Ele sabia, no momento que colocou seus dedos no cabelo e tentou respirar um ar que soou rarefeito demais, nesse momento ele soube que tava surtando. Rapaz, surtar é um conceito que muitas vezes pode dar margem a interpretações que fogem do que eu quero passar: entenda, então, surtar como uma reação fisiológica e psicológica do nosso personagem, que lhe fugiu todas as possíveis possibilidades de controle consciente, que lhe deixava com falta de ar e dor de barriga além de uma mente que corria e voltava e ia e voltava e corria e voltava sem nunca parar e demonstrar através das infinitas infinitas máscaras que ele não poderia imaginar o por quê do surto. É interessante pontuar, nessa altura da narrativa, que eu também não sei que porra era. Mas a situação era engraçada, a cena. Cômico é uma palavra forte demais, era de uma estranheza absurda, ao que foge do comum, esquisito. E isso nos causa riso, às vezes. De qualquer forma, eu queria capturar esse momento em palavras apesar de agora já to me perdendo em outras frases sem me referir diretamente a cena.
O quarto tinha uma luz escurecida, provavelmente devia ser umas quatro e quarenta e sete, momento em que o sol ainda não nasceu mas já deu indícios de que vai chegar. A luz deixava o quarto com um tom sombrio e gasto e nosso amigo tava de pontacabeça na cama, acordando exatamente nesse momento de um sonho que ele não se lembra – nem eu sei dizer exatamente o que seria. A grande questão é que esse sonho o deixou atormentado e cheio de paranoias quando acordou pulando. Acordou pulando e percebeu que o quarto tava todo sujo e bagunçado, alguns livros no chão, um notebook, bastante poeira no ar; umas pontas na mesa e um cheiro de incenso com maconha. Nada parecia ser agradável a qualquer sentido e talvez isso tenha ajudado na reação extremamente bizarra, que chamamos de surto. Os seus olhos se abriram de forma esbugalhada e terrível, demonstrando no fundo de seus opacos e vazios sentidos, o medo na mais louca forma. Ele olhou o nada como um louco, as pupilas grandes, suor descendo o pescoço, ar rarefeito; tentou expandir os pulmões, sentiu os olhos lacrimejarem. Esticou o braço no chão e pegou o celular, colocou cavalo e irene começou a tocar deixando tudo com o tom branco mas triste. É isso, tudo era branco, mas triste.
Em outras análises, um dia desses que tive que pesquisar a vida do nosso personagem no fundo da minha cabeça, encontrei uns papeis se referindo a umas anotações do seu psicanalista e psicólogo. Tinham umas análises interessantes, mas vou me segurar pra dizer apenas que ele tinha altos potenciais de surtar, realmente. E já havia ocorrido tais surtos em 2012, 2014 e 2015, sempre piorando. Algumas análises voltavam na sua infância pra tentar explicar suas intensas reações de medo aos seus sonhos (não sei se falei que ele sempre surta depois de um sonho que ele nunca lembra, qualquer que seja). Outros, por sua vez, tentam encontrar através da hipnose os signos presentes nesses sonhos, mas sempre acabam na narrativa vaga da nossa personagem. Eu mesmo tentei conversar com ele, outro dia, mas nada consegui encontrar além das mais superficiais ideias.
De qualquer forma, essa narrativa transcorreu tão rapidamente que o surto já havia passado. Eram surtos pequenos, de curtíssima duração, que o deixavam louco e fora de si por minutos consecutivos e solitários, morto de ansiedade e desgraça. Ficava suando e rangendo os dentes e o desespero aparecia em cada poro de sua cara. Nada mais se podia dizer de racional, nesses momentos. Pode ser uma interessante experiência, o puro sentimento, a pura loucura – apesar de eu mesmo não acreditar tanto assim nessas purezas. Por fim ele tomou consciência de tudo e percebeu que era só Tomas, um homem comum, numa vida comum, acordando numa terça feira a tarde. Nada parecia ter mudado e os surtos, depois de tantos anos, pareciam agora apenas parte da famigerada rotina.