Anahid queria rir do constrangimento do outro, era tão bom fazer-lhe ficar envergonhado, deixava-o mais suave e fofo. Tirava tanto a seriedade do momento como o peso que ela sentia sempre que estava perto dele, pois vejamos, ela não fingia sua personalidade ao estar com ele, mas ainda sim sentia que o trairia mais cedo ou mais tarde. Matar alguém no palácio, não era nem de longe uma pequena traição - se é que existe tamanho para medir isso. Um sentimento de tristeza surgiu nela, mas não impediu-a de sorrir. — Não sei do que você está falando, quando faltou-me com respeito? - Perguntou arqueando a sobrancelha sorrindo, esperando que ele entendesse que aquela pergunta era a deixa para que aquele assunto não viesse a tona novamente, para fingir que nunca existiu. Toda brincadeira tem uma hora para acabar. — Sim, eu gosto quando você é específico assim. - Gostava da sinceridade do outro, mesmo que as vezes pudesse machucar; existem verdades cortantes. — Foi? Certo, então… Culpada. - Levantou as mãos se rendendo de forma brincalhona. Embora não quisesse continuar falando, quando estava nervosa falava muitas besteiras; tendia a explicar cada ato seu para não ser mal entendida e isso era algo que precisava parar. Mas era algo em que precisava trabalhar, ainda. — Eu iria dizer que naquele tempo, tentei fazer a receita que é sua preferida, inclusive, não que fosse para você porque eu nem sabia que era a sua preferida e nem sonhava em entrar no favorado ainda. Mas a receita deu errado, ficou tão salgado que meus pais passaram o resto do dia querendo comer algo doce e beber muita água… - As caras e bocas que fazia enquanto falava tornava o desastre mais engraçado, e com desastre, quero dizer a forma como ela estava atrapalhada. A morena bateu-se mentalmente e mordeu o lábio inferior com força, fazendo-o sangrar levemente em forma de repreender-se por se mostrar vulnerável. — Hm, hipoteticamente falando, acredito que mesmo que deixemos a sala e nos deitasse-mos sobre a neve, meu calor não diminuiria. - Não sabia se ele entenderia a insinuação dessa vez e ela não se atreveria a falar de forma mais provocativa: “você é o motivo que está colocando-me em chamas”, pois sabia que Grigori não suportaria algo tão direto assim. Ele até parecia inocente, e a Lazar sabia que não cruzaria ainda mais os limites que já havia cruzado de qualquer forma.
Na mesma medida em que Anahid podia tornar uma situação tensa ou constrangedora, também era capaz de afastar o constrangimento. Quanto a isso, Grigori estava grato, tendo permanecido encarando-a, no lugar de responder, entendendo que não precisaria mais se desculpar. Não tinha se dado conta de que, até que falasse de um de seus pratos favoritos, não tinha fornecido informações pessoais à favorita, o que dificultava a aproximação — se havia certo distanciamento emocional entre eles, a culpa era inteiramente dele. Em contrapartida, sabia que, ao menos no plano físico, não encontrariam problemas, tão acostumado estava com as imagens mentais lançadas pela Lazar. ‘ Bom, você sempre pode tentar outra vez enquanto estamos aqui… No seu tempo livre. Tenho certeza de que não vai ficar pior que isso ’ comentou, entrando no clima da história, espichando lentamente o sorriso com a lembrança alheia. Ele não era tão próximo dos pais quanto a representante de Leningrado parecia ser, e viu-se gostando da forma como ela expunha suas experiências particulares. Ademais, considerando que agora era ela parte do Favorado, nada mais justo do que fazer com que se sentisse em casa, e isso significava, também, usar as cozinhas; quiçá, até cozinhar para ele. ‘ Eu até me ofereceria como cobaia ’ prosseguiu, numa tentativa amigável de aproximação, erguendo um dos cantos da boca para indicar que estava achando um pouco de graça da possibilidade. Não havia dúvidas de que o Morozov era capaz de se relacionar melhor com aquela versão mais leve de Anahid, porque assim o cérebro não travava em razão do desconcertar. Ingenuidade da parte dele, entretanto, supor que duraria muito mais, visto que a morena logo fez menção a situação que poderia ser interpretada como luxuriosa. Veja bem, ele entendia o que o elevar da temperatura significava, porque não era muito diferente do que experimentava, mas não queria correr risco de novamente tê-la interpretado mal. Foi por isso que se levantou, caminhando até ela e sentindo a temperatura através da pele da bochecha com as costas da mão. ‘ Santo Deus, por acaso está febril? ’