beatermaster:
Apesar do distanciamento dos últimos meses Andrew acreditava que ainda conhecia bem o irmão, e fora baseado em tal crença que não deixara de perceber as mudanças singelas na maneira que Arthur passara a agir desde que fora resgatado. Conhecimento que também dava-lhe a noção de que o gêmeo mais velho jamais se permitiria demonstrar vulnerabilidades e incômodos – algo com o qual se identificava. Após seu incidente tudo o que Andrew sentira fora uma irritação constante que pouco lhe dava paciência para lidar com a família e demais pessoas ao seu redor, o que acabou por fazê-lo isolar-se a maior parte do tempo. Vez ou outra fizera coisas apenas para que largassem do seu pé, como na ocasião de seu aniversário em que só aceitara uma comemoração para que Arthur parasse de enchê-lo. Por aquela experiência sabia que fingir normalidade era a maneira mais fácil de ser deixado em paz, e parte de si acreditava que era exatamente o que Arthur pretendia. Ao menos era o que pensava porque lhe parecia ilógico que alguém recém saído do cativeiro agisse como se nada tivesse acontecido. Por mais que não existisse maneiras de comparar o que vivera com o que fora vivenciado pelo irmão, pela própria experiência, Andrew possuía em mente que nada seria tão fácil quanto Arthur parecia querer fazê-los acreditar. De sua parte não existia, ao menos momentaneamente, um desejo de contrariar as formas que o irmão lidava consigo mesmo, mas tinha em mente que precisava ficar atento para não correr o risco de que com o tempo tudo se tornasse mais denso e complicado. Para que ele não causasse a si mesmo ainda mais danos. – Rapaz, cada um tem o talento que merece e o meu sempre foi o de enrolar pessoas boas e inocentes. – disse, com certo deboche, e fingindo que não percebera que o mais velho seguia mais lento do que seria comum. Arthur sempre tinha uma resposta na ponta da língua para tudo, ele não costumava ponderar em excesso, mas percebera tal tendência na pouca ideia que trocaram desde que ele fora resgatado. – Aliás, de nada viu, irmãozinho. Bom perceber que tu segue um poço sem fundos de boa educação. É sempre encantador perceber o quanto nossos pais conseguiram nos educar com maestria. – riu-se, meio a contragosto, após lançar o que não era realmente uma provocação. Embora citasse os pais, e ali incluía a mãe-barriga-de-aluguel, não considerava que eles haviam errado com ambos, contudo, a verdade era que nenhum dos ex-corvinos aprendera o que era ter limites. Sempre tiveram tudo, sempre puderam tudo, e não era à toa que construíram uma fama não muito positiva. Nos últimos meses, em que tivera tempo de sobra para ponderar sobre a própria vida, Andrew fora capaz de ter uma melhor percepção de si mesmo. O que o fizera compreender melhor o porquê Alice o culpava pela situação causada por Arthur a Natalie. Embora nem sempre participasse das presepadas de seu irmão, em maioria Andrew não movia um só dedo para impedi-lo e muito menos o repreendia. E era ali que entrava sua parcela de responsabilidade. – Acredito que sim. – respondeu, um tanto disperso, a respeito da dita alta. Andrew mordiscava o piercing no canto de seu lábio inferior enquanto voltava a se perguntar como as coisas funcionariam quando Arthur retomasse a própria vida. Não queria soar negativo, mas duvidava que as coisas voltassem a uma dita normalidade. E naquele ponto queria estar enganado para variar. – Porém, nobre irmãozinho, como você chegou aqui neste inferno mais magro que o normal, acredito que ganhar uns quilos ajude no processo de acelerar a alta. Então, coma, ou comerei por você uma vez que não tenho mais nada para fazer. – disse, antes de pegar o celular que estava enfiado no bolso da calça. Checou as mensagens na tela de bloqueio e, como não possuía nenhuma que precisasse de resposta urgente, voltou a guardar o aparelho para que pudesse se concentrar no irmão. Embora estivesse ali todas as noites, muito pouco fora conversado entre ambos. Falta de diálogo que era principalmente motivada pelo fato de que Andrew não possuía a certeza de qual seria o terreno seguro ali. Naquele momento aproveitava o que considerava como uma brecha. A pergunta que fizera fora a mais óbvia possível, sabia disso, mas, uma vez que percebera a disposição do mais velho em responder abria mais brechas para que questionasse mais. Por outro lado, a resposta de Arthur o levava a pensar no momento que viviam no mundo bruxo, e em como não possuía as mais excelentes notícias. Se antes do sequestro do mais velho tudo já parecia fora do eixo, no momento a situação se agravara de maneira considerável. Embora continuassem a ter aulas, lhe parecia uma questão de tempo até que fossem suspensas. Ou, na melhor das hipóteses, aguardava-se o fim do semestre e o que ficaria sem definição seria o início do próximo. A única coisa certa para o momento era a suspensão do torneio de quadribol nacional. Decisão tomada poucos dias depois do sequestro de Arthur. Andrew não entendera muito bem do porquê daquela decisão, mas Fallon, com quem vinha convivendo um pouco mais por uma intervenção de Georgia, dissera que pela quantidade de pessoas distraídas que se reuniam no mesmo ambiente, campos de quadribol poderiam se transformar em alvos fáceis para os atacantes. Mais gente podia se ferir em meio àquele caos. O Ministério precisava se precaver. Rolou os olhos, exasperado. – Bom saber que tu tá disposto a voltar à normalidade, mas nem precisa te preocupar com o teu lugar não. As coisas continuam meio estranhas irmãozinho, e uma parte do time se encontra ausente. Sobrou pouca gente de qualidade e teu maior desafio vai ser com Bones. – disse, e pensar em Alice formara uma breve ruga em sua testa. As coisas entre ambos eram sempre fora do comum. - Ansioso para acompanhar os dois disputando quem é o melhor artilheiro e quem herdará a braçadeira de capitão. Ô. – comentou, com certa prudência, omitindo a informação a respeito do campeonato porque não sabia o quanto a perspectiva de mudanças no que esperava encontrar afetaria o mais velho. A última coisa que queria era deixá-lo agitado de uma maneira negativa. – Diria que um pouco de prudência não faz mal a ninguém, mas acho que tu tem lá certa razão. Não dá pra abaixar a cabeça pra essa gente maluca que acha que é melhor por causa de pureza de sangue. – e era o que mais se via os nascidos-trouxas fazendo. A maior parte dos que conhecia dera o fora do mundo bruxo assim que as coisas começaram a ficar radicais demais. Embora compreendesse, não acreditava que se esconder era a saída. – Rapaz olha a calúnia. – pontuou, com um risinho sarcástico marcando o canto de seus lábios, a respeito da alfinetada do mais velho. – Infelizmente não nasci com o cérebro grande o suficiente para ser nerd. Porém, em minha defesa, tive que me ocupar já que meu nobre braço passou os últimos meses bichado e inválido. Triste história. – e ainda não estava totalmente recuperado, e nem sabia se conseguiria alcançar o 100% de melhora. Embora tivesse perdido muito tempo para quem ansiava uma carreira no quadribol, os últimos meses deram-lhe a chance de explorar outras possibilidades. Gostava de ser voluntário nos abrigos de animais, assim como apreciava aperfeiçoar seu conhecimento no que sempre fora um hobby: investigar qualquer coisa diante da tela de um computador. A pressa que tivera logos nas primeiras semanas depois de seu incidente já não o acompanhava mais. – Bom, irmãozinho, certamente nossos pais não o deixarão longe das vistas de ambos ou serão relutantes em deixá-lo ir sozinho para qualquer lugar. Com a alma nobre que tenho me comprometo em acompanhá-lo sabe Merlin por onde. Ainda mais agora que você terá privilégios de sobra, e, por experiência própria, garanto que chega a ser excessiva a quantidade de privilégio não requisitado. Topo acompanhar, mas será que podemos selecionar melhor do crew? A maior parte dos teus camaradas são um pé no saco. – e embora talvez devesse ser mais ponderado no que dizia respeito dos amigos de Arthur, ao menos naquele instante ser direto lhe parecera a melhor opção. – But, antes de todo esse momento glorioso de exploração de genitores, preciso saber como está o meu irmãozinho. Sei que é uma pergunta idiota, mas, como alguém que dividiu a mesma placenta com você, é o que me cabe. E aí, o quão puto da vida você realmente está?
Quanto mais Andrew falava, mais Arthur ficava irritado. Uma irritação que não lhe era muito comum. Era uma emoção tão nova quanto a constante apatia que, por vezes, o colocava no status mudo completo. Seu maior sonho naquele momento seria ter privacidade, mas, conforme as palavras do irmão gêmeo ecoavam pelo ambiente, o ex-corvino tinha certeza de que não se livraria dele. Ou de qualquer outra pessoa, porque as visitas seguiam intermináveis. Apenas um viés de percepção já que seus pais também não saíam de cima. Mesmo ausentes, devido às condições do mundo bruxo, vira e mexe dava de cara com mensagens no aparelho novo que ganhara assim que abrira os olhos. Normalmente, adoraria aquele tipo de atenção. De certo modo, era naquele clima de excesso de afeto que costumava tirar mais da sua habitual vantagem de ser um completo privilegiado. Mas, bizarramente, não vinha querendo nem saber daquilo, ditando coisas da boca pra fora justamente para despachar quem fosse. Respirou fundo, sentindo a ínfima dor de cabeça que também parecia ser sua nova companheira constante, enquanto tentava inutilmente manter a atenção ao que o mais novo seguia tagarelando. - Depois eu como. - avisou de súbito. Apertou as pálpebras por alguns segundos como se tivesse acabado de despertar, mas era só uma tentativa de se afastar mentalmente do vai e vem de imagens do seu sequestro. Imagens que persistiam também e, quanto mais ruído, mais pareciam se tornar vívidas. De fato, aquela conversa fiada não era a distração que precisava. Realização que trouxe um pouco mais de irritação a já sua ativada impaciência de lidar com tudo aquilo. - Bones? - pescou o nome de um de seus desafetos e um risinho de escárnio lhe escapou. - Se não sobrou tanta gente de qualidade no time, me espanta que ela ainda seja mencionada. - virou o rosto para fitar o irmão. - Só você para ficar puxando o saco daquela mala sem alça. Aquela garota joga mal e todo mundo passa pano só porque ela é bonita. E a víbora sabe muito bem disso pra cantar vantagem. Não me espantaria se a própria tivesse trepado com o técnico pra ter aquele posto. Esperando eu ganhar essa aposta. - e sua última frase possuía malícia culposa. Não sobre si, mas sobre Andrew. Apesar de não saber o que ainda pegava entre Alice e o irmão, sabia que algo rolava. A tensão no campo era muito evidente e gerava curiosidade. Uma tensão de quem poderia ter trepado em algum momento no vestiário do time. Ou, como insinuara, poderia até ter sido no colo do mais novo que Alice dera uma sentada. Simples de se pensar para um Arthur que não via valor na dita cuja. Ela era um entrave. O seu entrave. E seria ótimo se ela simplesmente desaparecesse, pensou, sem remorso. - Mas, como todos dizem que ela é ótima, só me resta o árduo trabalho de provar o oposto. Fichinha! - se gabou enquanto se fazia confortável, mas era igualmente a expressão do seu deleite particular em derrubar Alice da vassoura. - E quem saiu do time... Nada que não possa ser substituído. - concluiu, ignorando a parte do seu próprio comentário sobre puristas. Arthur não tinha a menor ideia do que seu sequestro poderia lhe causar, mas alguns sintomas já vinham à tona. A raiva era a mais tangente, que o cansava por estar claramente estagnada em seu ser. Com essa estagnação vinha outros sentimentos que nunca lidara, como um tipo de ansiedade que se fazia presente antes de dormir. - Tudo que eu precisava mesmo. Babás extras. Vem cá, você não tem mais o que fazer, não? Assim, de boaça mesmo! Não tem um dia que esse quarto não fica em silêncio. - disparou com um azedume atípico, sentindo seu tórax inflar. Prendeu a respiração e a liberou em um bufo. - Que seja! - resmungou, meneando a cabeça negativamente. - Selecionar melhor o resto do crew? Sério? - voltou a encarar o irmão e revelou uma sobrancelha arqueada inquisitivamente. - Gordon Bennett! Tô tentando decidir quem é mais pé no saco no momento. - revirou os olhos com impaciência. Arthur não tinha filtro para saber quem merecia ou não andar ao seu redor. Ele adorava estar rodeado de pessoas e, intimamente, se viu nem um pouco interessado em tornar uma viagem intimista só porque seu irmão mais novo não queria. - Que seja! Eu não sei ainda para onde vamos, mas, provavelmente, para um canto que faça calor. Mais calor ainda, quero dizer. Até receber alta é capaz de eu ter um plano completo e tomarei cuidado em levar seu sentimento em conta para revisar a lista de convidados. - ironizou, com uma clara expressão de desgosto. - Não estou puto da vida, irmãozinho. Eu estou até que em paz. - e era fácil crer que ele estava mesmo em paz, pois sua voz voltara a ser monótona e suas informações lacônicas. Mas, de fato, ainda não se via puto da vida e acreditava que aquelas emoções estranhas que o atormentavam surgiam meramente diante da ideia de estar em um hospital. Odiava se sentir preso e, pelo visto, aquela sensação se intensificou - ao ponto de ser julgada como normal. - Eu só não vejo a hora de voltar a me movimentar e fazer as minhas coisas. - e, para dar aquele papo como encerrado, pegou o lanche que Andrew trouxera, por ser justamente a única coisa da qual poderia se ocupar e ficar em silêncio. - Nada a se preocupar, irmãozinho. Logo menos estarei de volta.

















