Georgia não tinha a menor ideia dos motivos que a tiraram da cabana visto que, especialmente por causa do frio, vinha evitando ao máximo colocar até mesmo a ponta do nariz para fora. Havia outros pormenores, obviamente, como sua constante oscilação de humor que a deixava em períodos mais longos, e praticamente intermináveis, entregue a depressão que seguia dominando cada célula do seu corpo. Ainda mais naquela época, cujo marco da sua primeira tentativa de suicídio se aproximava. Se fosse só isso, talvez estaria um tanto mais no lugar, mas, desde que novembro se fizera presente, sua vida se tornava cada vez mais estreita, representando a briga entre seus transtornos e as lembranças e as sensações do seu desdobramento, e que sabia que daria em um beco sem saída, e orientada por uma rotatória, que simbolizava seu constante e não solucionável espiralar sobre tudo que vivera nos últimos dois anos. Vinha relembrando tudo que vivera de ruim, produzindo outra concha de retalhos que ofuscava qualquer tentativa de seguir se recuperando daquilo tudo. Para piorar, ainda sentia a sombra de Margaret Fraser pesar sobre si e não negava que absorvia toda a angústia de William, que também não vinha tendo dias muito fáceis, especialmente aqueles que marcaram seu sumiço seguido de suposta morte que a deixara enlutada. Era muito, mas Triggs jurava que estava lidando com tudo corretamente. Falava vez e outra sobre seus incômodos, mas, conforme dezembro avançava, tudo que vinha fazendo era tirar a atenção de si. Nunca experienciara tanta mudança emocional em tão curto espaço de tempo, que incluía as que a faziam se depreciar - agora com um tanto mais de afinco -, e tinha medo de se ver atacando as pessoas ao seu redor por conta disso. Algo que era muito craque e não queria repetir a dose. Nunca tivera tanto medo de se pegar cogitando sobre uma nova maneira de se aniquilar do planeta e sabia que uma hora chegaria naquele ponto para tentar, de novo, interromper o constante rodopio mental que não lhe dava calma e nem solução. Era uma tortura e nunca temera tanto sua própria companhia como naquelas últimas semanas. Poderia ter Jacob para distraí-la ou suas façanhas que sempre acabava odiando, mas, uma vez sozinha, uma vez entregue ao combo de coisas ruins que insistiam em engolfá-la novamente, não conseguia evitar o gosto amargo daquelas lembranças e daquelas vivências que vinham forçando a porta mental que guardava seu desdobramento sob um véu de esquecimento. Não vinha se sentindo a melhor companhia, se esforçando bastante em maquiar algumas coisas, mas o convite de Andrew pareceu uma boa oportunidade de tirá-la da sua própria mente traíra e tacanha. Ali, caminhando ao lado dele, tentando aquecer as mãos enluvadas, tentou capturar a razão de ter finalmente saído. Talvez, fosse o desejo de se sentir menos sobrecarregada. Talvez, fosse uma tentativa para não inventar uma desculpa e encher a bunda de vinho antes da hora do almoço. Talvez, fosse o fato de que não queria mais ficar sozinha. Fosse o que fosse, era dezembro. Mais um mês aterrorizante da sua vida. Não podia se aproximar do penhasco. Nem contemplar o quanto seria bom a vida dos outros sem sua existência, fato esse que sua depressão vinha tentando reforçar dia após dia graças ao seu terror engrandecido pela ansiedade de acabar morrendo se tentasse mais uma estupidez. Tinha noção de que não queria aquilo novamente. Não queria causar dor a mais ninguém, mas sua dor voltava a atingir picos insuportáveis. Não tinha uma mente confiável. Nem transtornos amigáveis. E nem ela servia para ser uma âncora pessoal. Talvez, estivesse realmente ali porque era sua reação desesperada de calar as distrações controversas que convivia diariamente. Talvez, fosse seu pedido de socorro, pois, acompanhada, parecia uma garota normal. Sem nenhum tipo de problema pessoal. E era bom fingir por algumas horas que era aquela garota. Uma garota que sabia que falecera nos jardins de Hogwarts e, analisando os entornos, percebera como aquilo ainda a matava. Independentemente de ter ou não a imagem do que a destruíra. - Respeite minhas pernas curtas, por favor. Tenho um ótimo par de botas. Mas, se o princeso quiser me carregar no colo em algum momento, não me farei de difícil. - apontou para as botas coloridas, customizadas da mesma maneira que seu All Star branco, em mais um cenário de tédio em Hogwarts. - Ah, então você segue como o garotão cheio das surpresas? É um grande paspalhão mesmo. - deu-lhe uma cotovelada de leve, algo fácil visto que enfiara as mãos dentro dos bolsos da sua jaqueta. Durante todo o percurso de reconhecimento, tentou encontrar um ponteiro que a tornasse uma pessoa mais agradável. Ainda tinha vívido em sua mente a primeira vez que reencontrara Andrew e o quanto se sentira horrível. Claro que nada se comparava ao cenão que deu em uma das festas dele. Ainda se sentia muito culpada por aqueles dois atos, sendo o segundo dono de um peso ainda muito excruciante em sua existência diminuta. Foi quando se lembrou de que trouxera algo para ele e criou uma nota mental para entregar assim que estivessem em um local mais apropriado. Como outro método de distração, vinha escrevendo cartas para algumas pessoas e torcia para que ninguém entendesse aquilo como uma nova despedida, embora fosse um risco a se correr. Afinal, ninguém sabia o dia de amanhã. Todos os dias de Georgia eram uma incógnita porque ou despertava muito bem ou tão mal ao ponto de não conseguir se mexer na cama. A merda total vinha daquela merda de clima, que aprofundava seu estado deprimido e não pensara duas vezes em comprar um aparelho de luz solar artificial. Era sua compra mais cara no momento e amargurava drasticamente, mesmo que tal aparelho desse um tanto de alívio durante sua exposição. Era um mecanismo que até conseguia fazê-la dormir um tanto melhor. - Olhe, garoto, me impressionar não tem sido uma tarefa muito complicada. Veja bem, basta você dizer que gosta de mim. Ou exaltar minha beleza. Ou dizer que minha companhia é a melhor da sua vida. Qualquer uma dessas opções é o suficiente para mim. Mas daí eu tentarei anular sua opinião porque não faz sentido algum gostar de mim, ou me achar bonita ou aguentar minha companhia. E teremos uma briga por causa disso e eu sei que ganharei. - declarou em um tom de normalidade. Seus argumentos vinham de um ponto de verdade já que seguia refutando as ditas positividades. Era mais forte que si. Acontecia automaticamente. Era um pingue-pongue em que Georgia era rápida demais para cortar qualquer coisa boa sobre sua pessoa com um ataque verbal que considerava certeiro. - O único ponto que consigo ter clareza para defender é o escocês de dois metros. Ele é impressionável, amiguinho, justamente por ser escocês e por ter dois metros. Não tem como competir com isso, pois custa muito para uma garota do meu tamanho encontrar um homenzarrão daquele que te cobre inteira enquanto você dorme. E eu sou adepta de um bom abraço de conchinha. Só não digo que poderíamos fazer um test drive porque eu sou uma moça muito da comprometida. Sem contar que já fui convencida de que o escocês faz muito bem esse trabalho. Na próxima reencarnação, tente chegar mais cedo, muito embora nós dois saibamos que não sou seu tipo. - rebateu com um raso humor que tentava encontrar mais força de expressão nos lábios pressionados da ex-sonserina que se poupavam em um sorriso contido. Olhou-o por alguns segundos, com certa malícia em efeito à menção de que ela não era o tipo dele. Se não estivesse muito errada, Alice Bones era o tipo de Andrew Badcock. Preferiu não mencionar nomes, deixando a mensagem como uma suave indiretinha. - Awn, stop! Esse lugar é adorável. Eu só estou com essa cara de bosta porque é a única que eu tenho ultimamente. E, pra foder mais, eu acho que vou ficar resfriada graças a esse tempo. Minha imunidade anda meio bosta. - e os remédios contribuíam de certa forma com isso para aumentar ainda mais todos os incômodos que Georgia carregava sobre si. - Obrigada por me deixar vir com você. Eu não sei o que deu em mim, mas eu estava cansada de ficar presa. Prometo que me comportarei. Sem nenhum surto. - garantiu, mesmo consciente de que seus surtos eram difíceis de controlar. Respirou fundo, tirando as mãos dos bolsos para se livrar das luvas. Ultimamente, vinha sentindo um formigamento estranho nas pontas dos dedos que a fazia raspar as unhas para sentir um pouco mais de alívio. Deveria ser coisa da sua ansiedade, sempre muito presente, fazendo-a sentir um súbito nó na boca do estômago e resfolegar como para aliviar aquele súbito incômodo. - Só espero que me mostre onde é o banheiro porque eu preciso liberar meu xixi de ansiedade logo menos. - murmurou, em tom secreto, porém, debochado. - A parte do banho é minha favorita. Eu poderia dar banho em cachorros todo dia. É um tanto terapêutico e Kiwi adora. - e deveria ter perdido as contas das vezes que havia dado banho nela porque assim queria e porque não tinha nada para fazer. Algo que pensou em compartilhar, mas Andrew a acharia uma maldita biruta. Continuou a segui-lo, olhando os arredores, temendo um pouco aquele montaréu de árvores que pareciam vivas, mas eram reflexos de um flashback que disparou suas defesas e a roubou da realidade por alguns segundos. Empacou, de repente, e, quando voltou a si, Andrew nem havia notado. Sentiu-se aliviada porque aqueles recortes mentais poderiam gerar qualquer tipo de coisa. Como o próprio medo de morrer, o que a faria engatinhar para o ataque de pânico, ou para a paranoia que era tão aditiva quanto os sintomas do estresse pós-traumático. E tudo agora tinha mais intensidade porque sua mente e seu corpo sabiam que mês vivia e o peso que aquele mesmo mês tinha. Apertou o passo para alcançá-lo e pegou o papo dele pela metade. - Eu me senti culpada porque eu comprei Kiwi, mas eu troquei meus ingressos da Broadway por um cachorro. Mas eu não sei como as pessoas podem recusar os adultos, sério. Eles são as coisinhas mais adoráveis também, dá vontade de socar a cara deles. - Georgia fechou o punho esquerdo e socou a palma direita aberta. Girou o punho, como se amassasse algo, seu olhar fustigando, como de alguém que acabara de descobrir que queria muito um brinquedo, e seus dentes cerrados deixaram seu rosto com uma expressão de quem aprontaria alguma coisa. - Os adultos precisam de mais carinho, mas eu entendo a preferência por filhotes. Veja, minha mãe se sentiu impossibilitada de me recusar ao notar meu tamanho. E, veja bem, eu continuo sendo um filhote porque não cresci e, se pudesse, seguiria mamando na teta dela. - brincou e se sentiu meio ridícula. - Desculpe. - murmurou, ficando nas pontas dos pés para ver o que tinha além da porta. Ao longe, conseguiu ouvir os chorinhos que transformaram seus dedos em garras. Já conseguia se imaginar apertando todos aqueles cachorrinhos e, se fosse outra época, já teria passado por cima do ex-corvino. - Pelo hipogrifo pelado, você vai ter que chamar a polícia para me tirar daqui. - passou por Andrew, assim que ele lhe cedeu passagem, e empacou no meio do corredor, mas não por muito tempo porque já se viu agachada em frente a um pequeno canil, recebendo lambidas em seus dedos. - Me poupe, se poupe, nos poupe. Nada de avental, deixa de frescura. Tem sabão em casa. - alegou em um tom chispante corroborado com um aceno de mão. - E a gente vai lá fora brincar com eles, não vamos? - virou pra ele, revelando um olhar estreito e uma expressão fechada. - Porque eu acabei de decidir isso por nós dois. - voltou a dar atenção aos cachorros eufóricos. Nem percebeu que ria sozinha e que falava um maldito auauês. - Quem é o nenê de GG, hum? - murmurou, alisando as orelhas de um cachorro que nem sabia qual era a raça. Levantou-se, meio relutante, e bateu continência a Andrew. - Pois então vamos pegar essa ração. E me ajude porque eu sou meio exagerada. - e aquilo denunciava que, às vezes, nem media o quanto de comida dava para Kiwi. Só em duas semanas a sua pet teve dores de barriga e se sentiu a pessoa mais horrível do planeta. Não estava tão atenta quanto antes e demoraria um bocado para recobrar seu cerne. Isso, se realmente fosse recobrá-lo algum dia, algo que tinha dúvidas conforme os dias avançavam. - Hum… Minha vida? Não tem nada de bom para contar. Sou entediante, deprimida e tomo medicamentos, ao contrário de você, o hétero privilegiado que vive na balada e colecionando fios cheirosos. - tocou o canto da bochecha dele com o indicador assim que ficou nas pontas dos pés de novo. Em seguida, enfiou as luvas nos bolsos da jaqueta. - E como está o seu braço? Melhor? Ai, cala a boca. Não sou obrigada a ouvir que sua vida é chatíssima. Isso fere meus sentimentos de quem terminará na camisa de força. - empurrou-o de leve e recuou a mão rapidamente porque não sabia se tinha acertado o ombro bom ou o bichado. - Desculpe. Eu não consigo conter minhas brincadeiras de mão pelo visto. E a culpa é toda sua, ugh! - girou nos calcanhares para alcançar o ponto onde tinha as rações. Sorriu para alguns cachorros próximos enquanto tirava sua pequena mochila das costas. - Antes de você começar a falar das suas aventuras, eu preciso te dar uma coisa. Vem aqui. - chamou-o com o indicador. Apoiou a mochila nos seus pés e, de lá, tirou uma caixa com uma carta em cima. - Faz décadas que queria te pedir desculpa pelo que fiz na sua festa. Eu sinto muito. Eu não queria ter provocado toda aquela zona e foi por isso que recusei ir ao seu aniversário de novo. A propósito, feliz aniversário, Andrew. - silenciou para tomar fôlego. A velha maldição de tagarelar e sua ansiedade ir roubando seu ar no processo. - Mas, hum, é aquela versão de mim que se apresenta quando estou sem medicamentos e, de quebra, enche o rabo de álcool pra tentar afundar tanta merda por segundo. Não queria estragar sua festa. Nem muito menos reforçar meu rótulo de maluca. Eu sinto muito, de verdade. Não sou mais a garota funcional de antes, a que costumava andar com você, e, talvez, eu tenha passado a ideia errada. Enfim… - mirou os pés por alguns segundos a fim de afugentar o constrangimento. - Me desculpe. - tentou sorrir, mas seu sorriso desmoronou no instante em que fungou para afugentar aquele desejo de chorar. Seus olhos se turvaram e se apressou para ajeitar a mochila nas costas e ir se distrair com outro canil. - A propósito, não sei se você, hétero e atlético, come doces, mas aí tem uns cupcakes que eu fiz. É de limão e tem o número ridículo da sua camisa de Quadribol. - espiou-o de viés. Sentia-se desconfortável e inadequada. Aquilo abriria para o que já floreava sua mente e precisava de distrações. Algo que veio facilmente quando foi atraída por um filhote ao fundo do canil que se aproximara. - Santo Deus, esse cachorro tem coração ao redor dos olhos? - praticamente berrou, se levantando de pronto e indo puxar Andrew pra ver. - Me tira daqui ou eu vou colocar esse cachorro dentro da minha mochila. - e não estava mentindo. Georgia agitava as mãos e trocava os pesos dos pés em excitamento. - Então, você me disse que qualquer pessoa pode vir aqui. É verdade ou eu ouvi errado? Eu adoraria dar banho nos cachorros, mas acho que terminarei presa por furto de doguinhos. Você é um péssimo amigo, Andrew, um péssimo amigo, que conseguiu me impressionar. É, você conseguiu e William Fraser terá que me arranjar um hipogrifo agora, coitadinho. - meneou a cabeça teatralmente e cruzou os braços. - Hum… Tem chance de eu pegar o dog com olhos de coração? Eu acho que ele me ama já. E, a propósito, não me escape de contar sobre sua vida. Como foi seu aniversário? Você finalmente se revelou como o gêmeo malvado e afogou Arthur? E vou ter que repetir a pergunta sobre seu braço porque ainda não consegui entender o que rolou aí.
Desde o seu incidente no início de setembro, o humor de Andrew oscilava mais para o polo negativo do que para o positivo, um dos motivos primordiais para que preferisse certo isolamento a se manter cercado de pessoas. Paciência para lidar com o falso interesse alheio não existia em si, principalmente nas primeiras semanas de recuperação. Naquele instante, três meses depois, e com o tratamento já pela metade, o ex-corvino começava a se sentir mais confortável com determinadas situações, e em estar ao redor de pessoas. Novas pessoas em maioria, porque o grupinho que o cercava antes não era-lhe assim mais tão interessante. Um desinteresse que ganhava força na ideia de que aquelas pessoas que andavam para cima e para baixo consigo e com seu irmão gêmeo não possuíam uma real amizade por si. Eram relações extremamente fúteis que se baseavam na eterna vida de balada que possuía antes de seu incidente. Se podia tirar alguma lição positiva da merda que o abatera, era a de escolher com um pouco mais de cuidado com quem gastava seu maldito tempo. Fora justamente baseado nesse pensamento que decidira que era uma boa ideia convidar Georgia Triggs, sua antiga principal parceira de crime, para conhecer o lugar em que gastara boa parte de seu tempo no último mês. – Rapaz, tu falou tão bem do escocês magia que me deixou curioso. Será que tenho uma chance de furar teu olho, little G? – questionou, em um tom de voz que deixava claro que estava apenas zoando a mais velha. – Me parece o único caminho, já que, aparentemente, é impossível furar os olhos dele. A senhorita acaba de partir o meu pobre coração com esse papo aí de chance só numa outra encarnação. Eu tinha preparado todo um discurso romântico e enaltecedor, que nem tu com todos os teus esforços conseguiria desvalidar, em uma tentativa de seduzi-la. Porra, agora me sinto frustrado, vamos acabar o passeio por aqui. – continuou, com a mesma descontração em seu timbre. – E, rapaz, quem te disse que tenho um tipo? Por quem me julgas, little G? Ok que é verdade que normalmente me relaciono com morenas um tanto mais altas que a senhorita, mas, em minha defesa, devo dizer que são elas quem tem um fetiche por caras como eu. Altos, não tão bonitos, mas com uma popularidade que ninguém entende de onde vem. Você acha que eu diria não para uma dama? Jamais. Apenas ofereço meu colo como um homem bem educado por dois homens que sou. – Andrew arqueou uma de suas sobrancelhas em um gesto que era quase cômico. Porém, Triggs não estava tão errada em supor que ele tinha um tipo. Um bem especifico. Um que não perdia uma única chance de aporrinhar a porra do seu juízo. No entanto, tudo o que envolvia Alice Bones, as emoções e sensações que ela movia em si, era desconhecido e desconexo, e preferia não pensar muito a respeito. Era uma perda de tempo uma vez que estava ciente da imagem extremamente negativa que a ex-sonserina tinha de si. E, apesar do que rolara em seu aniversário, acreditava que nada tinha mudado. – Rapaz, eu quem preciso te agradecer por ter vindo. Tu é a primeira pessoa que trago aqui, sabia? Então, apesar de minha chance está marcada apenas para a próxima encarnação, nós meio que estamos em nosso primeiro date. Que William Fraser não me ouça. – meneou a cabeça, vezes seguidas, corroborando o que dizia. Andrew girou nos calcanhares para que voltasse a ficar de frente para os canis. Andou pelo corredor, conferindo se todos os animais tinham água ou se precisaria trocá-las. Parou no mais próximo ao lugar em que Triggs se encontrava e acariciou a cabeça do filhote que chamava animadamente sua atenção. Se pudesse, teria levado alguns daqueles animais para a casa de seus pais, mas sabia que ambos surtariam com a bagunça e o barulho. Uma risada alta e rouca escapou ao ex-corvino diante do comentário de Georgia. – Imagem interessante essa tua mamando na tua mãe. Porra, agora vou me sentir um pervertido. Valeu, little G. – Andrew tentou fazer um joinha duplo para a ex-sonserina, mas ainda possuía alguma dificuldade em fechar sua mão direita. Algo que vinha trabalhando de forma árdua na fisioterapia. Para disfarçar aquela dificuldade o adolescente tratou de colocar a mão no bolso do casaco. – Pois bem. Já que tu curte um banho e bagunça, saiba que fazemos isso aqui todas as terças com os adultos, e todas as quintas com os filhotes. Tu vai sentir saudades de ter só tua bolinha de pelo pra banhar. – riu-se uma outra vez. – Fica de boa little G. A maioria das pessoas que compra pet não tem muita ideia de que rola mô merda nesse mercado. Você está perdoada pela troca porque está claro que cuida bem demais da pequena Kiwi. – disse, muito de boas, mesmo que tivesse infinitas ressalvas com o comércio de animais. Ressalvas que tornaram-se ainda mais fortes depois de participar de alguns resgastes. O tratamento dado as fêmeas era o pior possível. – That’s my girl! – exclamou, com uma óbvia animação ao fato de Triggs recusar os tais aventais. Ele mesmo não os usava, porque achava uma frescura sem precedentes. – O que tu não me pede sorrindo que não faço chorando, little G? Nós podemos levá-los para esticar as pernas um tanto, até porque me deixa agoniado que eles fiquem o dia inteiro dentro desses cubículos. – resmungou, mesmo que soubesse que os canis tinham o tamanho adequado para que os filhotes se movimentassem. Ainda assim, Andrew preferia vê-los livres o tempo inteiro, o que sabia ser impossível àquela época do ano. As palavras seguintes da ex-sonserina o fizeram franzir o cenho. Andrew havia notado uma clara tendência depreciativa, que em nada combinava com a Georgia com quem costumava matar aula na época de Hogwarts. Se o ex-corvino não tivesse presenciado a briga entre ela e William, na festa que oferecera em Abril, não teria a menor ideia de onde aquilo vinha. Ponderou se poderia dizer algo, mas como não possuía um real espaço na vida dela, restava-lhe a opção de ser sutil. Norte de pensamento do qual se viu retirado ao sentir o empurrão de Triggs em seu ombro esquerdo. – Tá de boas, little G. Pra sentir o impacto do teu empurrão tu teria que aplicar mais força. – provocou, divertido, enquanto levava a mão esquerda até sua nuca, bagunçando os cabelos daquela região – um costume que adquirira nos meses em que tivera seu braço direito imobilizado. Andrew caminhou em direção a ex-sonserina, parando exatamente diante dela. Assim, tão perto, a diferença de altura entre ambos ficava mais evidente, o que sempre lhe fazia achar certa graça. Em Hogwarts costumava se utilizar da diferença de altura para apoiar o braço na cabeça de Triggs, o que, constantemente, lhe rendia uma cotovelada nas costelas. Eram bons tempos. – Ih, rapaz, não precisava se desculpar não ô. De boas mesmo, little G. Deu pra sacar que as coisas não estavam muito legais pra ti naquela época, e espero que tenham melhorado. E aí se tu quiser bater um papo sobre a vida e tal, eu estou com dois ouvidos disponíveis. Eu sei que tu tem o escocês bonitão e a nerd extremamente atraente a disposição, mas querendo trocar uma ideia, é só chamar. Além disso, certamente serei uma companhia mais divertida. E mais atraente. – novamente se viu lançando uma piscadela em direção a mais nova. Andrew sabia muito bem como manter, até o mais sério entre os papos, com certa descontração. – Quanto ao meu aniversário, se pudesse eu mesmo teria evitado. Até me dei bem no fim das contas, mas a festa em si foi só problema e prejuízo. Whatever. Valeu little G. Pode rolar abraço ou é contra o protocolo da mulher comprometida? – questionou, fazendo graça, enquanto se aproximava para dar um meio abraço na mais velha. Andrew depositou um beijo rápido no cocuruto de Triggs no mesmo instante em que pegava a caixa que ela lhe oferecia. – As pessoas passam por situações que as transformam, né? A partir disso, o importante é se manter por perto de quem te faz bem, e de quem realmente se importa. Parece a única forma de se encontrar quando tu te sente perdido. Daí que se tu quiser, nós podemos ser malucos juntos. Na boa, little G, não precisa mesmo se desculpar. E, mentira que tu lembra o número da minha camisa? Rapaz, William Fraser se prepare que tô no páreo. - embora estivesse falando sério a principio, sua última frase soara completamente descontraída. - Eu agradeço de verdade pelos presentes. Deixarei para ler a carta em casa, onde posso me debulhar em lágrimas muito másculas, porque se fizer isso aqui te darei munição para chantagens. – um sorriso largo curvou os lábios do ex-corvino. Andrew tirou a mochila de suas costas e, com cuidado, guardou a caixa e a carta dentro dela. – Rapaz, eu como é tudo, ainda mais agora que estou afastado dos treinamentos e tal. Só não irei propor que os devoremos agora mesmo, porque corre o risco de sermos massacrados por filhotes e etc, mas, quando sairmos daqui, estaremos mortos de fome, daí a gente mata rapidinho os cupcakes. Valeu mesmo, little G. – Andrew pensou em dizer algo mais, porém Georgia disparou em direção ao canil do fundo. Riu-se diante da cena dela com o ultimo filhote de dálmatas que tinham ali. – Rapaz, capaz que ele caiba na tua mochila, vou ficar atento. O irmão dele, que foi adotado no começo da semana, tem um coração ao redor do focinho. A mãe não tem nenhum coração no pelo, mas é bem amável e também foi adotada recentemente. Esse campeão aí é o último da família que temos aqui. Se você quiser mesmo levá-lo, bom, posso ajudar para adiantar os processos, daí você já pode levá-lo hoje mesmo. – normalmente, o processo de adoção durava alguns dias, pois se precisava ter a confirmação de que quem adotava era capaz de cuidar do animal, que, em muitos casos, já vivenciara maus-tratos. – Rá! Eu disse que te impressionaria a ponto de fazê-la esquecer da magia do escocês. Nem adianta me chamar de péssimo que o balão do meu ego inflado já tá batendo no teto. Na moralzinha. – brincou, enquanto ia buscar o saco de ração, que segurou com braço esquerdo onde tinha mais força. Andrew voltou a se posicionar ao lado de Triggs. – Tentarei fazer um resumo rápido do que rola no momento; antes mesmo das férias, já estava afastado dos treinos de quadribol por causa da contusão. Só participo das aulas teóricas e nem sei se volto a prática. Eu tive uma fratura de ombro, rompimento de tendões, inchaço nos nervos. Como precisei ficar com o braço imobilizado por um tempo, rolou um enrijecimento, e é isso que tenho trabalhado na fisioterapia. Mas, não há garantia de recuperação total, embora os medibruxos estejam animados. Ainda assim, preciso pensar em um plano B, mas sei lá porra, isso meio q me deixa de cu cheio. – como era seu costume ao se sentir irritado, Andrew mordiscou o piercing no canto do lábio. – O que aconteceu comigo tem a ver com Arthur. Eu não sei direito quem ele irritou, mas a pessoa queria quebrá-lo, e paguei o pato porque nos confundiram. Não o culpo, nem nada, mas não teria acontecido se ele pensasse um pouco antes de agir. Alice Bones, lembra dela? Contou isso a Arthur, no nosso aniversário, e desde então nossa relação deu uma piorada considerável. Ela também me disse algumas coisas que tenho pensado a respeito, isso antes de tirarmos a roupa um do outro. Mais um fio cheiroso pra minha coleção. – comentou, displicentemente, tentando não transparecer que tanto a situação com o irmão, quanto a com Alice lhe davam motivos para refletir. – Antes que você se anime, Alice segue me odiando pra caralho, o que é até meio cômico. – riu-se, meio a contragosto, enquanto abria o saco de ração. – Voltando aos animais, sim, qualquer um pode vir aqui. Quanto mais gente melhor, porque realmente estamos sempre precisando de ajuda e tal. E, não é muito difícil alimentá-los. Os potinhos são do tamanho adequado pra cada um deles. Você alimenta os da direita e eu os da esquerda. Depois que eles comerem, nós os levaremos pra fora. Nesse meio tempo tu pode ir desembuchando sobre tua vida, porque me interesso. Vai que tem um espaço onde posso me enfiar. Vamos lá, little G, estou interessado em saber como William mudo Fraser venceu sua friendzone.