muito grande de falar algo. Porque o silĂȘncio, apesar de confortĂĄvel, nunca foi sua coisa favorita.
Como todas as vezes que estavam juntos, vocĂȘ temeu que os dedos entre os seus fossem derreter e escapar de vocĂȘ.
Foi por isso, ou por outro motivo, ou por motivo nenhum que vocĂȘ ergueu a cabeça e olhou para o perfil alheio por todo aquele tempo. Ele parecia nĂŁo perceber, porque continuava a olhar para suas mĂŁos.
Seu nariz parecia ainda mais avermelhado.
Foi a sua vez de suspirar e deixar escapar o ar visĂvel entre seus lĂĄbios.
â⊠Felix.â
Ele olhou para vocĂȘ.
VocĂȘ queria, Sean, fazer alguma gracinha. Queria falar sobre como ele ficava bem com aquela touca que vestia desde os quatorze anos, sobre como aquela fumacinha que escapava de seus lĂĄbios era tĂŁo parecida com o cigarro que vocĂȘs dois fumaram escondidos hĂĄ tanto tempo atrĂĄs, ou atĂ© mesmo sobre a sorte de suas pernas ainda estarem com vocĂȘ. Ignorando, claro, que essa observação denunciava mais uma vez como a sua vida e a dele eram tĂŁo frĂĄgeis. E por isso, tĂŁo valiosas.
Mas vocĂȘ nĂŁo disse nada disso, vocĂȘ nĂŁo pode.
Não podia porque a fumaça que escapava dos låbios de Felix batia em seu rosto, e a respiração dele era quente.
NĂŁo podia porque seus olhos estavam voltados ao rosto dele com tanta atenção, por tanto tempo, que vocĂȘ tinha certeza que estava vesgo por trĂĄs dos Ăłculos.
A garganta dele voltou a murmurar melodias daquela mĂșsica que vocĂȘ tinha absoluta certeza de que conhecia, mas de jeito nenhum vinha Ă sua mente.
VocĂȘ nĂŁo pode falar, fazer nada porque de repente os lĂĄbios dele cobriram os seus.
NĂŁo era a primeira vez que vocĂȘs se beijavam, nem seria a Ășltima, mas vocĂȘ sentia como se fosse. Porque as sensaçÔes, os sentimentos eram novos, e vocĂȘ sentia como se fosse eterno nesse momento.
Mas era tudo como uma interminĂĄvel despedida.
Aquela lista que vocĂȘ criou no inĂcio de sua adolescĂȘncia e tomou de volta agora em sua vida adulta parecia muito sem sentido quando Felix circulava a sua cintura com os braços e aprofundava o beijo.
E vocĂȘ dava graças aos deuses por seu cĂąncer ser no sangue ao invĂ©s dos pulmĂ”es, porque assim vocĂȘ podia se dar ao luxo de segurar a respiração contra a boca dele por alguns minutos.
E foram muitos, mas nĂŁo o suficiente.
Ele se afastou alguns centĂmetros, mas vocĂȘ continuou com os olhos fechados e os lĂĄbios entreabertos. VocĂȘ os sentia inchados e meio Ășmidos. Estariam, com certeza, vermelhos tambĂ©m.
Ainda de olhos fechados, vocĂȘ sabia que ele estava sorrindo. Um daqueles sorrisos sem mostrar os dentes, sorriso que ergue somente um lado dos lĂĄbios. VocĂȘ, entĂŁo, abriu os olhos e sorriu tambĂ©m. O seu sorriso era grande e mostrava todos os seus dentes.
âEu tenho uma ideia.â VocĂȘ murmurou com excitação, aquela mesma que te afogou quando vocĂȘ resolveu criar a lista de âcomo viver para sempreâ.
VocĂȘs ainda estavam muito prĂłximos, e como se fossem dois pĂłlos de um imĂŁ, suas mĂŁos se juntaram e seus dedos entrelaçaram como se isso fosse a Ășnica coisa que eles soubessem fazer.
Estavam assim durante um tempo, e Felix olhou suas mĂŁos entrelaçadas. De novo. Ele sempre as olhava com tanta atenção, o que sempre fazia vocĂȘ querer perguntar em que ele pensava enquanto as observava.
Ele aguardava uma resposta. Qual era a sua ideia, Sean?
âEu acho que devĂamos escrever uma carta para o outro.â VocĂȘ começou mordiscando o interior da sua bochecha. Sem machucar. Era sĂł uma mania. âUma carta pĂłstuma. SĂł pode ser lida quando o outro morrer.â
âIsso nĂŁo faz sentido. Um de nĂłs nunca saberia o que estĂĄ escrito na carta.â
VocĂȘ nĂŁo tinha pensado nisso, entĂŁo deu de ombros pensando em como seria morrer sem ler o âĂșltimo adeusâ de Felix.
âBem, eu nĂŁo tinha pensado nisso. Mas podemos dar um jeito.â
VocĂȘ deu de ombros novamente, suas mĂŁos ainda estavam entrelaçadas. Ele ainda nĂŁo havia tirado os olhos delas.
âTudo bem, por mim.â Ele disse por fim, tambĂ©m dando de ombros.
VocĂȘ sorriu mais uma vez, e apertou a mĂŁo dele entre as suas.
âOkay.â
VocĂȘ ainda queria falar, sabia que tinha que falar, mas permaneceu em silĂȘncio durante muito tempo depois da breve conversa.
Ele tratava o fato de que tinha somente um fio de vida com tanta naturalidade que vocĂȘ chegava a sentir inveja alguma vezes. Isso porque vocĂȘ tinha medo. Claro, nĂŁo era o mesmo medo que te tomava antes de dormir na segunda vez que vocĂȘ foi diagnosticado com esse mesmo cĂąncer. O medo que vocĂȘ tinha era o medo do desconhecido, medo puro e genuĂno de morrer. O que te esperaria depois que partisse do nosso mundo, afinal?
VocĂȘ nunca gostou de nĂŁo saber das coisas.
Hoje, vocĂȘ ainda nĂŁo sabia como responder essa pergunta, mas o medo mudou.
NĂŁo saber dessa coisa jĂĄ nĂŁo te importava tanto.
NĂŁo era o medo de que teria lĂĄ. Era o medo do que deixaria aqui.
âVâŠâ Era um murmĂșrio, vocĂȘ nĂŁo estava chamando-o realmente.
Seis meses. Os seis meses que vocĂȘs estavam juntos nesse relacionamento que vocĂȘ nĂŁo sabia bem nomear nĂŁo parecia ser o suficiente. VocĂȘs eram infinitos, viveriam para sempre.
A Ășnica coisa que vocĂȘ conseguia pensar era que isso nĂŁo era verdade. NĂŁo passava de uma metĂĄfora, como aquelas citadas naqueles filmes que vocĂȘ e Felix assistiam para zombarem dos personagens.
Esse medo te invadiu de surpresa. E se vocĂȘs nĂŁo pudessem se despedir, de fato? E se vocĂȘ nĂŁo pudesse dizer o que tanto passava por sua cabeça?
E se ele fosse embora primeiro, sem a chance de ler a carta?
VocĂȘ se virou de repente. TĂŁo de repente que chamou a atenção do outro, que antes olhava para as poucas luzes restantes da Cidade que Nunca Dorme.
Ele te olhou, piscando um pouco confuso por alguns segundos, vocĂȘ o abraçou. O abraço era torto e atrapalhado, mas vocĂȘ conseguiu encostar o queixo no ombro dele. E as mĂŁos dele estava longe das suas, circulando a sua cintura em retribuição.
O corpo de Felix contra o seu era quente. Mesmo com o amontoado de roupas que vocĂȘs vestiam, e o frio que fazia no lugar que ele escolheu como ponto para o encontro, vocĂȘ tinha memorizado em um cantinho especĂfico da sua mente cada sensação provocada pelo garoto ruivo. Em um lugar que vocĂȘ garantiu que nĂŁo perderia, no mesmo lugar em que todas as suas melhores lembranças estavam guardadas.
E assim como ele era quente, ele tambĂ©m tinha um cheiro caracterĂstico. Cheiro esse que estava quase te sufocando por estar com seu rosto tĂŁo perto do pescoço dele.
O cheiro nĂŁo era poĂ©tico como os dos romances que vocĂȘ leu durante a adolescĂȘncia. NĂŁo tinha nada parecido com hortelĂŁ, canela, cafĂ© ou tabaco.
Era cheiro de pele, a pele de Felix. E esse era o seu cheiro favorito.
VocĂȘ fechou os olhos, porque assim vocĂȘ podia memorizar melhor cada Ănfima sensação provocada pelo outro.
A leveza, a despreocupação, os poros eriçados mesmo sob as camadas de pano, o revirar no estĂŽmago, as batidas do coração dele tĂŁo prĂłximo do seu, a respiração â que provavelmente estaria aparecendo em forma de fumaça no ar â batendo em seu ouvido.
Ainda tinha algo que precisava ser dito. NĂŁo era uma ideia, era uma constatação. Um fato. Ele te tomou de sĂșbito, e vocĂȘ ficou surpreso com isso.
VocĂȘ o amava.
Era claro que sim. VocĂȘ sempre o amou.
E vocĂȘ devia estar quieto demais, porque ele se afastou para te olhar com uma expressĂŁo de pura dĂșvida.
Essa era a hora, Sean. Por que nĂŁo antes?
VocĂȘ abriu a boca para dizer, mas a expressĂŁo confusa foi imediatamente substituĂda por uma de entendimento.
VocĂȘ o amava e ele sabia. Ele tambĂ©m te amava? VocĂȘ sabia, nĂŁo sabia, Sean?
E por saber, por ambos saberem, ele nĂŁo permitiu que vocĂȘ dissesse. Era estranho, confuso, mas vocĂȘ nĂŁo protestou quando ele tomou seus lĂĄbios pela segunda vez aquela noite.
VocĂȘ suspirou, sentindo seu corpo amolecer diante do contato dos lĂĄbios. E ficaram assim, novamente, por muitos minutos.
Mesmo apĂłs o beijo ter chegado ao fim, vocĂȘs nĂŁo ousaram abrir os olhos. Aquele lugar era silencioso, e vocĂȘ tinha certeza que ele ouvia a batida do seu coração. Descompassado, desesperado.
VocĂȘ podia sentir o sorriso dele, e o seu, porque ele voltou. Mais tĂmido, menor, mas tĂŁo compreensĂvel quanto o olhar que ele te direcionou antes de vocĂȘ fechar os seus olhos.
Ele nĂŁo disse nada, nem vocĂȘ. O cansaço estava te consumindo, vocĂȘ nĂŁo queria ir embora. Queria ficar ali para sempre, acompanhando a sua vida eterna, ao lado de Felix.
Parecendo perceber isso em seu rosto, ele te puxou para mais perto, levantando-os no processo. Ainda estavam abraçados, e vocĂȘ nĂŁo queria descer. O sorriso, porĂ©m, ainda estava enfeitando o rosto alheio.
Momentos infinitos podem durar algumas horas, mas sĂŁo infinitos por algum motivo.
Enquanto vocĂȘ andava ao lado dele pelo corredor do seu quarto, aquelas palavras que ameaçaram escapar de vocĂȘ voltaram, mas vocĂȘ se limitou.
Teriam o para sempre para proferi-las, afinal.