Forever? Forever | Sean and Felix | October 2014
O Inverno sempre foi a sua estação favorita. Além do frio que obrigava sua mãe a te fazer chocolate quente e te encher de cobertas enquanto você se aconchegava no sofá da sala assistindo aos seus filmes e séries favoritos, você sempre se identificou com a neve. Branca, frágil, breve. O inverno não havia chegado ainda, a neve também não dava nenhum indício de que apareceria, mas o frio podia ser comparado à época mais rigorosa da estação cinza. O vento forte fazia suas bochechas coradas pinicarem, e a cada rajada, você se perguntava de onde Felix tirou a ideia de irem até aquele lugar. Ele parecia sentir tanto frio quanto você, visto que era possível enxergar aquela fumaça escapando dos lábios alheios quando ele suspirava. Você não pode deixar de respirar por alguns instantes quando se viu diante da vista de Nova Iorque, no entanto. O nariz dele estava vermelho, e você, mesmo sem tocar, tinha absoluta certeza que era a parte mais gelada de seu corpo. “Acho que eu deveria continuar sendo o cara das ideias. Eu vou congelar nesse lugar!” Você disse com humor apenas para receber um olhar repreensor do rapaz com quem falava. Você sabia que não era uma simples ideia. O lugar era importante para ele, e isso certamente significava algo. Vocês ficaram em silêncio durante muito tempo, e você agradeceu internamente por ter se lembrado de ter pego os óculos antes de subir todos aqueles andares, porque você assim podia enxergar perfeitamente cada janela ser apagada. Ele também usava óculos, e aquele gorro você estava familiarizado desde a primeira vez que o viu. Ele não usava todos os dias, mas era possível vê-lo quando a temperatura era mais baixa do que suas orelhas e cabeça podiam suportar. As vestes, como as suas, não protegiam muita coisa, mas vocês dois estavam acostumados com isso. Era uma questão disso. Uma questão de se acostumar. O vento soprou mais uma vez, e ele se encolheu cruzando os braços contra a friagem que o atacava. “Eu vou sentir falta…” Ele divagou olhando para um ponto muito, muito distante de vocês, mas você sabia o que ele queria dizer. A voz dele falhou. Vocês eram tão sortudos, Sean. Vocês ganharam tanto tempo. E esse fato era uma grande ironia, o de serem sortudos. Vocês iriam morrer. Em breve, vítimas de suas doenças. Isso também era um fato. Como absolutamente tudo o que você fala ou faz, o gesto viera espontâneo, e quando você se deu conta, você separava os braços dele e segurava a mão pálida salpicada por inúmeras sardas tão gelada quanto a sua. Por uns instantes, você duvidou que o nariz dele era a parte mais fria de seu corpo. Ignorando o pensamento que o faria viajar para longe, puxou-o para um pequeno degrau que ficava próximo da porta que dava acesso à saída de emergência. Vocês se sentaram muito próximos, quase colados, e você se lembrou daquela teoria que defendem com muito afinco que fala sobre calor humano ser muito mais útil do que agasalhos ou edredons. Ele cantarolava aquela música que você ouviu tocar em uma série uma vez. Você gostava de como soava. Você só pode, portanto, se aconchegar ao corpo alheio e deitar sua cabeça no ombro dele. “Algumas coisas são perfeitas do início ao fim.” Quando ele não separou os seus dedos entrelaçados e soltou um suspiro longo, fazendo aquela fumacinha sair através dos seus lábios mais uma vez, você se lembrou dessa frase que sua mãe lhe disse uma vez. “Hm-hmhmhmhm. Hmhmhmhmhmhmhm…” Esse momento era perfeito, porque ele era tão simples, tão comum, tão normal. Não existiam doenças terminais, só existia o rapaz descolado e aquele nem tanto. Não existiam o pobre Sean e o coitado do Felix, só existiam as mãos entrelaçadas e o ombro de apoio. Existia aquele sentimento que você, antes, não ousava nomear e a sensação morna que começava a preencher seu peito. Você não sabia o por que de estarem ali aquela hora, mas sentiu uma necessidade muito grande de falar algo. Porque o silêncio, apesar de confortável, nunca foi sua coisa favorita. Como todas as vezes que estavam juntos, você temeu que os dedos entre os seus fossem derreter e escapar de você. Foi por isso, ou por outro motivo, ou por motivo nenhum que você ergueu a cabeça e olhou para o perfil alheio por todo aquele tempo. Ele parecia não perceber, porque continuava a olhar para suas mãos. Seu nariz parecia ainda mais avermelhado. Foi a sua vez de suspirar e deixar escapar o ar visível entre seus lábios. “… Felix.” Ele olhou para você. Você queria, Sean, fazer alguma gracinha. Queria falar sobre como ele ficava bem com aquela touca que vestia desde os quatorze anos, sobre como aquela fumacinha que escapava de seus lábios era tão parecida com o cigarro que vocês dois fumaram escondidos há tanto tempo atrás, ou até mesmo sobre a sorte de suas pernas ainda estarem com você. Ignorando, claro, que essa observação denunciava mais uma vez como a sua vida e a dele eram tão frágeis. E por isso, tão valiosas. Mas você não disse nada disso, você não pode. Não podia porque a fumaça que escapava dos lábios de Felix batia em seu rosto, e a respiração dele era quente. Não podia porque seus olhos estavam voltados ao rosto dele com tanta atenção, por tanto tempo, que você tinha certeza que estava vesgo por trás dos óculos. A garganta dele voltou a murmurar melodias daquela música que você tinha absoluta certeza de que conhecia, mas de jeito nenhum vinha à sua mente. Você não pode falar, fazer nada porque de repente os lábios dele cobriram os seus. Não era a primeira vez que vocês se beijavam, nem seria a última, mas você sentia como se fosse. Porque as sensações, os sentimentos eram novos, e você sentia como se fosse eterno nesse momento. Mas era tudo como uma interminável despedida. Aquela lista que você criou no início de sua adolescência e tomou de volta agora em sua vida adulta parecia muito sem sentido quando Felix circulava a sua cintura com os braços e aprofundava o beijo. E você dava graças aos deuses por seu câncer ser no sangue ao invés dos pulmões, porque assim você podia se dar ao luxo de segurar a respiração contra a boca dele por alguns minutos. E foram muitos, mas não o suficiente. Ele se afastou alguns centímetros, mas você continuou com os olhos fechados e os lábios entreabertos. Você os sentia inchados e meio úmidos. Estariam, com certeza, vermelhos também. Ainda de olhos fechados, você sabia que ele estava sorrindo. Um daqueles sorrisos sem mostrar os dentes, sorriso que ergue somente um lado dos lábios. Você, então, abriu os olhos e sorriu também. O seu sorriso era grande e mostrava todos os seus dentes. “Eu tenho uma ideia.” Você murmurou com excitação, aquela mesma que te afogou quando você resolveu criar a lista de “como viver para sempre”. Vocês ainda estavam muito próximos, e como se fossem dois pólos de um imã, suas mãos se juntaram e seus dedos entrelaçaram como se isso fosse a única coisa que eles soubessem fazer. Estavam assim durante um tempo, e Felix olhou suas mãos entrelaçadas. De novo. Ele sempre as olhava com tanta atenção, o que sempre fazia você querer perguntar em que ele pensava enquanto as observava. Ele aguardava uma resposta. Qual era a sua ideia, Sean? “Eu acho que devíamos escrever uma carta para o outro.” Você começou mordiscando o interior da sua bochecha. Sem machucar. Era só uma mania. “Uma carta póstuma. Só pode ser lida quando o outro morrer.” “Isso não faz sentido. Um de nós nunca saberia o que está escrito na carta.” Você não tinha pensado nisso, então deu de ombros pensando em como seria morrer sem ler o “último adeus” de Felix. “Bem, eu não tinha pensado nisso. Mas podemos dar um jeito.” Você deu de ombros novamente, suas mãos ainda estavam entrelaçadas. Ele ainda não havia tirado os olhos delas. “Tudo bem, por mim.” Ele disse por fim, também dando de ombros. Você sorriu mais uma vez, e apertou a mão dele entre as suas. “Okay.” Você ainda queria falar, sabia que tinha que falar, mas permaneceu em silêncio durante muito tempo depois da breve conversa. Ele tratava o fato de que tinha somente um fio de vida com tanta naturalidade que você chegava a sentir inveja alguma vezes. Isso porque você tinha medo. Claro, não era o mesmo medo que te tomava antes de dormir na segunda vez que você foi diagnosticado com esse mesmo câncer. O medo que você tinha era o medo do desconhecido, medo puro e genuíno de morrer. O que te esperaria depois que partisse do nosso mundo, afinal? Você nunca gostou de não saber das coisas. Hoje, você ainda não sabia como responder essa pergunta, mas o medo mudou. Não saber dessa coisa já não te importava tanto. Não era o medo de que teria lá. Era o medo do que deixaria aqui. “V…” Era um murmúrio, você não estava chamando-o realmente. Seis meses. Os seis meses que vocês estavam juntos nesse relacionamento que você não sabia bem nomear não parecia ser o suficiente. Vocês eram infinitos, viveriam para sempre. A única coisa que você conseguia pensar era que isso não era verdade. Não passava de uma metáfora, como aquelas citadas naqueles filmes que você e Felix assistiam para zombarem dos personagens. Esse medo te invadiu de surpresa. E se vocês não pudessem se despedir, de fato? E se você não pudesse dizer o que tanto passava por sua cabeça? E se ele fosse embora primeiro, sem a chance de ler a carta? Você se virou de repente. Tão de repente que chamou a atenção do outro, que antes olhava para as poucas luzes restantes da Cidade que Nunca Dorme. Ele te olhou, piscando um pouco confuso por alguns segundos, você o abraçou. O abraço era torto e atrapalhado, mas você conseguiu encostar o queixo no ombro dele. E as mãos dele estava longe das suas, circulando a sua cintura em retribuição. O corpo de Felix contra o seu era quente. Mesmo com o amontoado de roupas que vocês vestiam, e o frio que fazia no lugar que ele escolheu como ponto para o encontro, você tinha memorizado em um cantinho específico da sua mente cada sensação provocada pelo garoto ruivo. Em um lugar que você garantiu que não perderia, no mesmo lugar em que todas as suas melhores lembranças estavam guardadas. E assim como ele era quente, ele também tinha um cheiro característico. Cheiro esse que estava quase te sufocando por estar com seu rosto tão perto do pescoço dele. O cheiro não era poético como os dos romances que você leu durante a adolescência. Não tinha nada parecido com hortelã, canela, café ou tabaco. Era cheiro de pele, a pele de Felix. E esse era o seu cheiro favorito. Você fechou os olhos, porque assim você podia memorizar melhor cada ínfima sensação provocada pelo outro. A leveza, a despreocupação, os poros eriçados mesmo sob as camadas de pano, o revirar no estômago, as batidas do coração dele tão próximo do seu, a respiração – que provavelmente estaria aparecendo em forma de fumaça no ar – batendo em seu ouvido. Ainda tinha algo que precisava ser dito. Não era uma ideia, era uma constatação. Um fato. Ele te tomou de súbito, e você ficou surpreso com isso. Você o amava. Era claro que sim. Você sempre o amou. E você devia estar quieto demais, porque ele se afastou para te olhar com uma expressão de pura dúvida. Essa era a hora, Sean. Por que não antes? Você abriu a boca para dizer, mas a expressão confusa foi imediatamente substituída por uma de entendimento. Você o amava e ele sabia. Ele também te amava? Você sabia, não sabia, Sean? E por saber, por ambos saberem, ele não permitiu que você dissesse. Era estranho, confuso, mas você não protestou quando ele tomou seus lábios pela segunda vez aquela noite. Você suspirou, sentindo seu corpo amolecer diante do contato dos lábios. E ficaram assim, novamente, por muitos minutos. Mesmo após o beijo ter chegado ao fim, vocês não ousaram abrir os olhos. Aquele lugar era silencioso, e você tinha certeza que ele ouvia a batida do seu coração. Descompassado, desesperado. Você podia sentir o sorriso dele, e o seu, porque ele voltou. Mais tímido, menor, mas tão compreensível quanto o olhar que ele te direcionou antes de você fechar os seus olhos. Ele não disse nada, nem você. O cansaço estava te consumindo, você não queria ir embora. Queria ficar ali para sempre, acompanhando a sua vida eterna, ao lado de Felix. Parecendo perceber isso em seu rosto, ele te puxou para mais perto, levantando-os no processo. Ainda estavam abraçados, e você não queria descer. O sorriso, porém, ainda estava enfeitando o rosto alheio. Momentos infinitos podem durar algumas horas, mas são infinitos por algum motivo. Enquanto você andava ao lado dele pelo corredor do seu quarto, aquelas palavras que ameaçaram escapar de você voltaram, mas você se limitou. Teriam o para sempre para proferi-las, afinal.











