ponto estratégico / mercúrio retrógrado
tinha outro pombinho aqui, mas ele quis sair
isso sempre acontece sem ninguém saber, mas dessa vez eu vi
nĂŁo consigo ver meu horizonte nebuloso e incerto, tem um cargueiro na frente
ceci n'est pas l'amérique du sud
— Você mora na Ilha de Paquetá?! Como é lá?
— pra uma prisão que só se acessa por mar ou por ar, é bem bonita.
cĂnico e ilhado / insula
Tiro fotos há muito tempo. Lembro de, aos seis, sete anos de idade, ter feito alguns filmes em stop motion, com brinquedos articulados, tirando fotos deles com uma câmera digital. “Filmes” engrandece a coisa, e muito. Eram experimentações simples, sem narrativa, que eu fazia sĂł para depois deixar o botĂŁo da câmera apertado e ver várias vezes as fotos passando rápido e criando movimento. Claro, se for para colocar isso numa categoria artĂstica, vai ser a da animação experimental. Agora, foto, foto, mesmo, nĂŁo sei precisar quando começou.
Para partir de algum lugar relevante, em 2020, precisei comprar um celular novo, e a qualidade da câmera dele era — infelizmente ainda Ă© — terrĂvel e ironicamente inferior Ă do modelo anterior. Ou pelo menos provocava distorções suficientes nas cores e texturas para me deixar completamente frustrado com todas as imagens capturadas. AĂ, lembrei que alguma gaveta de casa tinha, guardada, uma câmera digital. NĂŁo era a mesma da infância, era uma outra, com uma histĂłria trágica prĂłpria. Trágica no sentido mais cotidiano, “popular” e duplo, como o que o crĂtico literário argentino Ricardo Piglia atrela Ă psicanálise num dos ensaios do seu “Formas Breves”. É um caráter duplo, porque a narrativa psicanalĂtica, assim como a estrutura da tragĂ©dia, encerra uma trama secreta na qual a reviravolta sempre está se preparando, por detrás dos panos. A câmera era espĂłlio de um rompimento conjugal da minha mĂŁe, para explicar brevemente. Uma câmera rosa, a cor do amor mais cafona e popular que pode existir, mas que Ă© tambĂ©m um abrandamento do vermelho, cor do que arde, dĂłi e perturba o juĂzo.
Como estava abandonada ao esquecimento numa gaveta, dentro de seu estojinho preto, peguei para mim. Substituiria muito bem a câmera do celular novo. As cores pela sua lente, embora humilde — meros 14 megapixels —, eram, ainda assim, muito mais fiéis ao que os meus olhos viam, ou então ao que a minha mente projetava por meio deles.
No ano seguinte, 2021, foi a minha vez: o namoro em que eu estive por trĂŞs anos acabou. Acabou mal. O que vinha amadurecendo como um amor rosa — terno como uma flor de aceroleira e alegre como o pĂłlen das anteras —, de repente revelou um fruto de cor vermelha, que arde, dĂłi e perturba o juĂzo. Foi meu primeiro tĂ©rmino. No fim, passada a tempestade, fiquei sem minha amizade mais Ăntima naquele segundo ano pandĂŞmico. De maneira alguma foi isso o que me condenou ao sentimento de solidĂŁo, ele Ă© mais ou menos constante desde o mais longe que a minha memĂłria alcança. NĂŁo obstante ter familiares e amigos queridos, as raizes dessa solidĂŁo sĂŁo mais profundas. É a solidĂŁo de se perceber isolado, ilhado, num deserto de individualidade cercado pelo abismo oceânico que Ă© o real – outro deserto –, despido das palavras e imagens. Conheci recentemente a melhor e mais sucinta expressĂŁo verbal desse sentimento, nas palavras de Clarice Lispector: "E ninguĂ©m Ă© eu. NinguĂ©m Ă© voce. Esta Ă© a solidĂŁo". Aquele tĂ©rmino nĂŁo me apresentou este sentimento, mas me expĂ´s a ele de um jeito novo e inaugurou uma nova investigação interior que se estende, contĂnua, atĂ© hoje.
Durante toda a quarentena, quatro prints de Edward Hopper me fizeram companhia, pendurados nas paredes pálidas do meu quarto. Como disse, nĂŁo sei precisar quando comecei com fotos, mas, com essa câmera rosa, 20, 21, 22 e 23 foram sem dĂşvida os anos mais prolĂficos para a minha prática fotográfica. E, como ela veio depois dos hoppers, para os quais olhei tantas vezes antes dela, sempre que eu interpunha entre uma cena e meus olhos a lente da câmera, percebia que o recorte que a tela me dava tinha a mesma atmosfera de silĂŞncio, placidez e melancolia dos quadros. É irĂ´nico ser possĂvel inserir uma terceira histĂłria, consoante com as outras duas: quem me deu os prints foi uma professora minha de francĂŞs, que nĂŁo mais os queria porque guardavam a memĂłria amarga de um namoro acabado.
Olhando em retrospecto, este segundo semestre de 2023, particularmente o perĂodo letivo, foi um dos momentos, nos Ăşltimos tempos, que menos me renderam cliques — estimo que nem um quarto do que cada semestre anterior angariou. E acredito que seja porque as provocações (d)e crises que me foram colocadas nos estudos desse perĂodo foram tais e tĂŁo pontuais e importantes que me paralisaram e me fizeram olhar mais para dentro. Sintoma disso, em compensação ao nĂşmero baixo de fotos, foi o aumento na minha produção de escrita e autoescrita, porque estas sĂŁo fruto dos olhos atentos de dentro, os da mente.
O que me motiva a tirar fotos, pelo contrário, nunca Ă© algum tipo de assunto premeditado ou investigação filosĂłfica, nada do tipo. Sempre Ă© tĂŁo simplesmente uma compulsĂŁo dos olhos de fora, os verdadeiros, os do corpo; um erotismo visual das formas, ângulos, curvas, cores, desenhos formados por sombras e contrastes, tridimensionalidades, ilusões de planaridade, que me chamam e encantam — como as sirenes a Odisseu —, que me provocam uma lascĂvia visual, num nĂvel do qual Ă s vezes sinto que nem mesmo todos os artistas que conheço compartilham ou compreendem quando eu falo. Ă€s vezes me sinto um pouco alienĂgena por causa disso (e nĂŁo sĂł), mas acho que isso tambĂ©m Ă© mais uma faceta da solidĂŁo que Ă© basilar na estrutura que sustenta o olhar meu que está congelado nas fotos.
Quando solicitado, numa das primeiras aulas do perĂodo, que tirasse fotos do que me afetasse, como meu Ămpeto fotográfico nunca foi discursivo ou sentimental, mas sensorial (estĂ©tico, para usar a palavra grega), cheguei a concluir, desolado, depois de duas semanas, que sĂł podia ser que nada me afetasse! Em dado momento das aulas seguintes, uma das fotos ("mercĂşrio retrĂłgrado"), apresentada num recorte mais fechado, chegou a ser vista como destoante das outras que a acompanhavam, por ser desmasiado "gestáltica", mas agora entendo que foi por eu nĂŁo ter sido capaz de apresentá-la com mais clareza, nem no melhor recorte, e por nĂŁo ter sido capaz de sustentar, Ă ocasiĂŁo, sua completa coerĂŞncia com suas adjuntas e com toda a produção anterior – meu elemento nĂŁo Ă© a fala, Ă© o texto. Os recortes e desenhos angulosos e geomĂ©tricos, os mise-en-abĂ®mes de quadrados dentro de quadrados sempre estiveram presentes nas fotos dos Ăşltimos anos. NĂŁo apenas consigo resgatar agora todo o subtexto de solidĂŁo e solitude que veio germinando, esquecido, na câmara escura atrás dos meus olhos, ao longo de trĂŞs anos, como pude compreender que o meu processo acontece por meio do que vim a chamar de afetações materiais — termo que me chegou do nada, como um nada misterioso, num momento em nada mais especial do que qualquer outro, e que agora parece vestir perfeitamente o fenĂ´meno.
Nessa crise, que se revelou tĂŁo profunda e abrangente, fiz de uns versos de Fernando Pessoa um mantra pessoal:
"[...]
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos pĂncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, Ă© igual aos deuses".
Mas a intencionalidade da minha mente sempre tão lógica (e Lógos é tanto razão quanto discurso), mostrou pouco poder criativo contra o silêncio primitivo e estético do Eros. Foi preciso que antes o desejo pelas formas, com sua sabedoria silenciosa e material, escolhesse seus assuntos mudos, para que somente através deles o Lógos entrasse em sua atividade organizadora.
Embora o motivador primário destas fotos, que formam o recorte mais recente da minha produção, seja sempre uma plasticidade ainda nĂŁo totalmente definida para mim mas que tem apelo fortĂssimo para o meu olhar, a máquina que as captura Ă© psicossomática, isto Ă©, Ă© composta de mente e corpo. Noutras palavras, apesar de estas fotos nunca serem produto ilustrativo de algum tipo de "mensagem" ou "tema" que as preceda, uma vez percebidos, em suas recorrĂŞncias rĂtmicas, compositivas, cromáticas — sinto uma forte influĂŞncia hopperiana na presença dos brancos (e) dos corpos arquitetĂ´nicos —, mimĂ©ticas (no sentido do que está representado em forma de imagem digital bidimensional), tonais..., uma vez percebidos o vazio, o silĂŞncio, a melancolia, a finitude, a introversĂŁo, o cinismo, o isolamento, o olhar para o que há de abadonado ou despercebido e estranho — e, portanto, deslocado, isolado, destacado, ainda que discretamente —, o olhar Ă s vezes para o rastro de uma presença que já nĂŁo existe no quadro, ou da indiferença do tempo Ă ausĂŞncia humana..., depois de tĂŞ-los percebido, Ă© difĂcil ignorá-los.