( Melisa Asli Pamuk ) Pelos portões do Acampamento Meio-Sangue podemos ver entrar uma nova esperança. Anastasia Gauthier, filha de Tânatos, com seus vinte e oito anos, será a nova luz ao nosso lado.
Biografia
O que contam é que eu nasci em noite de tormenta, como se minha vida por si só causasse algum transtorno entre os mundos, entre o que era mortal e o que era divino. Se me conhecessem, alguns pensariam que eu não deveria existir, que minha existência carregava algo de sombrio e maldito e que um bebê jamais devia ser envolto por tamanha escuridão. Minha mãe queria acreditar que era seu medo falando e que, por trás da espessa aura fúnebre que me envolvia, não havia nada além de um doce bebê.
Minha mãe era uma paramédica. Estava acostumada a ter a morte rondando seu trabalho como uma ameaça, um aviso sombrio: falhe, e eu vencerei. Podia ter suas próprias sombras, mas mantinha um otimismo quase infantil, uma esperança teimosa, tão profundamente enraizada em sua mortalidade que se tornava parte de quem ela era. A vida era tudo o que conhecia e por isso a amava com uma intensidade feroz que a impelia a travar, todos os dias, uma silenciosa e incansável batalha contra a morte.
Talvez tenha sido isso o que encantou meu pai, Tânatos, que me confidenciou anos mais tarde que ela tinha sido uma das poucas almas que o fizeram pensar no que é viver.
Para ele, acostumado à quietude do fim, minha mãe era uma centelha inesperada, uma lembrança de que a vida, por mais breve e frágil que fosse, ainda tinha algo de belo. Ele a observava de longe, como quem contempla uma chama que não pode tocar, mas que o aquece à distância. E foi essa chama que o trouxe até ela, um deus da morte atraído pela simples teimosia de uma mortal em desafiar seu reino todos os dias.
Minha mãe, porém, sempre soube quem ele era. Desde o início, conheceu a verdadeira identidade de Tânatos e, ainda assim, o amou. Amou-o sabendo do peso de sua presença, da inevitabilidade que ele carregava. Não havia engano ou ilusão — ela olhava nos olhos da morte e, mesmo assim, escolhia viver.
E, como a maioria das misérias, tudo começou com uma aparente felicidade. Entre a mortalidade dela e a eternidade dele, eu vim ao mundo, como um segredo nascido do equilíbrio frágil entre o amor e a morte.
Nunca fui uma criança comum. Minha mãe, ciente do fardo que minha natureza traria, nunca escondeu minha origem. Afinal, como poderia? Enquanto as outras crianças desfrutavam dos anos cálidos de sua infância, eu parecia carregar um fardo, como se a vida que pulsava ao meu redor fosse um delicado fio prestes a se romper.
Enquanto crescia, Tânatos sempre foi uma presença à minha volta, um sussurro no vento, uma sombra que nunca me abandonava. Parecia ir e vir como o crepúsculo, surgindo quando o mundo parecia mais quieto, quando o véu entre a vida e a morte parecia mais fino. De alguma forma, ele sempre esteve ali.
Quando o eco da minha herança se tornou cada vez mais difícil de ignorar e minha presença no mundo mortal começou a ser notada, encontrei meu caminho até o Acampamento Meio-Sangue, guiada pela mão silenciosa de meu pai. Alí, entre os campistas e suas esquisitices, maldições, bênçãos e habilidades estranhas posso dizer que me sinto... Comum. E, honestamente, para alguém que ouve os sussurros da morte, me sentir comum era tudo o que eu precisava.
Concedi-me o luxo de experimentar a normalidade. A vida de um semideus não é fácil. Somos marcados por tragédias, e mesmo cercada pela morte, eu me sentia viva. Familiarizei-me tanto que acabei esquecendo que a vida e a morte não são opostos, mas partes de uma mesma dança eterna.
Perdi de vista que Tânatos e Eros representam opostos. Amei uma vez, e meu amor foi a primeira alma que colhi como ceifadora. Ele partiu em uma batalha feroz, e eis um fato sobre as batalhas: não há lugar melhor para que a bravura se encontre com a tragédia.
Despedaçada, jurei que aquela seria a última vez. Desde então, evito me permitir deslizar para o lado sentimental de ser mortal. Conheci a dor da perda e ela se tornou um muro em meu coração, e cada vez que uma nova alma se apresenta diante de mim, recorda-me do custo de me apegar.
Afinal, basta que um único ser nos falte para que tudo pareça vazio.
Arma
[ Casper ] Uma foice, forjada em ferro estígio. A lâmina de Casper é levemente translúcida e apenas Anastasia consegue enxergá-la por inteiro; para os demais é como se a lâmina fosse apenas um vulto negro, uma sombra. Casper tem o poder de retornar para Anastasia em qualquer ocasião, assumindo a forma de um bracelete. Recebeu o nome de Casper, como o fantasminha camarada.


















