(Fotografia de Vanessa Rodrigues )
O que me fez participar neste laboratório?
As razões que me levaram a participar no laboratório Rescuing Oral Memory prendem-se com um interesse pessoal relacionado com o resgate e registo de memórias da tradição portuguesa, mais concretamente, relacionadas com a música produzida por instrumentos tradicionais portugueses. Também explorar as técnicas para o fazer, como sejam captar e registar digitalmente uma história, articular a escrita, o áudio e a imagem e compreender a importância e formas de as disseminar são pontos de interesse a pôr em prática, por considerar a memória um meio para (re) construção da minha/nossa identidade.
Quis também conduzir a minha motivação na construção e partilha de memórias de uma comunidade pois achei que me ajudaria a compreender porque são tão importantes as nossas memórias e como esse conhecimento e a partilha podem auxiliar na construção da nossa consciência enquanto indivíduos e membros de uma comunidade sócio-cultural.
O que fiz enquanto membro deste laboratório?
Inicialmente, assisti em contexto de sala de aula, à exposição de algumas técnicas de entrevista e de captação audiovisual através de exemplos de documentários com registo de memórias de pessoas que habitam um determinado local, no caso particular, a cidade do Porto.
(Fotografia de Luís Barbosa)
O objetivo foi dar uma lógica linear ás narrativas e, simultaneamente, torna-las mais interessantes do ponto de vista emocional.
Foi-nos apresentado o local a intervir - a Ilha da Bela Vista,que irá sofrer uma reabilitação urbana - e os seus habitantes, que viriam a ser os nossos entrevistados, os nossos “contadores de histórias”.
Este momento de recolha dos testemunhos dos habitantes, das suas histórias e práticas quotidianas na Ilha, e o que expectam é importante dado a alteração que este espaço virá a sofrer.
Formamos equipas de 2 elementos, escolhemos o entrevistado e preparamos um plano de pré-produção com a elaboração de entrevista e do raíder técnico.
Na segunda parte do laboratório, na sessão da tarde procedemos à produção in loco, na Ilha da Bela Vista, casa da D. Ana, nº 10.
Chovia torrencialmente o que tornou o registo ainda mais próximo da vida e do ADN da cidade do Porto, pois permitiu a captação de uma característica eminente à nossa cidade, a chuva e a humidade.
(Fotografia de Vanessa Rodrigues )
Procedemos à entrevista, cuja duração foi 1h46, com a respetiva captação de áudio e de imagem, essencialmente, do espaço interior da casa, “o mundo” da D. Ana.
Posteriormente, verificamos os registos e discutimos algumas ideias para a conceção da peça com a duração mínima de 3''.
Verificamos que obtivemos melhor registo áudio, em termos plásticos, que fotográfico, o que para a nossa “peça” foi fundamental.
A terceira sessão, a edição que (no meu caso particular) se traduziu numa áudio narrativa com pequenos apontamentos de imagem em slow motion para realçar o áudio.
A nossa opção foi tornar a nossa “peça” num registo radiofónico, pois verificamos que a característica singular da nossa “contadora de histórias” se relacionava com a música, com o fado.
Aquando do inicio da possível carreira da D. Ana (aproximadamente 1955) o meio de comunicação social, de disseminação de informação e de entretenimento mais popular era a Rádio. Aqui foi gravado um anúncio do café Sanzala, na voz da D. Ana e que passava todos os domingos e todos os domingos, todos os vizinhos o ouviam e cantavam.
Era este o fator diferenciador e de envolvimento com os outros habitantes da Ilha da Bela Vista. A construção realizada na fase da edição foi fundamental para realçar a principal característica da D. Ana e a alegria que transmitia aos vizinhos.
D. Ana é letrista e fadista.
https://www.youtube.com/watch?v=gG2SoXoFAgw
Em que foi útil esta experiência?
Esta experiência teve uma importância fundamental quer do ponto de vista pessoal como académico. Durante o processo da entrevista foi desenvolvido um nível de empatia que permitiu "olhar" o outro não com a distância de quem observa e ouve um entrevistado, antes sobre um ser humano que se encontrava perante mim e me fez compreender um pouco do meu "ADN", valoriza-lo enquanto parte integrante de mim e da minha identidade.
Também este envolvimento com a D. Ana permitiu-nos conhecer o seu lado mais íntimo e, simultaneamente, as memórias, já transportadas pela família, no que respeita à música. Foi importante para a compreender a sua posição como membro da comunidade da Ilha da Bela Vista, como elemento integrador da Ilha e acima de tudo como a união e a partilha num grupo pode reforçar valores de pertença e construção de realidades culturais integradoras.
Com a decisão tomada no processo de edição parece-me importante abordar o contributo das pessoas, hoje idosas, como alguém que transporta sentimentos, também de alegria - característico da vida em comunidade - e transpõe através das suas memórias bem estar e pertença.
Foi também um reencontro com as minhas memórias.
Este exercício ajudou-me a compreender alguns procedimentos a ter em conta face ao trabalho a desenvolver relacionado com a música tradicional portuguesa, na nossa cidade.
O reforço na vertente emocional para a compreensão da pertença e da identidade e as técnicas passíveis de utilizar para captação e registo de memória oral, que por sua vez conduzem à criação de novas memórias, foram um fator de capital importância para a forma como poderei contribuir no processo coletivo.
Que posso eu fazer a seguir?
Do trabalho realizado no laboratório Rescuing Oral Memory surgiu um grupo de trabalho que vou integrar. Primeira etápa será melhorar o mini-documentário de forma a tornar a narrativa mais coerente e aproximada à construção real. Posteriormente, irei integrar uma equipa na criação de uma plataforma colaborativa que interceptará diferentes interesses de profissionais e cidadãos, abrirá a novos temas sociais e criará um documentário colaborativo.
Ainda neste contexto poderia estabelecer contactos com responsáveis de outras comunidades de forma a integrar os cidadãos neste projeto junto de vizinhos, familiares, das comunidades seja através de coletividades, escolas e centros de apoio onde poderiam posteriormente integrar o trabalho colaborativo e fazer pequenas mostras.
Conceber narrativas audio e dar como ponto de partida à criação ou recriação de algo integrador e representativo das nossas vivências culturais solicitando a recolha de imagens e construção de cenários através de desenho, ilustração ou manifestações performativas (sempre com base nas memórias resgatadas e partilhadas).
É também minha intenção adaptar este projeto a um outro contexto relacionado com a cultura tradicional portuguesa produzida por instrumentos musicais que tiveram as sua origem na cidade e que hoje está disseminado por vários pontos.
O que posso fazer para melhor disseminar o trabalho?
Participando com a captação de registos audio-visuais e partilha-los em plataformas colaborativas e sociais, desenvolver e adaptar o trabalho a outros contextos, envolver os jovens (que me rodeiam) a resgatar memórias junto dos seus familiares e a disseminar nas redes sociais, divulgar o trabalho através do contacto direto com as pessoas dos meus círculos e da partilha nas redes sociais.
Criar um mecanismo de interação onde os cidadãos e intervenientes possam criar (como referido acima), registar e partilhar através de sites ou de ferramentas como o google maps colocando links ou coordenadas geográficas para que outros utilizadores possam visualizar as suas produções. Isto aumenta o envolvimento e consequentemente a circulação do trabalho.