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por Andrada Sín
O DRAMA DE UM BRASILEIRO
por Andrada Sín O dia parecia noite, só sabia que não era noite pois estava acordado. Acordado, porém pensando em dormir. Nada mais precisava acontecer no dia. Havia acordado cedo e logo percebi que estava atrasado, o despertador não marcava a hora certa. Ao tomar o banho, a água fria despertou-me de maneira forçada e chata. Fui ligar o carro e... Tudo certo. O café tomei assim que cheguei ao trabalho, estava quente e me queimei. A queimadura foi tão grave que tive que ir para o hospital e aí... Hospital no Brasil... Acabei morrendo.
no caminho tinham bois por Andrada Sín
CARTA DE MARILENE - ANEXO DA PERÍCIA - parte 4
por Andrada Sín ... Ajoelhada, arrastei-me até o cômodo mais próximo. Estava trancado o escritório do Doutor Lizberto. O patrãozinho mantinha o escritório trancado porque era muito perfeccionista e não gostava que mexessem em suas coisas – era o que ele falava. Eu já havia entrado lá várias vezes durante os tempos em que eles estavam de viagem e não vi nada demais. Só tinha um armário que era muito protegido e trancado com uma corrente ao seu redor e eu, por isso, nem consegui mexer, mas acho que nada de grande valor ou de importância estava guardado lá dentro. O meu achismo hoje virou certeza, estou escondida no armário agora. Primeiro, eu já tinha uma cópia da chave do escritório – havia feito às escondidas para poder entrar quando quisesse e passar um tempo (ou dar uns amassos no patrão, tudo começou quando eu entrei no escritório e ele estava lá). Assim, eu entrei facilmente, só demorou um pouco por conta da tremulação das mãos. Entrei e tranquei a porta novamente. Meu coração veio parar na boca quando eu girei a chave e o estalo se destacou num momento de silêncio dos bandidos. ...
no meio do nada há uma janela e, é claro, um papel higiênico por Andrada Sín
A PRINCESA QUE TINHA CHIFRES - parte 3
por Andrada Sín
... No dia seguinte, mais alguém se aproximava do fim do labirinto. A mulher que nunca realmente viveu sua vida de princesa arrastou o corpo da mãe para o mais longe possível do lugar de entrada e cobriu-se com todos os dois casacos que tinha, deixando os chifres a amostra. A pessoa cautelosamente apareceu na entrada, mas rapidamente voltou gritando todo o caminho percorrido da volta. Gritava: “- É o demônio! Eu vi o demônio! Socorro!” Quando relatou tudo ao rei, o rei finalizou questionando: “- Por que acha que fizemos um labirinto? Por que achamos bonito e legal?”. O homem acabou sendo enforcado pois era o único vivo que sabia o caminho até o fim do labirinto. O caso é que a rainha havia dito para ele ir atrás dela caso ela demorasse muito e, consequentemente, disse o caminho a ele; e toda a gritaria e enforcamento veio a seguir. ...
macaco-quer-banana-com-canela-e-pouco-açúcar por Andrada Sín
ENCONTRO MARCADO
por Andrada Sín Às 21 horas e 30 minutos. O encontro estava marcado. Saí da minha vida diária, a dura rotina, e entrei no carro a caminho do lugar em que havíamos marcado. O desejo me fez acelerar, mas ainda não passava das 20 horas. E o tempo não passava. O meu desejo por seu corpo, pelo seu toque, pelo seu olhar aumentava. Era um fogo ardente e incontrolável, queimava todos os meus outros pensamentos. No caminho não pensava, imaginava. Nós dois sozinhos e todas as possibilidades. Dirigia rápido. Os carros atrapalhavam minhas ideias, passava rápido por qualquer obstáculo, nada podia me parar. Segurar esse desejo só me fez ter mais desejo. O sinal ficou vermelho, não pisei no freio, não tinha mais controle sobre minhas ações. O desejo me guiava. A pista era só minha, o destino era você. Às 21 horas e 30 minutos você apareceu na minha frente. Às 22 horas o nosso mundo acabou e, meia hora mais tarde, construímos um novo juntos. Às 23 horas eu disse: - Beije-me antes de ir. E o desejo virou amor.
entre o amarelo e o vermelho por Andrada Sín
CHUVA DE MIL DIAS - parte 6
por Andrada Sín ...Então o cilindro se abriu e uma pessoa nua apareceu na minha frente toda molhada e meio morta. A pessoa abriu os olhos muitos minutos depois e, assustada, respirou ofegante olhando em todas as direções e desmaiou. O restante das câmaras – também de criogenia - eu não me atrevi a abrir, deixei os outros mortos. Ela despertou e eu perguntei a ela qual era o seu nome. Ela me disse com alguma dificuldade alguma coisa que não consegui entender. Começou a discursar em um idioma totalmente desconhecido por mim. Exausto e sem mais forças, deitei-me no chão e ela se deitou ao meu lado. Lado a lado, corpo com corpo, almas conectadas, nenhuma vergonha, nenhum pudor, nos entregamos ao desejo. Ficamos ali por um longo tempo e diria que morremos ali mesmo, não havia mais nada a se fazer. Talvez comesse a bela comida do restaurante mesmo envenenada só para fazer uma ótima última refeição; talvez saísse desse barco e procurasse outros com vida para um novo início; talvez me casasse com o meu grande amor; talvez vivesse mais cinquenta anos só comendo peixes; talvez a água abaixasse e revelasse a preciosa terra. A chuva recomeçou... Mas quero esclarecer: esse não foi um final triste. A tristeza já havia se afogado com o restante da humanidade.
CHUVA DE MIL DIAS - parte 5
por Andrada Sín ... A minha conclusão foi clara: alguém havia envenenado a comida. Talvez o grande desastre já estivesse acabando e com todas as notícias ruins mais nada restasse a se fazer do que morrer. Talvez já tivessem visto toda a situação recente da vida no planeta e também pensaram na morte como solução. Talvez o cozinheiro fosse maníaco, psicopata e envenenou toda a comida só por diversão. Talvez tenha sido tudo um acidente. O que importa é: eu não comerei dessa comida, pois ainda quero viver. Também não comerei essas pessoas, certamente estão contaminadas. Comi o meu outro dedão, do pé direito. Não era possível acreditar que todos estivessem mortos realmente. Saí do restaurante e fui procurar alguma coisa que me desse esperança. Explorando tudo encontrei um aquário com alguns peixes mortos boiando, devem ter morrido de fome, os comi todos – e vomitei todos. Sem coragem e vontade, por pura sorte, avistei em uma sala escondida e escura grandes tanques cilíndricos na horizontal com os dizeres: abrir daqui a mil anos. Mil anos? Pode ser comida! Contraindo certamente a ordem do adesivo eu girei a roda do centro do primeiro tanque. Um barulho alto começou juntamente com uma densa nuvem de fumaça, a qual tomou conta de todo o ambiente em poucos minutos...
CHUVA DE MIL DIAS - parte 4
por Andrada Sín ... Asdrúbal, como passei chamar o meu barco, acabou enchendo de água do mar um dia desses e o meu cachorro, que seria a minha possível refeição do desespero, acabou caindo na água e se foi. Fiquei triste, porém aliviado – não precisei comer o coitado. O tempo passou. Passou e passou. E o Asdrúbal acabou batendo em um navio de cruzeiro muito chique. Eu estava dormindo e só fui perceber a glória quando abri meus olhos sem força, o que demorou um tempão. Toda a força que me restava usei para me levantar e chegar ao luxuoso navio. Sem dó, deixei o Asdrúbal para trás. O convés do navio era enorme e, pelo menos a princípio, não havia ninguém. Morrendo literalmente de felicidade e de fome e de sede corri para abrir uma grande porta que de certo dava para o interior do navio. Abri e descobri a imensidão da embarcação. Andei pelos lugares perplexo pela ausência de pessoas. Caminhei e caminhei pelas lojas e lojas. Parei em frente ao provável restaurante e abri a porta. As pessoas estavam todas lá – caídas no chão. Conferi: mortas. Milhares e centenas de pessoas mortas no restaurante. Algumas senhoras pareciam ter dormido e suas cabeças estavam: umas deitadas desconfortavelmente nas cadeiras e outras sobre a comida pouco comida. A cena também acontecia com os senhores, os bigodes e as barbas sujas de comida e de bebida. Garçons caídos todos sujos. Cacos de vidro e de porcelana para todos os lados com restos de comida e de água, suco, vinho, cerveja. A tripulação localizei na mesa do centro tão morta quanto os passageiros. ...
CHUVA DE MIL DIAS - parte 3
por Andrada Sín ... O grande desastre a que me refiro foram os mil dias de chuva. Mas, eu fiquei navegando com o meu barco e meu cachorro pelo mar agitado. Depois que tudo voltou ao normal, nada estava mais normal. As coisas todas estavam fora do lugar. E o mar havia tomado conta de tudo, ou você era peixe ou tinha um barco ou era uma ave pousada num barco. Lembrem-se dos navios, os luxuosos navios de viagens e os outros militares. Terra não existia mais. Perdeu todo o sentido a minha viagem. Qual é a graça de não poder nunca parar de viajar? Aí não é viajar, é morar. E o que eu comeria? Peixe? No décimo quinto dia já não aguentava mais peixe e comecei a variar o meu cardápio comendo meu dedão do pé esquerdo e aí nunca mais consegui ficar em pé sem a ajuda da muleta feita com um pedaço de pau que flutuava nas águas do mar. ...
CHUVA DE MIL DIAS - parte 2
por Andrada Sín ... Eu, no primeiro dia de chuva, pensei que essa fosse mais uma chuva como qualquer outra – vivi as três semanas seguintes sem pensar que isso poderia ser uma anormalidade. Após essas três semanas continuei pensando como antes, porém juntei todas as minhas economias e comprei um barco. Nos jornais já noticiavam vários pontos de alagamento e muitas mortes e a previsão do tempo para os dias seguintes de mais chuva. Adquiri o melhor barco que poderia com a quantia disponível. Em poucos dias me mudei com o meu pastor alemão para o barco; tentei arranjar uma namorada nesse intervalo, mas nenhuma mulher estava disposta a navegar em alto mar. Sim, iria viajar para conhecer outros lugares. Larguei o emprego e toda a minha vida na cidade e iria agora viver no mar – a melhor ideia pensada por mim - o que, inclusive, me fez sobreviver ao grande desastre. ...
Carta de Marilene - Anexo da Perícia - Parte 1, narrada pela voz do Google Tradutor.