Seguir o fluxo da ‘manada’ era o primeiro instinto de Ahri; se dando, é claro, nas condições em que estava. Por um lado, a vergonha aqueceu seu rosto, o que foi bom para que ela se encolhesse ainda mais com a face para baixo, cobrindo parcialmente esta com o casaco. Não era natural que ela agisse daquela forma. Quer dizer: não era da índole da Choi sequer reparar daquele jeito as pessoas, contudo, o semblante masculino lhe assemelhava, sim, à alguém de seu passado, portanto era mais do que aceitável que ela tivesse canalizado sua atenção ao mesmo. Agora, focada apenas na caminhada, a morena cujos fios escorriam pelos ombros para fazer jus à gravidade na qual a própria os deixou, pensava na vergonha que havia passado. Quis olhar para trás para encontrar a tal face masculina, porém acharia que seria muito atrevimento de sua parte; melhor dizendo: muita ousadia! E se ele pensasse exatamente aquilo que ela não queria informar? O simples ato de lubrificar os globos oculares, enquanto fitava o outro, lhe rendeu uma grandiosa humilhação interna. E sabia que poderia estar muito bem tropeçando nas próprias ideias quanto àquilo, talvez até exagerando àquele ponto, todavia: esperava muita coisa de si mesma quando estava no mundo da lua; ocorrência esta que era tão frequente quanto o próprio respirar.
A montanha de sentimentos se mesclaram aos pensamentos moribundos de uma jovem que mal podia lidar com a afeição adolescente. Ela tanto via na televisão cenas de séries em que garotas da idade dela tinham mais desenvoltura do que ela possuía na realidade. Ao invés de suprir tais traços para a em pessoa, guardava-os para quando quisesse sonhar com um mundo totalmente seu e no qual ela poderia ser quem quisesse, estar com quem quisesse e o melhor de tudo: não ser comandada por ninguém, além de si mesma. Ela era a dona de seu próprio programa, portanto, não tinha com o quê se preocupar. Pensar aquilo fez as bochechas esfriarem um tanto. Contudo, o falatório ao redor a fez acordar daquele conto de fadas; este o qual ela tinha concepção de estar vivendo a todo momento, muito embora não soubesse se teria um final feliz. Olhou para os lados, estática por ter se dado conta da realidade, finalmente, e suspirou.
Aquela manhã era totalmente voltada para sua emancipação de problemas, então tinha de focar em si mesma, ao menos naquele dia. Tinha esse complexo decadente de quem só era feliz se algo à sua volta também esbanjasse felicidade, e com algo ela pensava em alguém. Tão poucos os que a deixavam entrar; na verdade: ninguém, de fato. Ela era solitária nesse quesito, mas havia seu outro lado, o mesmo que ela transparecia a todo minuto, que era cheio e condecorado por todas as almas que a cercaram – e ainda a cercam, de certa forma –. Não tinha com quem conversar, tampouco sabia que teria a atenção de alguém caso proferisse a fala, mas o simples fato de escutar os demais já era o bastante para fazê-la sorrir timidamente, de modo que vez ou outra abaixava o rosto para esconder nas dobras folgadas de seu casaco. Contagiante era a preguiça, que bocejou umas trocentas vezes antes de finalmente ver casas: estava perto da vila, afinal. Desde que chegara em Keiwang, não havia tido a satisfação de conhecer espaço, tudo porque era considerada ‘criminosa’ para sequer sair dos limites do reformatório; Neste dado momento, entretanto, o sorriso alargou quando o som de crianças, pessoas comunicando-se e o vai-e-vem dentro das próprias casas, preencheu a audição da jovem Choi, que há muito não lembrava-se como era ‘estar em família’. Talvez aquele espaço cultural trouxesse de volta os ângulos de instantâneo prazer que tinha com os irmãos, quando eles tiravam tempo para mimá-la propriamente. Sentia saudades daqueles grandões e ficava cada vez mais intenso ponderar se queria ou não retornar para casa, caso fosse liberada para tal. Difícil mesmo, na verdade, era ter que encarar a face daqueles que ela no momento preferia esquecer.
Chegando ao local, ela parou e esperou pelas instruções, pois sabia que aquele pequeno grupinho seria deixado sob os cuidados de cada morador da vila, o que era bom já que eles conheciam tudo ao redor e teriam completo senso de limites àqueles que não o tivessem. Ahri olhou em volta, maravilhada como cada casa se diferia da outra, embora a estrutura fosse a mesma; Era o toque de cada morador que fazia a diferença, de fato. Foi só então que os olhos pularam por breves segundos para aquele do capuz. Virou o corpo novamente para a direção contrária, os pés andando de forma esquisita por estarem quase colados um no outro, quase como um pinguim, enquanto ela dava seus passinhos para onde o restante estava, completamente encolhida contra si. Ele veio, ele veio, ele veio, ele veio… Repetia intensamente na cabeça, pois esperava que quando ele tivesse se levantado, momentos antes de saírem do espaço anterior, fosse para ir para outro canto, não que acompanhasse-os para realizar a atividade do dia. Os dentes trincaram sob a breve menção de que travaria totalmente caso ele se aproximasse ou pior: prestasse atenção nos movimentos dela. Aquilo a faria desmaiar, decerto, por isso tentou não equivocar-se por causa de suas consternações bobas.