✧ Alguma coisa definitivamente não estava certa com Ander. Sua aura não expressava a felicidade que costumava quando o clube de música era mencionado. Inicialmente, Lionne pensou que era devido ao problema que o havia levado para a enfermaria, entretanto havia mais em suas ações. Parecia que o amigo desejava falar algo, todavia as palavras estavam presas na garganta, tirando ao ar necessário para viver.
O moreno estava preocupado, porém não iria força-lo a dizer nada e, acima de tudo, gostaria de deixa-lo o mais tranquilo possível. Fora então que, de relance, Lionne observara os dedos do loiro torcendo as cordas da guitarra. Se fosse qualquer outra pessoa em qualquer outra situação, o menino ficaria completamente furioso, mas não com o Ander. Nunca com o Ander.
Sentando-se ao lado do amigo, Lionne envolveu os dedos trêmulos do loiro e, com um sorriso, tentou mostrar que não havia nada de errado, que estava tudo bem.
“𝑩𝒆𝒎, 𝒗𝒂𝒎𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒎𝒆𝒄𝒂𝒓 𝒆𝒏𝒕𝒂𝒐 𝒑𝒐𝒓..
O moreno começou a falar algumas notas das quais sabia que Ander tinha facilidade, entretanto a dificuldade ainda era presente. Parecia que ele havia se esquecido de como tocava guitarra. Lionne apenas afastou o pensamento, não queria pressionar ainda mais o amigo, então, colocando mais uma vez suas mãos sobre as dele, começou a guiar o loiro pelos acordes até sair a melodia esperada, cantarolando para manter o ritmo.
“𝑩𝒂𝒃𝒚, 𝒚𝒐𝒖'𝒓𝒆 𝒍𝒊𝒌𝒆 𝒍𝒊𝒈𝒉𝒕𝒏𝒊𝒏𝒈 𝒊𝒏 𝒂 𝒃𝒐𝒕𝒕𝒍𝒆
𝑰 𝒄𝒂𝒏'𝒕 𝒍𝒆𝒕 𝒚𝒐𝒖 𝒈𝒐 𝒏𝒐𝒘 𝒕𝒉𝒂𝒕 𝑰 𝒈𝒐𝒕 𝒊𝒕
𝑨𝒍𝒍 𝑰 𝒏𝒆𝒆𝒅 𝒊𝒔 𝒕𝒐 𝒃𝒆 𝒔𝒕𝒓𝒖𝒄𝒌
◇◆ Os olhos de Ander se arregalaram levemente quando sentiu os dedos do moreno se envolverem nos seus e permaneceu encarando os pés abaixo de si. Tinha certeza que se olhasse o amigo agora ele perceberia que as bochechas começavam a ruborizar. Pela reação de quando se encontraram, achava que o relacionamento que nutriam era puramente amizade, mas, agora, já não tinha mais certeza se era essa a realidade entre ele e Lionne.
A maneira doce com que falava consigo e mostrava ter paciência com ele, a maneira carinhosa como suas mãos eram envolvidas, a proximidade que eles estavam. Podia jurar que seu coração já batia diferente em relação ao garoto, mas agora, tinha certeza que as batidas eram rápidas e descompassadas. Ele estava perto. Perto de mais. Todas as palavras e frases que havia arrumado em sua cabeça para contar sobre oque havia acontecido consigo sumiam pouco a pouco, o deixando incapaz de raciocinar qualquer coisa em sua mente. Tudo apenas piorou quando a voz do colega encheu seus ouvidos, com uma melodia que lhe parecia até familiar e então tudo parou.
Toda a situação que estava com o moreno já desconcertava Ander, mas não havia sido isso que o parara naquele momento. Flashs de memória invadiram sua cabeça, deixando uma dor de cabeça forte o suficiente para fazer com que Eos levasse a mão a cabeça, na tentativa de conté-la. Ele conhecia aquela música. Não só conhecia como já havia tocado ela com o garoto outras vezes, naquele mesmo lugar e o que parecia um quarto. As notas, acordes e partituras, voltavam à sua memória assim como a lembrança de sua própria voz chamando o moreno diversas vezes.
Antes mesmo que pudesse falar alguma coisa ou dar atenção as preocupações de Lionne, os dedos, institivamente foram até às cordas da guitarra que agora, sem a necessidade de ajuda do aprendiz, podiam tocar sozinhos a música cantada e não só essa, como muitas outras. Um sorriso se abriu nos lábios do príncipe conforme os olhos focacam, finalmente depois de certo tempo, nos do moreno com uma evidente animação. Sem nem mesmo perceber, as mãos já haviam apoiado a guitarra no braço do sofá que se encontravam para se juntarem atrás das costas do Frankenstein, o envolvendo num abraço. Talvez devesse ter ao menos calculado a rapidez ou intensidade do abraço, mas estava tão animado de finalmente ter uma confirmação que suas memórias podiam voltar, que nem se quer pode se conter antes que os dois caíssem no sofá enquanto o Drosselmeyer o apertava no abraço.