Apesar de ousar pronunciar todas aquelas palavras para o garoto, Haeun não queria continuar com aquilo. O indivíduo chegava a conclusões que ela não queria aceitar. Não, a conclusões que não faziam sentido. Não podiam fazer sentido. Estava completa, se faltava algo era na mente perturbada daqueles que habitavam a instituição e não em si. Não acreditava ter problemas nem peças faltando. Era um quebra cabeça completo e não muito complicado, cheio de nuvenzinhas azuis e simpáticas. Levantou o rosto, encarando-o com seriedade enquanto ouvia-o falar, levava as mãos até o cabelo e logo os dedos partiam as mechas devidamente arrumado em uma tentativa de fazê-la pensar no que podia dizer. Estava com vários “não’s” importantes e prontos para serem despejados em cima do garoto e, por conta disso, apertava os dedos em seu couro cabeludo. Contudo, algo no que era dito não podia ser questionado e fazê-la pensar que um desconhecido jogava cada possibilidade tão cruelmente para si a fazia repensar em algumas questões pessoais. E isso não era bom. Talvez fosse um jogo, talvez… Apertou os olhos e se chocou com as palavras que ouvia da voz do garoto. Deixou que aos poucos as mãos voltassem a lateral do corpo e analisasse-o de uma forma que não tinha feito antes, que não tinha feito com ninguém até então. Não admitia tanta negatividade de uma vez só, quer dizer, ele não podia dizer coisas assim. Ninguém podia. Com certa hesitação, a jovem levou a mão até o ombro do indivíduo e o empurrou levemente. Era algo estranho para a menina, pois não tocava em pessoas que não lhe eram próximas ou não a dava liberdade para isso, mas a verdade era que a ocasião quase implorava para que Haeun o pegasse pelos dois ombros e o sacudisse até que ele tirasse aquele tipo de pensamento de sua cabeça. A menor não entendia, tampouco correspondia a qualquer ligação com o que lhe era dito. — Você não pode ser um inútil. Essa questão não pode ser aplicada a você então. — Cruzou os braços em um “x” e olhava-o com convicção de suas palavras. — Se não irá notar a presença da pessoa, o problema não existe e você não enfrenta uma questão moral. — Claramente se esforçava para que ele entendesse algo que sequer entendia. Existia algo no tom de voz, na postura e na forma que o indivíduo falava que a deixava agitada e ainda mais expressiva quanto ao que pronunciava. Suspirou ao ouvir a conclusão do outro sentindo como se seus sapatos estivessem absurdamente apertados e, dessa forma, devesse mexer suas pernas em agonia. No entanto, era apenas o desconforto que o outro a causava. E nesse desconforto buscava uma solução para algo que não era da sua conta. “Ótimo”, se repreendia emburrada. — Eu criei as regras dessa discussão e, dependendo de mim, você não irá se afogar. Bem, pelo menos não no mundo fictício, pois é disso que se trata esse assunto. Não quero fazer de ninguém um assassino ou medíocre. — Esforçava-se gradativamente a mudar seus pensamentos. Esses que, de certa forma, a levavam a uma outra solução: um boa. Instigar o mal e a discórdia talvez não fosse uma boa ideia e, mesmo que ainda pensasse que aqueles garotos eram delinquentes - inclusive o que estava na sua frente -, deveria ser cuidadosa. — Por isso pensarei em outra pergunta pra você. Ah, e também… O que quer dizer com não sentir empatia, você não se importa com ninguém? Você não sente pena ou… essas coisas que todos sentem? — Indagou mesmo que soasse atrevida demais pegando fragmentos da conversa que a deixava curiosa. — Oh! Isso… Isso tudo é para uma pesquisa. Não leve tão a sério, nada de inútil e… Medíocre, okay? — Soltou um suspirou ao dizer aquilo, como se fosse obrigação daquele garoto tirar o peso de suas costas depois de fazê-la pensar tanto. — Eu sou a Haeun, se precisar de um nome pra chamar quando eu for te salvar. — Mostrou os dentes para ele em uma provocação infantil. — Se você desistir e parar de se debater na água torna mais fácil o meu resgate e as chances que eu me afogue com você são quase nulas. — Dizia com seu olhar convencido na intenção de tirar alguma expressão de um garoto tão apático. — Mas precisa gritar, você sabe gritar, não é?
Quão sepulcral é a alma daquele que abdica do privilégio da existência? Cuja solidão assobia no encéfalo para ADERIR a carência; sucumbe vestígio de vida em prol da extinção. Aquele era deveras funéreo, privado de compaixão e esmero para contemplar a poética. Jazia em SENTENÇA mortiça, à deriva de necrose espiritual que oxida vitalidade. Este possui energia tênue em constante declínio. Hyungshik era indivíduo póstumo, cujo fôlego é a premissa de uma sobrevivência medíocre.Não deveria estar naquele lugar, pois a ambiência mais adequada à sua aura moribunda era um cemitério. Não deveria mais resistir a voz de sua psiquê, deveria finalmente desistir de procurar por um recomeço. Afinal, para um ser tão indigente quanto ele, não há caminho próspero. O único amor que era capaz de sentir jazia em sepulcro, a música havia falecido juntamente com à sua irmã. Portanto, o quê lhe restava? O labéu de ser ínfimo perante aquela à sua frente? Sobrevivia à mercê de migalhas de melancolia, logo era difícil POSTULAR integridade deste. Era notável que era destituído de valor, carente de decência ao sentenciá-la ao ultraje de sua companhia. Com os lábios comprimidos, Choi peregrinou o olhar ao cenário. A procura de escapatória após a sua sentença, pois embora tivesse consciência de sua epígrafe de fracasso, este não queria condenar a outra com o seu marasmo. Pois cada palavra que serpenteia por entre lábios fadigados, era personificação de injúria. Quem era ele para dizer algo? Tampouco possuía caráter para sequer abrir a boca. Deveria sobreviver de acordo com à sua persona, destituído da dádiva da socialização para ficar à mercê da condenação. Via a si mesmo como ser funéreo, portanto, por que não conseguia agir como um cadáver? Era verossímil a um defunto, cuja alma jaz há muito apodrecida. A carne era conservada através do formaldeído, este que em literal seria a obrigação imposta por familiares para HONRAR o sobrenome. Afinal, o quão vergonhoso seria ter um caso de suicídio em sua família? Sobrevivia em prol de máscaras, mas ele sabia que era inútil camuflar a própria cerne. Pois, ora ou outra, esta há de aparecer e CONTAMINAR ambiência por meio do desconforto. Uma prova disso? A forma com que a moça à sua frente agia. Devido ao seu espectro autista, era difícil interpretar a linguagem corporal com eficiência.
Mas acreditava fielmente de que a conduta alheia remetia ao desconforto, portanto, ele mesmo fora submetido a uma árdua ansiedade. Gostaria de ter o tato para pedir um pedido genuíno de desculpas, mas a letargia há de fazê-lo permanecer em silêncio. Sendo apenas despertado após sentir a mão alheia em seu ombro, tocando-lhe de modo a deslocá-lo a realidade. O que significava aquilo? Seria uma forma de estabelecer distância? Com os lábios comprimidos, Hyungshik desviou o olhar fúnebre do ponto aleatório para observar a expressão facial da moça. Ela lhe era uma verdadeira incógnita, portanto, de nada adiantaria observá-la. E olhar nos olhos desta seria uma forma de denunciar a si mesmo, demonstração inevitável sobre o quão soturna era à sua própria alma. Evitava interação humana justamente para sucumbir a humilhação de ser tão vazio. Era uma sepultura de aura sombria, portanto, era necessário manter distância do CAOS para não ser embriagado com o seu próprio vazio. Era o abrigo do pandemônio, a consumação de uma injúria segundo as próprias palavras de seus familiares, portanto, por que ela teve a coragem de tocar em um indivíduo tão lúgubre? Buscando por uma distância inconsciente, Choi deu um passo para trás. Embora abstraído de contato visual, aquele prestava atenção em cada palavra dita pela desconhecida. Era um conteúdo esfíngico para à sua psiquê, pois custava-lhe INTERPRETAR às intenções e nuanças de uma pronúncia. Ao término da sentença feminina, ele precisou de certo tempo para finalmente chegar a um teorema. Havia muitos pontos a ser interpretados, mas ele pediu em silêncio por paciência enquanto pensava. Deveria ter afinco em filtrar os vocábulos ou deveria ser sincero? O quão lúcido poderia ser com aquela e não afastá-la? Certamente ela logo iria perceber o quão inútil ele realmente era. Por fim, Hyung elevou o olhar para esta em uma falha tentativa de observá-la. Por que tinha tanto medo do olhar humano?
❛ — Devo lhe dizer de antemão que você irá se desapontar, pois não há nada de extraordinário na ruína. Há apenas a desgraça para ilustrar a melancolia. Em geral, as pessoas procuram distância de seres vazios, pois estes não têm nada a acrescentar. Portanto, pergunto-me o porquê de você ter interesse em uma resposta. É mais fácil aceitar a minha inutilidade ao seu questionário, pois assim irá evitar o desgosto de ouvir o ensaio de um derrotado. Quando lhe digo que sou um inútil, não é com a intenção de ser dramático, mas é uma aceitação psíquica sobre qual a minha condição atual. Mas, eu prometi a você que iria respondê-la. Portanto, é necessário que eu cumpra com a minha palavra.❜ Mordendo o lábio inferior, aquele eleva o olhar e sentencia a si mesmo a sustentá-lo ao proferir as próximas palavras. ❛ — Acredito que para ter empatia é necessário estar vivo, certo? ❜ Era difícil para ele traduzir os próprios pensamentos, portanto, levou certo tempo para finalmente complementar a frase. ❛ — Falta-me sensibilidade para aceitar a minha sobrevivência, logo sou igualmente incapaz de compreender aquilo que me cerca. Em uma metáfora, comparo-me com um defunto, pois há muito não sinto absolutamente nada. Às vezes eu preciso colocar a minha mão sobre o meu coração para ter a certeza de que estou vivo, porque a sensação de estar morto consome à minha percepção. É como se eu estivesse à mercê do piloto automático, portanto, eu não consigo sentir compaixão por minha própria pessoa ou por outro alguém.Tampouco consigo olhá-la como um ser humano, porque tenho vergonha de ser tão vazio. Portanto, vale à pena tentar salvar algo que já está morto? É uma perda de tempo. Então é mais fácil aceitar a inutilidade em silêncio do que clamar por ajuda, não concorda? Talvez permanecer em silêncio e não perturbar a outrem seja uma fagulha de empatia que me restou. Logo, metaforicamente, é melhor me deixar morrer afogado. Pelo menos assim serei preenchido por algo que é real. ❜ Ousaria realizar a réplica de um sorriso para atenuar à sua pronúncia, mas naquele momento, após ter dito o que há muito jazia sucumbido em sua psiquê, HyungShik permaneceu estático. A expressão lapidada em sua famigerada apatia, mas em seu olhar havia um novo nuance. Porventura, a sensação de satisfação de ter exteriorizado o quê pensava sem ter de reprimir.








