O clima ameno causado pela subsistência em solo brasileiro é algo extremamente intrigante, de fato. Desde meus dez anos de idade me vejo como um cidadão idealista, um sonhador, que coloca todas as suas abstrações sobre a realidade em um cenário a prova de falhas, utópico, mas concentrado com todas as suas supostas realizações se realizando uma de cada vez, dentro de uma caixa claustrofóbica, ancorada nos desejos da carne mantidos no mais íntimo de mim e de minha mente.
Esta caixa, rodeada de um mar sangrento, interminável, recheado de desilusões e autopiedade. Isso tudo porque não consigo me reconhecer como uma pessoa completa. Acredito que a manifestação material seja a resposta para todos os meus âmagos, minhas feridas mais internas, se Deus quisesse, poderia ser curada com o doce sabor, a anestésica sensação de possuir, superando em meu abstrato mundo de ideias, o tédio de possuir em todas as circunstâncias.
Vivo cercado de descontentamento e falta de propósito, acredito ainda que isso seja um reflexo geracional, causado majoritariamente pela visão prejudicada da realidade que me foi dada e desenvolvida ao longo dos anos. A falsa ideia de mudança me torna extremamente vulnerável a meus próprios fracassos, à minha solidão, minha sensação de inutilidade.
As ideias irrealistas e imaturas tomam conta de minha mente para abafar a sensação calorosa de descontentamento, de ruína de meus próprios sentimentos, a criação de cenários imaginários onde encontro a felicidade, traduzida através de bens materiais, viagens e realizações completamente idealizadas e em suma baseadas em impressões da realidade que vivo hoje, tomam conta de minhas noites, manhãs, tardes, enfim, qualquer pedaço de tempo disponível. Sempre que posso me vejo preso à esta ilusão, e toda vez que me arrisco em combater de maneira frontal minha própria existência, tentando ao máximo encontrar algum senso de pertencimento, vejo-me refém da frustração de ser indiferente ao mundo dos outros, cada vez mais abraçado a meu próprio mundo.
Albert Camus fala em seu livro “O mito de sísifo” sobre a transfiguração da imagem do sofrimento como realização intrínseca da natureza humana, substanciando o trabalho e o fardo encontrado nos dias mundanos, como sendo a materialização viva do próprio propósito do ser humano, inclusive, designando a este a obrigação de determinar qual é a verdadeira essência de seu sofrimento, e qual a motivação que faz o indivíduo suportá-la dentro de um determinado espaço social.
A sensação de pertencimento parece muito mais um dever, uma obrigação moral do indivíduo perante a sociedade do que de fato uma resposta objetiva garantida pelo meio material onde este se encontra localizado. A sociedade, em suma, não tem obrigação de garantir ao eu, um espaço que seja agradável, desejável ou minimamente respeitável. Não, a sociedade apenas se retroalimenta da própria percepção de como o indivíduo contribui para a existência desta dentro de seu espaço histórico e social.Mas como sobreviver, garantir a própria sensação de propósito, ou meramente encontrar alguma motivação de existir, enquanto a própria realidade é moldada a partir das mãos de outros indivíduos, que cada dia mais imaginam-se a si mesmo como detentores de direitos universalistas e irrestritos, garantistas da dominação tácita sobre a ideação social?
De fato, não encontrei na filosofia, uma resposta objetiva para essa questão. Afinal, a questão em si não é objetiva. É a máxima subjetivação do pensamento humano, a constatação da prática mais antinatural do mundo, a reflexão intrínseca que toca todo o espectro imaginário do ser humano, o senso de dever, de obrigação, de direito, de realidade. Seja a filosofia determinista, niilista, expressionista, empirista ou racionalista, nenhuma delas é suficiente para conseguir garantir a necessidade de minha existência de forma geral.
As vezes penso a respeito de meu autoextermínio. Como deveria fazê-lo? Afinal, sou um covarde, um clássico, tenho medo da dor, da sensação de morrer, logo deveria ser rápido, sou um católico romano, ou seja, tenho medo do inferno, da morte em sua mais objetiva definição, logo deveria ter tempo de me arrepender de fato afim de evitar esse prolongado sofrimento. E ironicamente também não sou um entusiasta da minha própria realidade/existência, logo deveria morrer. E no fim, não faço nada. Apesar de me torturar diariamente com o desejo intermitente de morrer, não consigo garantir a mim mesmo a verdadeira realização de morrer, então idealizo-me rico, ganhando numa loteria imaginária, livre da responsabilidade real de mudar.
Mas apesar de todos esses cenários, nada de fato me garante felicidade. Ainda penso se neste mundo existe alguma, ou se de fato um pequeno episódio, com duração de segundos, talvez minutos, carregue consigo toda expressão da definição de felicidade. Não sei, quanto mais indago, menos vejo necessidade de pensar, mas não mudo, pois não é de minha natureza mudar.
Por fim, me vejo já morto por dentro, um covarde, insatisfeito, talentoso, reflexivo, questionador, mas não passo disso, um covarde, um eterno sonhador, com ideias promissoras e relativamente simples, mas que devido sua própria falta de ação morrem como ideias, não como fracassos, não como sucessos, mas sim como ideias, nucleares, como vieram ao mundo, ou ao menos, como vieram ao meu mundo, e com elas, eu também morro.